O destino religioso que guarda séculos de história no Sul do Espírito Santo

A história do Santuário de Nossa Senhora das Neves, situado a 27 quilômetros da sede do Município de Presidente Kennedy, no Sul do Estado do Espírito Santo, dentro do território da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, está profundamente entrelaçada com uma das mais antigas devoções marianas da Igreja Latina. Antes de conhecer mais sobre a formação do templo e da paróquia, é essencial compreender a origem dessa devoção secular.
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Origem da devoção a Nossa Senhora das Neves
Segundo registros presentes no livro Minha Biblioteca Católica, a devoção a Nossa Senhora das Neves remonta ao século IV, durante o pontificado do Papa Libério. A tradição relata que, em pleno verão romano — mês de agosto — ocorreu uma queda milagrosa de neve sobre o Monte Esquilino, indicando o local onde deveria ser construída uma igreja dedicada à Virgem Maria. Ali foi erguida a Basílica de Santa Maria Maior, que até hoje guarda o célebre ícone da Salus Populi Romani, a Protetora do Povo Romano. A festa litúrgica de Nossa Senhora das Neves é celebrada em 5 de agosto, carregando um legado espiritual que atravessa séculos.
A devoção e os Jesuítas
A propagação dessa devoção pelo mundo está diretamente ligada à Companhia de Jesus. No século XVI, São Francisco Borja, terceiro superior geral dos Jesuítas, obteve permissão papal para produzir cópias fiéis do ícone da Salus Populi Romani. Essas imagens foram distribuídas pelos colégios jesuítas e enviadas com missionários para a evangelização das Américas e da Ásia.
Entre esses missionários estava o Beato Inácio de Azevedo, que adotou o ícone de Nossa Senhora das Neves como seu escudo espiritual. Ele morreu abraçado à imagem quando foi martirizado em alto-mar, juntamente com outros 39 jesuítas, por corsários calvinistas huguenotes. Por esse motivo, Nossa Senhora das Neves tornou-se a protetora das missões jesuíticas no Brasil.
Chegada da devoção ao Espírito Santo

A devoção a Nossa Senhora das Neves chegou ao Espírito Santo com os padres jesuítas a partir do século XVII. Eles adentraram o território capixaba navegando pelo Rio Itabapoana e estabeleceram-se na Fazenda Muribeca, importante centro de produção agrícola que sustentava as missões da região.
Foi nesse contexto que se iniciou a construção do Santuário de Nossa Senhora das Neves, em 1694 (século XVIII), sob a liderança do Padre Almada. O templo, erguido com pedras retiradas dos arrecifes da costa capixaba e argamassadas com cal, exigiu o trabalho de indígenas catequizados e escravizados que atuavam na Fazenda Muribeca. Suas paredes estruturais de pedra sustentam um telhado de madeira coberto por telhas de barro tipo canal.
A imagem de Nossa Senhora das Neves chegou ao Espírito Santo em 5 de agosto de 1750, trazida diretamente de Portugal e destinada à região de Muribeca, hoje pertencente ao Município de Presidente Kennedy.
Incêndio, restaurações e tombamentos
Em 1964, um incêndio destruiu o telhado e parte do altar do Santuário, mas a imagem de Nossa Senhora das Neves permaneceu intacta. No ano seguinte, iniciaram-se as obras de restauração do templo.
A imagem histórica passou por dois processos de restauro: o primeiro em 1995 e o segundo em 2017, este realizado pelo Núcleo de Restauro e Conservação da Universidade Federal do Espírito Santo.
O Santuário foi tombado pelo Município de Presidente Kennedy em 17 de janeiro de 1995 e pelo Governo do Estado do Espírito Santo em 26 de novembro de 2008.
Em 2024, a Festa de Nossa Senhora das Neves foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Espírito Santo, por meio da Lei Ordinária Estadual nº 12.169/2024.
Devoção do Norte Fluminense
A devoção dos fiéis do Norte Fluminense ao Santuário é antiga e remonta ao século XVI. Localizado às margens do Rio Itabapoana — divisa natural entre Espírito Santo e Rio de Janeiro — o Santuário era facilmente acessado por navegação, principal via de deslocamento da época. Assim, romeiros fluminenses passaram a frequentar as festividades, tradição que permanece viva até hoje.
Criação da Paróquia Nossa Senhora das Neves

Antes da criação da paróquia, diversos padres atendiam a comunidade desde a década de 1940, entre eles: Padre Irineu, Padre Otávio, Padre José, Padre Luiz Rhor, Padre Henrique Huben, Padre Zanett, Padre Domingos, Padre Luciano, Padre Guido, Padre Norberto, Padre Ribot e Padre Nazareno.
Com o crescimento das atividades religiosas, algumas igrejas foram construídas na sede do município, incluindo a dedicada à Nossa Senhora da Penha.
Em 22 de fevereiro de 1986, Dom Luiz Mancilha Vilela ss.cc. assumiu a Diocese de Cachoeiro de Itapemirim. Ele enviou o Diácono José Carlos Turbay para preparar jovens e adultos para o Sacramento do Crisma e formar novos catequistas.
Em 2 de agosto de 1986, Dom Luiz presidiu a celebração que crismou 18 pessoas. Na ocasião, recebeu uma carta solicitando a criação da paróquia e a construção da casa paroquial. O bispo orientou que a casa fosse construída pela própria comunidade, com forte participação dos leigos.
Com o apoio do Padre Nazareno e de um círculo bíblico formado por 12 famílias, iniciou-se a mobilização.
Em 6 de fevereiro de 1987, um grupo de fiéis de Presidente Kennedy participou da ordenação presbiteral do diácono Antônio Tatagiba Wimecart, que seria o primeiro pároco da futura paróquia.
Em 17 de março de 1987, o Padre Antônio Tatagiba iniciou os trabalhos pastorais na cidade, auxiliado por doze seminaristas que evangelizaram todas as comunidades e organizaram novas pastorais.
Finalmente, em 22 de outubro de 1989, durante celebração presidida por Dom Luiz Mancilha Vilela ss.cc., foi instalada oficialmente a Paróquia Nossa Senhora das Neves, tendo o Padre Antônio Tatagiba Wimecart como seu primeiro pároco.
Párocos da Paróquia Nossa Senhora das Neves
- 1º – Padre Antônio Tatagiba Wimecart
- 2º – Padre Darcy Altoé
- 3º – Padre Geraldo de Oliveira, C.Ss.R. (redentorista)
- 4º – Padre Antônio da Luz Miranda
- 5º – Padre Rogério Guimarães
- 6º – Padre Antônio José de Nazareth
Atualmente, a paróquia é composta por 31 comunidades eclesiais de base, mantendo viva a fé e a tradição iniciadas há mais de três séculos pelos missionários jesuítas.
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