Saúde e Bem-estar

Nova NR-1 coloca a saúde mental no centro das relações de trabalho

A foto alude à lei NR-1
Fonte: Magnific

A saúde mental passou a ocupar um espaço ainda mais importante nas relações de trabalho no Brasil. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), empresas agora precisam identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais que possam comprometer o bem-estar dos trabalhadores.

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A nova exigência amplia a responsabilidade dos empregadores na prevenção de problemas como assédio moral, pressão excessiva por metas, sobrecarga de trabalho, conflitos interpessoais e estresse ocupacional. A medida faz parte das ações do Ministério do Trabalho e Emprego para reduzir o adoecimento relacionado ao ambiente profissional.

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O que muda com a atualização da NR-1?

A principal mudança consiste na obrigatoriedade de incluir os riscos psicossociais na gestão de segurança e saúde do trabalho.

Na prática, as empresas deverão avaliar fatores que podem afetar o equilíbrio emocional dos colaboradores e adotar medidas preventivas para reduzir esses impactos.

Entre os principais riscos que passam a receber atenção estão:

  • assédio moral;
  • excesso de cobrança por resultados;
  • jornadas exaustivas;
  • sobrecarga de trabalho;
  • conflitos entre equipes;
  • ambientes organizacionais tóxicos;
  • estresse ocupacional.

A proposta busca estimular ambientes corporativos mais seguros, saudáveis e humanizados.

Afastamentos por transtornos mentais preocupam

A atualização da norma ocorre em um momento de crescimento expressivo dos problemas relacionados à saúde mental no país.

Segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o Brasil registrou mais de 534 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais em 2025, o maior número da série histórica.

Esse cenário reforça a necessidade de estratégias capazes de prevenir o adoecimento antes que ele provoque afastamentos prolongados e prejuízos para trabalhadores e empresas.

Especialista destaca que problemas já existiam

Para o advogado trabalhista Alexandre Casciano, a NR-1 formaliza uma responsabilidade que já deveria integrar a rotina das organizações.

“Todo movimento social que é abraçado pelo legislador e se transforma em norma gera expectativa de que venha solucionar anseios da população. A NR-1 traz as condições de trabalho no intuito de evitar doenças psicossomáticas ao trabalhador, provenientes de assédio moral, pressão por metas abusivas e impossíveis, falta de condições de trabalho e desequilíbrio de equipe quanto ao relacionamento interpessoal. As questões não são novas, apenas foram normatizadas”, afirma.

O especialista também observa que a efetividade da medida dependerá da forma como a Justiça do Trabalho continuará analisando processos envolvendo adoecimento emocional e danos morais.

“As decisões acabam sendo subjetivas e os valores variam de acordo com o entendimento dos juízes”, destaca.

Saúde mental deixa de ser tema secundário

Na avaliação da psicanalista Cíntia Castro, a atualização representa um avanço importante para tornar o sofrimento emocional mais visível dentro das empresas.

“A norma, por si só, é um excelente ponto de partida porque tira o sofrimento psíquico da invisibilidade e o coloca na agenda oficial das empresas. Mas, para ela realmente funcionar, precisamos entender que saúde mental não se resolve apenas preenchendo planilhas, assinando relatórios ou criando um dia do bem-estar. É muito mais complexo e profundo.”

Segundo a especialista, o grande mérito da nova regulamentação consiste em ampliar o debate e incentivar mudanças culturais nas organizações.

O impacto pode chegar aos processos trabalhistas

A nova NR-1 também deve influenciar as relações jurídicas entre empresas e trabalhadores. Para Alexandre Casciano, a norma oficializa princípios básicos de respeito nas relações profissionais.

“Trata de simples oficialização de uma norma, tratando da obrigação, ao empregador, de tratar o empregado com humanidade, respeito e equilíbrio e, ao empregado, prestar serviço com seriedade, responsabilidade e foco. É o que se espera da relação trabalhista.”

O advogado acredita que áreas de compliance e governança corporativa passarão a dedicar maior atenção aos riscos psicossociais.

Já Cíntia Castro entende que a principal mudança ocorrerá na cultura organizacional: “O que muda no dia a dia é que a saúde mental sai dos bastidores e vai para a mesa de reuniões. A cobrança diária deixa de ser apenas sobre o quanto foi produzido e passa a incluir também a que custo humano isso foi gerado.”

Denúncias sobre assédio tendem a crescer

Os especialistas concordam que as discussões sobre saúde mental devem ganhar ainda mais espaço.

Para Alexandre Casciano, o aumento das ações trabalhistas já vinha acontecendo antes mesmo da atualização da NR-1: “A quantidade de reclamações trabalhistas que falam sobre assédio moral e doenças psicossomáticas adquiridas no trabalho já tem aumentado ao longo dos anos, tendo sido distribuídas cerca de 77 mil ações em 2022, 117 mil em 2024 e 143 mil em 2025. A tendência é de aumento, porém, não por conta da NR-1, mas porque a sociedade, de maneira geral, está mais imediatista e fragilizada emocionalmente.”

Já Cíntia Castro acredita que o crescimento das denúncias representa um avanço na proteção dos trabalhadores: “A tendência é que sim, mas não porque a norma cria o problema, e sim porque ela rompe uma represa de silêncio. A NR-1 funciona como um equalizador de voz: dá nome e contorno ao sofrimento que antes era calado por medo. Esse aumento não é oportunismo, é a manifestação de um sintoma que finalmente pode ser verbalizado.”

O desafio será transformar a cultura das empresas

A atualização da NR-1 representa um marco para a saúde ocupacional no Brasil, mas especialistas ressaltam que o sucesso da medida dependerá da sua aplicação prática. Mais do que cumprir uma obrigação legal, as empresas precisarão construir ambientes de trabalho equilibrados, respeitosos e emocionalmente seguros. A prevenção do adoecimento mental exige diálogo, liderança preparada, políticas permanentes de acolhimento e compromisso com o bem-estar das pessoas. Assim, a nova norma pode contribuir para relações de trabalho mais saudáveis e sustentáveis.

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