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Saúde e Bem-estar

OMS classifica adoçante aspartame como possivelmente cancerígeno

O relatório, liberado nesta quinta-feira, 13, categorizou a substância no grupo conhecido como 2b

Por Estadão

em 14 de jul de 2023, às 08h36

5 mins de leitura

Foto: Divulgação

O adoçante artificial aspartame foi classificado como um composto “possivelmente cancerígeno para seres humanos” pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS). O relatório, liberado nesta quinta-feira, 13, categorizou a substância no grupo conhecido como 2b, do qual também fazem parte o extrato de aloe vera, as radiações eletromagnéticas e o digoxina, um medicamento indicado no tratamento de insuficiência cardíaca.

O trabalho foi feito em parceria com o Comitê Conjunto de Especialistas em Aditivos Alimentares (JECFA) da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Os dois órgãos realizaram revisões independentes – mas complementares – da literatura científica. Enquanto a Iarc informa se determinada substância é cancerígena (ou não) e em qual grau, o JEFCA avalia a dosagem considerada segura.

O aspartame entrou no grupo porque a Iarc encontrou evidências limitadas de que ele causa câncer em humanos – mais especificamente o carcinoma hepatocelular, que é um tipo de câncer de fígado. A agência também relatou que há evidências limitadas sobre esse elo em estudos com animais e em relação a possíveis mecanismos de ação. “Temos evidências limitadas, e para um tipo de câncer. Portanto, essa classificação representa mais um chamado para que a comunidade científica realize mais pesquisas com o objetivo de entender melhor o potencial carcinogênico do aspartame”, disse Mary Schubauer-Berigan, representante da Iarc.

Por isso, em paralelo, o JECFA concluiu que ainda não há motivos para alterar o limite máximo de ingestão diária de aspartame, que é de 40 mg por quilo de peso da pessoa.

Substância popular

A análise do aspartame é especialmente bem-vinda devido à popularidade desse adoçante artificial. Conhecido por ser 200 vezes mais doce do que o açúcar, ele entra na fórmula de vários produtos. “O aspartame é encontrado principalmente em bebidas artificiais e industrializadas”, comenta a médica nutróloga Andrea Pereira, do Hospital Israelita Albert Einstein (SP). Sorvetes, iogurtes, gomas de mascar, confeitos, molhos e outras guloseimas também são elaborados com a substância.

Para o oncologista Pedro Exman, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a entrada do aspartame no grupo 2b sinaliza que é preciso pesquisá-lo melhor quanto ao potencial cancerígeno. “Essa lista não é algo que mostra uma relação direta, mas, sim, levanta uma bandeira de alerta”, afirma. Exman lembra ainda que vários fatores costumam estar por trás do desenvolvimento do câncer. Ou seja, o aparecimento de um tumor não pode ser atribuído a uma única causa. Questões como predisposição genética e exposição a outros carcinogênicos devem ser levadas em consideração.

Limite seguro

A inserção do aspartame pelo Iarc no grupo 2b não significa que ele esteja proibido. O relatório do JECFA mantém a indicação de 40 mg por quilo de peso como um limite diário seguro. Francesco Branca, diretor do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS, ressaltou que se trata de uma quantidade bastante significativa.

Para a nutricionista Maria Eduarda de Melo, da Área Técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do Instituto Nacional de Câncer (Inca), embora o limite realmente seja amplo, isso não significa que o aspartame não mereça um olhar cauteloso. Ela lembra que, em maio deste ano, com base em uma série de estudos, a OMS deixou de recomendar o uso de adoçantes artificiais como estratégia para perder peso ou evitar doenças como diabete – questões que sempre tiveram grande apelo. “E, agora, vem essa classificação da Iarc. Por mais que seja um alerta, a pergunta que fica é: se não há benefícios, e ele pode vir a ser considerado cancerígeno, por que consumir?”, questiona a nutricionista.

No cenário ideal, segundo especialistas, os adoçantes artificiais (de maneira geral) deveriam ser utilizados por pessoas que precisam deles por condições de saúde, como no caso de pacientes com diabetes do tipo 2. E, mesmo assim, o conselho é que essa ingestão seja orientada por um nutricionista ou médico.

Para Branca, as pessoas – sobretudo as crianças – precisam evitar a ingestão exagerada tanto de açúcar como de adoçantes artificiais. “Há alternativas que não têm nenhum dos dois, e elas devem ser priorizadas”, comentou o diretor de nutrição da OMS.

Agência já avaliou risco de mais de mil substâncias

Desde 1971, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), ligada à OMS, avalia o potencial carcinogênico de uma série de elementos, de produtos químicos a fatores de estilo de vida. Segundo a entidade, “grupos de cientistas especializados revisam os estudos publicados e avaliam a força das evidências disponíveis de que um agente pode causar câncer em humanos”.

Até agora, mais de mil agentes passaram por esse crivo, sendo que mais de 500 foram enquadrados como “carcinogênicos”, “provavelmente carcinogênicos” ou “possivelmente carcinogênicos” para humanos. Segundo a oncologista clínica Laura Testa, da Oncologia D’Or e chefe do Grupo de Oncologia Mamária do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), é um trabalho muito valioso, pois as evidências científicas estão fragmentadas.

“A Iarc busca classificar as substâncias de acordo com seu potencial cancerígeno para, principalmente, informar a população e os sistemas de saúde sobre os riscos que determinadas substâncias podem representar”, esclarece o oncologista Felipe Coimbra, líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C. Camargo Cancer Center (SP).
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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