Profª Yerecê e os silêncios que expressam emoções
Professora de Libras, Yerecê Chiesa mostra como o silêncio pode revelar empatia, inclusão e novas formas de comunicação.

“Antes de existir a voz existia o silêncio/O silêncio/Foi a primeira coisa que existiu/Um silêncio que ninguém ouviu” – Arnaldo Antunes
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiEm meio a vozes silenciadas, pessoas invisibilizadas, há uma mulher, a Profª Yerecê, que emergiu, na esfera da Educação, com a ideia de provar que a ausência de som, de palavras que, à primeira vista, pode parecer que o silêncio é ausência de sentido, é exatamente o contrário.
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Em uma sociedade reificada e barulhenta, em que todos têm opiniões sobre tudo, em que a maioria grita argumentos, quase sempre vazios, há pessoas e professores que transitam entre silêncios carregados de sentidos. Esses silêncios só precisam de tempo e de delicadezas para serem interpretados:
“Houve/ (há)/ um enorme silêncio/ anterior ao nascimento das estrelas antes da luz/ a matéria da matéria/ de onde tudo vem incessante e onde tudo se apaga/ eternamente/ esse silêncio/ grita sob nossa vida e de ponta a ponta a atravessa/ estridente” – Ferreira Gullar
Principalmente as mulheres pertencem à turma dos silenciados na historicidade humana e hoje, 8 de março, o Aqui Notícias escuta e abre espaço para uma delas – professora de Libras, a Yerecê Regina Medeiros Simões Chiesa.
Em um diálogo cheio de memórias e de afetos, Profª Yerecê tece silêncios potentes e sons que vencem barreiras de preconceitos e de falta de informações:
1. Profª Yerecê, conte-nos um pouco sobre você
Meu nome é Yerecê Regina Medeiros Simões Chiesa. Sou professora aposentada da rede pública do Espírito Santo, com atuação nas redes municipal e estadual de ensino, especialmente, em Cachoeiro de Itapemirim, onde lecionei no Ensino Fundamental I e II.
Sou formada em Letras — Português e Literatura e especialista em Literatura Brasileira e Contemporânea; Psicopedagogia; Psicanálise; Gestão Escolar e Educação Especial. Também realizei cursos voltados ao atendimento de crianças com autismo, TDAH, baixa visão e surdez. Além disso, atuei no ensino superior, como professora de Libras, no Centro Universitário São Camilo-ES.
Atualmente, atuo nas áreas de psicopedagogia e psicanálise, com atendimentos voltados para crianças, apoiando o desenvolvimento da aprendizagem, da linguagem, da cognição e da inclusão. Esse fazer continua sendo minha paixão.
Dediquei minha trajetória à educação de pessoas surdas. Prefiro usar o termo surdos, pois acredito que todos nós temos limitações e que a surdez não define incapacidade.
2. Como você penetrou no mundo silencioso e cheio de significados?
Estudei no Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), no Rio de Janeiro, onde aprofundei meus conhecimentos em Libras. Ao retornar à escola, procurei introduzir a Língua Brasileira de Sinais-Libras no processo de alfabetização, embora, na época, ainda predominasse o método oralista, que priorizava a fala. Enfrentei muitas barreiras.
Quando voltei à escola, os alunos surdos ficaram encantados ao perceber que eu havia me interessado por Libras e pela forma como se comunicavam. O brilho nos olhos deles me motivou a me aprofundar na língua e a dedicar minha trajetória à educação de surdos. Aprendi que eles valorizam profundamente quando alguém se dispõe a aprender sua língua e a construir uma comunicação verdadeira.
Para mim, a Libras vai além de uma ferramenta pedagógica. Ela possibilita expressão, identidade e participação social. Por meio dos sinais e do olhar, a pessoa surda se comunica e se conecta com o mundo. Afinal, comunicação é vida.
3. O que a Língua Brasileira de Sinais ensinou a você sobre escuta, silêncio e empatia?
A Língua Brasileira de Sinais me ensinou que escutar vai muito além de ouvir. Aprendi que a verdadeira escuta acontece com atenção, presença e sensibilidade. No convívio com pessoas surdas, percebi que o silêncio não é ausência, mas um espaço rico de comunicação, feito de olhares, gestos e expressões.
A Libras também me ensinou a desenvolver empatia. Ao compreender a forma como os surdos percebem e se relacionam com o mundo, aprendi a respeitar outras maneiras de existir e de se comunicar. Assim, entendi que a comunicação é multifacetada e exige de cada um de nós dedicação ao outro e as suas potencialidades.
Ao escolher trabalhar com pessoas com deficiências, precisei também deixar para trás, de certa forma, aquela essência tão marcante de lidar com o convencional e aprender a me relacionar com muitos desafios e poucas referências.
Todas essas mudanças fazem a gente, no início, sentir receio. Há medos de ousar, de sair daquilo que já conhecemos. Mas vale a pena. Para mim, foi algo muito positivo.
Hoje eu me sinto fortalecida. Trabalhar com as adversidades me atrai, porque cada criança é única. Cada uma precisa de um olhar próprio, de um protocolo diferenciado, de um respeito profundo à sua individualidade, afinal, “Não existiria som/Se não houvesse o silêncio (…)” – Lulu Santos.
Ousar significa também doar o nosso tempo para aqueles que precisam de um olhar mais atento, de uma escuta sensível e diferenciada. Porque, querendo ou não, vivemos cercados por um turbilhão de sons, de informações e de pressões que, muitas vezes, tiram-nos do eixo. Por isso, é fundamental buscar sempre o equilíbrio. Corpo e mente precisam estar em constante harmonia.
4. O que diferencia inclusão real de inclusão performática?
A acessibilidade ainda enfrenta muitas limitações. Falta não apenas vontade política, mas o mundo carece, também, de compromisso real com a aplicação das leis e com a criação de condições que garantam inclusão verdadeira.
Infelizmente, o que vemos, muitas vezes, é a inclusão performática. Ela ocorre quando instituições, empresas ou governos afirmam apoiar a inclusão, mas não promovem mudanças reais para garantir participação e igualdade. Na prática, trata-se de uma inclusão apenas simbólica ou superficial. Ela aparece em discursos, campanhas, eventos ou documentos, porém não se traduz em ações concretas.
As pessoas com deficiências possuem capacidade, inteligência e talentos, mas ainda recebem poucas oportunidades para demonstrar seu potencial. Muitas crianças que atendo me surpreendem, diariamente, com suas habilidades e potencialidades.
Defendo que a acessibilidade precisa se tornar uma cultura, baseada no respeito às diferenças e no compromisso de garantir condições reais de participação. Hoje, infelizmente, até a mobilidade básica ainda é difícil para muitas pessoas, seja pela falta de estrutura adequada nas cidades, seja pela ausência de políticas efetivas de inclusão. A inclusão verdadeira remove barreiras e cria oportunidades concretas para todos.
5. Hoje, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, como você se vê em um mundo tão violento e misógino?
Eu precisei me reinventar. As diversas crises (econômica, política, climática, existencial etc) me afetam de forma profunda. Um professor acredita em promoção de pessoas, por isso, ele precisa de apoio, respeito, valorização e de se sentir capaz de melhorar a vida do outro.
Nesse meu processo de reinvenção, negando o etarismo — porque hoje eu sou uma jovem senhora aposentada —, eu acabei criando um consultório. Nele, atendo crianças diversas.

Isso aconteceu porque a escola de surdos foi fechada. E uma criança de seis anos, que tem implante coclear, procurou-me quando eu estava me aposentando da prefeitura.
Foi justamente o acompanhamento dessa criança surda, com implante coclear, que me motivou a criar esse espaço e continuar meu trabalho. Sei que é “Difícil fotografar o silêncio./ Entretanto tentei. Eu conto:/(…) Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume.” – Manoel de Barros.
Para todas as mulheres, eu desejo que elas cultivem coragem, empatia e compromisso com a inclusão real, transformando conhecimento e sensibilidade em caminhos de cuidado e transformação social. Além disso, desejo leis que lhes garantam respeito, segurança, dignidade e vida plena.
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