Saúde e Bem-estar

Não é mimimi: Karla Oliveira expõe como racismo afeta a saúde do negro

Psicóloga Karla Oliveira alerta que o racismo silencioso provoca sofrimento emocional e reforça desigualdades históricas na população negra. Leia e fique por dentro.

A foto mostra Karal Oliveira - psicóloga
Fonte: Acervo Pessoal

O dia 13 de maio, tido como Dia da Abolição da Escravatura, é questionado por movimentos negros e desperta discursos sobre liberdade. Especialistas alertam para uma realidade frequentemente ignorada pela história oficial: o impacto do racismo e saúde mental na população negra. A assinatura da Lei Áurea não garantiu dignidade, reparação ou inclusão social à população negra. Pelo contrário, o país abandonou milhões de pessoas à própria sorte e manteve estruturas de exclusão que atravessam gerações.

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A psicóloga Karla Oliveira, CRP 16/12416, destaca que a data precisa perder o caráter comemorativo e assumir, portanto, um papel de reflexão coletiva. Segundo ela:

“Antes de mais nada, gostaria de contextualizar a data. O dia 13 de maio costuma ser lembrado como a data da liberdade, mas é preciso lembrar que a abolição chegou sem terra, sem trabalho, sem reparação. A população negra foi entregue a uma sociedade construída para excluí-la e o país preferiu narrar isso como gesto de bondade em vez de reconhecer a luta de quilombolas e abolicionistas negros que tornaram a abolição possível. Recordar essa data em seu verdadeiro significado é recusar a mitologia imposta da liberdade e admitir que essa liberdade permanece inacabada, ainda somos reféns, principalmente do racismo silencioso.”

Racismo silencioso afeta a saúde mental

O racismo nem sempre aparece em agressões explícitas. Muitas vezes, ele se manifesta em situações cotidianas. Surge no comentários aparentemente aleatórios. Aparece na desconfiança direcionada ao corpo negro. Também ganha força em piadas naturalizadas socialmente.

De acordo com Karla Oliveira:

“O racismo também opera no silêncio. Está no olhar que segue a criança negra no mercado; no comentário sobre o cabelo; na piada que ninguém contesta; na suposição de que aquele homem negro de terno é o motorista e não, o médico. Frantz Fanon definiu como epidermização da inferioridade o processo em que pessoas negras absorvem, por meio das microviolências diárias, uma imagem distorcida de si mesmas imposta pelo olhar social. Isso faz com que o próprio negro acredite nisso e crie, portanto, mecanismos de defesa que parecem ser inofensivos, mas que aumentam o sofrimento de forma graduada. A colonização não termina quando o colonizador vai embora, ela continua dentro, como ferida psíquica que se renova a cada interação racializada.”

Psicologia precisa enfrentar o racismo estrutural

A psicologia contemporânea também enfrenta cobranças por mudanças. Especialistas defendem uma atuação mais preparada para acolher dores ligadas às relações raciais.

Karla Oliveira afirma:

“As consequências aparecem na clínica. Ansiedade, depressão, hipervigilância, sofrimento ligado à imagem corporal, cabelo, exaustão emocional, ideação suicida e a falta de senso de pertencimento. Não se trata de corrigir uma baixa autoestima individual com técnica de reforço positivo, como Neusa Santos Souza e Lélia Gonzalez já demonstraram. Trata-se de uma resposta esperada a um ambiente social que adoece. A psicologia, para contribuir com isso, precisa fazer, desse modo, seu exame de consciência. Por muito tempo se pretendeu neutra e eurocêntrica, nessa suposta neutralidade, reproduziu o racismo da sociedade que a formou. Profissionais que não estudam relações étnico-raciais, que não leem Fanon, Grada Kilomba, Neusa Santos Souza e Cida Bento, não estão preparados para acolher o que chega ao consultório quando uma pessoa negra adoece. Podem, inclusive, agravar o quadro ao patologizar a raiva legítima ou ao pedir que o paciente se adapte a um mundo que o adoece. Cuidar dessa população exige formação continuada; escuta sobre ancestralidade, território e pertencimento, e a coragem de deixar de tratar a branquitude como universal.”

Pertencimento fortalece autoestima e identidade

Especialistas também defendem políticas públicas, representatividade e espaços de escuta como caminhos para fortalecer, assim, autoestima e pertencimento da população negra.

Para Karla Oliveira:

“Fortalecer autoestima e pertencimento é, no fundo, restituir o que o racismo tenta apagar: o orgulho de um corpo descrito como problema, a possibilidade de ocupar espaços sem precisar provar humanidade a cada porta. O racismo estrutural não se desfaz por boa intenção, se desenraíza por política pública, reparação e presença negra nos lugares de decisão. O 13 de maio, para ter sentido em 2026, precisa deixar de ser comemoração e voltar a ser convocação, inclusive para a psicologia, que tem muito a oferecer, desde que aceite, com a coragem que Fanon pedia, olhar de frente para o espelho que ela mesma ajudou a construir.”

O racismo provoca sofrimento emocional diário na população negra. Combater esse problema exige responsabilidade coletiva para construir uma sociedade mais consciente e antirracista.

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Formada em Letras e Direito, com especialização em Linguística, Literatura e Publicidade & Propaganda. Possui experiência em Gestão Pública e Pedagógica. Atua na editoria de Saúde e Bem-Estar do AQUINOTICIAS.COM, na plataforma Viva Vida.