Covid longa pode afetar a dopamina e prejudicar a memória
Estudo identificou alterações em um marcador ligado à dopamina em pessoas com Covid longa, mas ainda não comprovou a causa dos sintomas.

A fadiga persistente, a falta de motivação e as dificuldades de memória estão entre os sintomas que podem continuar por meses após a infecção pelo coronavírus. Agora, um estudo publicado na revista científica “eBioMedicine” aponta uma possível ligação entre essas manifestações da Covid longa e alterações no sistema de dopamina do cérebro.
Pesquisadores identificaram uma redução de até 20% em um marcador associado às terminações nervosas que liberam dopamina em pessoas com sintomas neuropsiquiátricos persistentes. Os resultados ajudam a investigar possíveis mecanismos da doença, mas ainda não comprovam uma relação direta de causa e efeito.
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Como a Covid longa pode afetar a dopamina?
A dopamina é um neurotransmissor, substância química que permite a comunicação entre os neurônios. Ela participa de funções como motivação, iniciativa, controle dos movimentos e processos cognitivos.
Para investigar uma possível relação com a Covid longa, os pesquisadores compararam exames cerebrais de 24 adultos com a condição e 24 pessoas saudáveis de idade semelhante.
Os exames identificaram níveis reduzidos de ligação ao transportador vesicular de monoaminas 2, conhecido como VMAT2. Essa proteína está presente em pequenas vesículas que armazenam neurotransmissores nas terminações nervosas.
No estriado, região cerebral envolvida na motivação, nos movimentos e em funções cognitivas, os pesquisadores encontraram reduções em três áreas:
- Estriado ventral: redução de aproximadamente 20% no marcador, associada a maior apatia.
- Putâmen dorsal: queda de cerca de 16%, relacionada a movimentos mais lentos.
- Caudado dorsal: redução próxima de 17%, associada a pior desempenho em testes de memória verbal.
Essas associações oferecem pistas sobre os mecanismos que podem contribuir para alguns sintomas da Covid longa. Entretanto, os pesquisadores ainda precisam esclarecer o significado dessas alterações.
Quais sintomas podem estar relacionados a essa alteração cerebral?
Os participantes com Covid longa apresentavam apatia e pelo menos cinco sintomas neuropsiquiátricos associados a episódios depressivos, incluindo baixa energia, dificuldade de concentração, humor deprimido e problemas de memória.
A apatia envolve a redução da motivação e da iniciativa para realizar atividades. Na rotina, a pessoa pode sentir dificuldade para começar tarefas ou manter o interesse em atividades habituais.
Já a lentidão motora pode tornar os movimentos e as tarefas cotidianas mais demorados. As dificuldades cognitivas, por sua vez, podem prejudicar a concentração e a capacidade de recordar informações.
No entanto, esses sintomas não indicam necessariamente uma alteração na dopamina. Eles podem ter diferentes causas e exigem avaliação individualizada.
A redução do marcador significa perda de neurônios?
Não necessariamente. O exame utilizado na pesquisa mediu a ligação ao VMAT2, uma proteína presente nas vesículas que armazenam dopamina nas terminações nervosas.
Uma redução desse marcador pode indicar menor integridade dessas terminações. Porém, também pode refletir mudanças na quantidade de vesículas ou de proteínas presentes em cada terminação nervosa.
Além disso, os pesquisadores examinaram os participantes apenas uma vez. Por isso, não conseguiram determinar quando as alterações surgiram nem se elas podem desaparecer durante a recuperação.
A amostra também era pequena e incluía pessoas com manifestações específicas da Covid longa. Portanto, os resultados não representam necessariamente todos os pacientes com a condição.
O que pode provocar alterações na dopamina após a Covid-19?
Uma das hipóteses envolve a neuroinflamação, processo inflamatório que afeta o sistema nervoso. Segundo os pesquisadores, a inflamação nas proximidades dos neurônios pode contribuir para alterações nas terminações que liberam dopamina.
Outra possibilidade envolve uma ação direta do coronavírus sobre essas células. Os cientistas também consideram mecanismos relacionados a alterações vasculares, respostas imunológicas persistentes e funcionamento das mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia nas células.
Entretanto, o estudo não mediu diretamente a neuroinflamação nem demonstrou que o vírus tenha provocado as alterações observadas.
Novas pesquisas precisam investigar esses mecanismos e acompanhar pacientes ao longo do tempo para esclarecer a relação entre a infecção e os sintomas persistentes.
Existe tratamento para recuperar a dopamina na Covid longa?
Ainda não há evidências suficientes para recomendar medicamentos que atuam na dopamina como tratamento rotineiro para os sintomas da Covid longa.
Os resultados abrem caminho para ensaios clínicos que avaliem se intervenções direcionadas a esse sistema podem melhorar a memória, a motivação e a velocidade dos movimentos.
Os pesquisadores planejam um estudo controlado com cerca de 100 participantes para investigar essa possibilidade. Até que novas evidências estejam disponíveis, não é possível afirmar quais medicamentos poderiam ajudar ou quais pacientes se beneficiariam.
Quem apresenta fadiga persistente, dificuldades cognitivas ou outros sintomas após a Covid-19 deve procurar avaliação profissional. O acompanhamento permite investigar diferentes causas e definir os cuidados adequados, sem recorrer à automedicação.
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