Saúde e Bem-estar

Saúde mental no campo: como identificar e acolher a dor invisível?

Seminário inédito no Espírito Santo orienta comunidades rurais a identificar sinais de sofrimento emocional e buscar apoio.

A foto mostra o encerramento do Seminário Raízes que Cuidam
Fonte: GFC l Acervo Institucional

Muitas pessoas acreditam que a rotina ao ar livre garante uma vida calma e livre do estresse. Contudo, essa ideia de que quem trabalha no campo não enfrenta problemas emocionais é um mito perigoso. Independentemente da idade, do gênero ou da situação financeira, agricultores e moradores rurais lidam com uma pressão diária gigantesca. Preocupações com clima, dívidas e o isolamento geográfico, entre outros problemas, afetam diretamente o bem-estar da família rural.

Pensando nisso, profissionais de diversas áreas participaram do seminário Raízes que Cuidam nesta sexta-feira, 2 de outubro. O evento gratuito ocorreu das 8h às 14h, no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), em Venda Nova do Imigrante. O encontro reuniu extensionistas rurais, educadores, profissionais de saúde e lideranças comunitárias para quebrar tabus e fortalecer redes locais de apoio.

Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aqui

Leia também – Estresse, ansiedade e solidão podem afetar a saúde do coração

Quem pode ajudar pessoas em sofrimento emocional na área rural?

Toda a comunidade pode atuar como um elo de acolhimento. Agentes de saúde, técnicos agrícolas, professores e vizinhos costumam conviver de perto com os produtores. Por causa dessa proximidade, eles conseguem notar as primeiras mudanças de atitude em quem precisa de suporte.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que fortalecer laços comunitários e garantir o acesso a informações claras salva vidas. Por isso, integrar assistência técnica, saúde e assistência social ajuda a identificar precocemente quadros de depressão e ansiedade no interior.

Por que a vida no meio rural impacta o bem-estar psicológico?

Trabalhar na agricultura exige lidar com fatores imprevisíveis. Além da sobrecarga física, oscilações no preço da safra e eventos climáticos extremos geram insegurança constante. A falta de convivência social diária também amplia a sensação de solidão.

A psicóloga Luísa Bravim explica que precisamos olhar para a rotina de quem produz nosso alimento com empatia. Ela destaca que ouvir sem julgamentos e cultivar o companheirismo entre vizinhos previne o adoecimento. Além disso, observar comportamentos isolados ajuda a agir antes que o quadro se agrave.

Quais sinais indicam que é hora de buscar ajuda profissional?

Mudanças repentinas no humor, perda de interesse pelo trabalho, insônia e isolamento são alertas claros. O pastor Miquéias Holz, que acompanha comunidades rurais em Santa Maria de Jetibá, ressalta a força das conversas sinceras entre conhecidos.

Especialista em poimênica — conjunto de práticas de acompanhamento e cuidado pastoral —, ele explica que a proximidade física e a confiança facilitam o diálogo sincero. O líder religioso utiliza esse acolhimento cotidiano para quebrar preconceitos e incentivar a comunidade a olhar para a saúde emocional de forma aberta e ética.

Porém, o acolhimento comunitário não substitui o tratamento médico. O médico psiquiatra Dr. Júlio Godoy ressalta que atitudes cuidadosas abrem caminho para o diálogo, mas o sofrimento intenso exige diagnóstico e acompanhamento especializado. Quando surgirem sinais severos ou pensamentos autodestruitivos vísiveis, a família deve procurar imediatamente a unidade de saúde mais próxima.

Roda de conversa e troca de ideias

A participação expressiva de técnicos, agricultores, veterinária, engenheira civil, jornalista, professoras, assistentes sociais e profissionais de diferentes áreas mostrou, portanto, que a saúde mental no meio rural ultrapassa os limites do campo. Durante a roda de conversa, realizada com os três palestrantes e Kátia Quedevez, organizadora do evento, os participantes tiveram, assim, a oportunidade de falar, ouvir, compartilhar experiências e refletir sobre situações que fazem parte não apenas do trabalho, mas também de outras dimensões da vida.

Nesse sentido, a troca de experiências reforçou a importância de criar espaços seguros para o diálogo. Ao mesmo tempo, o encontro mostrou como diferentes perspectivas podem ampliar a compreensão sobre saúde mental e aproximar o tema da realidade de cada comunidade.

Além disso, a participação ativa do público demonstrou o interesse em manter esse tipo de discussão. Por isso, muitos participantes defenderam a realização de novas edições, com a possibilidade de levar o debate a outras comunidades e ampliar a rede de diálogo sobre saúde mental no meio rural.

O seminário Raízes que Cuidam foi uma realização do Conexão Safra. O evento contou com o apoio do Sicoob, Mútua, Ifes, Senar-ES, Faes, Incaper e Prefeitura de Venda Nova do Imigrante.

Você no aquinoticias.com

Presenciou algo importante na sua cidade? Tem uma denúncia, reclamação ou um vídeo exclusivo? Sua sugestão pode virar notícia. Envie agora para o nosso WhatsApp: (28) 99991-7726

Formada em Letras e Direito, com especialização em Linguística, Literatura e Publicidade & Propaganda. Possui experiência em Gestão Pública e Pedagógica. Atua na editoria de Saúde e Bem-Estar do AQUINOTICIAS.COM, na plataforma Viva Vida.