Saúde e Bem-estar

Alta hospitalar não encerra o cuidado e período em casa exige atenção após cirurgias

Maria Luiza Assis, médica cirurgiã com experiência em gestão hospitalar e assistência domiciliar, explica como protocolos, comunicação entre equipes e orientação individualizada podem reduzir vulnerabilidades no período pós-operatório

A saída do hospital costuma representar um marco positivo para quem passou por uma cirurgia, mas a alta não significa necessariamente o encerramento do período de maior atenção. É justamente fora da estrutura hospitalar que o paciente e a família passam a assumir parte importante dos cuidados, enquanto alterações na ferida operatória, uso inadequado de medicamentos ou demora na identificação de sinais de complicação podem interferir na recuperação.

O problema integra uma discussão mais ampla sobre segurança assistencial. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que aproximadamente um em cada dez pacientes sofre algum dano durante a assistência à saúde e que mais da metade desses episódios pode ser evitada. Entre as ocorrências estão erros relacionados a medicamentos, infecções associadas à assistência e procedimentos cirúrgicos inseguros.

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A dimensão do tema aumenta quando se considera o volume de intervenções realizadas. Mais de 300 milhões de procedimentos cirúrgicos são feitos anualmente no mundo, segundo a OMS. A organização informa ainda que complicações após operações realizadas em pacientes internados podem ocorrer em até 25% dos casos e que uma parcela importante dos danos evitáveis associados à cirurgia acontece antes ou depois do procedimento, e não necessariamente dentro da sala de operação.

Para a médica cirurgiã Maria Luiza Gonçalves Tabacchi Assis, essa realidade exige que a segurança cirúrgica seja compreendida como um processo que ultrapassa o ato operatório.

“Existe uma concentração natural de atenção sobre a cirurgia, mas o resultado também depende do que acontece depois dela. O paciente precisa saber o que é esperado durante a recuperação, como conduzir os cuidados indicados e, principalmente, quais alterações representam sinais de alerta e exigem uma nova avaliação médica”, afirma.

A avaliação encontra respaldo na literatura científica. Uma revisão sistemática publicada no American Journal of Surgery analisou intervenções de transição assistencial especificamente em pacientes cirúrgicos. Entre os estudos avaliados, estratégias envolvendo planejamento de alta, educação do paciente, acompanhamento na atenção primária e visitas domiciliares apresentaram reduções nas readmissões em diferentes populações e contextos. Os autores, porém, destacaram a necessidade de ampliar a produção de evidências voltadas especificamente aos pacientes submetidos a cirurgias.

Uma revisão sistemática mais abrangente sobre intervenções realizadas na passagem do hospital para casa chegou a uma conclusão semelhante. As estratégias iniciadas ainda durante a internação e mantidas depois da alta mostraram resultados mais favoráveis na redução de readmissões do que aquelas iniciadas somente quando o paciente já havia deixado o hospital. O envolvimento ativo do próprio paciente também apareceu como componente relevante.

Para Maria Luiza, um dos desafios está justamente em transformar a alta médica em uma transferência organizada de responsabilidades, e não apenas em uma autorização para que o paciente deixe a instituição.

“O hospital é um ambiente controlado, com profissionais disponíveis e possibilidade de resposta rápida diante de uma mudança clínica. Em casa, essa estrutura deixa de existir. Por isso, as orientações precisam ser objetivas e compreensíveis. Não basta entregar informações; é necessário verificar se o paciente e a família entenderam como será a continuidade daquele cuidado”, explica.

A experiência da médica atravessa diferentes etapas desse processo. Graduada em Medicina pela Universidade de Cuiabá (UNIC), Maria Luiza concluiu residência médica em Cirurgia Geral pela Prefeitura Municipal de São Paulo e especialização em Cirurgia Dermatológica e Estética Avançada. Ao longo de mais de dez anos de atuação, passou pela assistência cirúrgica hospitalar, gestão técnica médica, auditoria, assistência domiciliar e ensino de graduação em Medicina.

No Hospital São Judas Tadeu, em Cuiabá, atuou em diferentes funções assistenciais e exerceu a direção técnica médica entre 2022 e 2023, período em que esteve envolvida na gestão do corpo clínico e em atividades de auditoria. Desde 2023, também coordena a equipe médica de home care da Help Vida.

Essa transição não significa, porém, que todo paciente cirúrgico necessite de assistência domiciliar profissional. A indicação depende do procedimento realizado, das condições clínicas, do grau de dependência, da estrutura familiar e da complexidade dos cuidados necessários. O ponto central, segundo a médica, é que a definição do acompanhamento seja individualizada.

“Dois pacientes submetidos ao mesmo procedimento podem apresentar necessidades completamente diferentes. Idade, doenças preexistentes, mobilidade, medicamentos em uso e a própria rede de apoio interferem na maneira como a recuperação precisa ser organizada. Protocolos são fundamentais para criar padrões de segurança, mas não substituem o raciocínio clínico”, afirma a médica.

No Brasil, a atenção domiciliar também integra formalmente a organização da assistência à saúde. O Ministério da Saúde mantém diretrizes e instrumentos específicos para avaliação de elegibilidade e complexidade do cuidado domiciliar, além dos Cadernos de Atenção Domiciliar vinculados ao programa Melhor em Casa.

A preocupação com protocolos também alcança diretamente o ambiente cirúrgico. O Ministério da Saúde mantém um protocolo nacional de cirurgia segura cuja finalidade é estabelecer medidas destinadas a reduzir incidentes, eventos adversos e mortalidade relacionados aos procedimentos cirúrgicos.

Para a Dra. Maria Luiza, entretanto, protocolos produzem melhores resultados quando acompanhados de uma cultura assistencial capaz de conectar profissionais e ambientes diferentes.

“Segurança não depende apenas de uma lista de procedimentos. Ela depende de comunicação. Quem recebe esse paciente precisa conhecer as informações relevantes, o paciente precisa compreender seu tratamento e os profissionais precisam saber quais condutas já foram tomadas. Quando essas informações se perdem durante a transição, surgem vulnerabilidades que poderiam ser evitadas”, diz.

A passagem de Maria Luiza pela docência também influencia essa percepção. Entre 2020 e 2023, ela atuou como professora tutora do curso de Medicina da UNIC, acompanhando estudantes e atividades práticas. Para a cirurgiã, a formação médica precisa preparar o profissional não apenas para decidir uma conduta, mas para compreender como ela será executada ao longo de todo o percurso do paciente.

Para a cirurgiã, é nesse ponto que assistência e gestão acabam se encontrando.

“Quando falamos em segurança do paciente, uma decisão clínica correta continua sendo essencial, mas existe também uma dimensão organizacional. É preciso construir processos que façam com que a informação acompanhe o paciente. A cirurgia pode terminar no centro cirúrgico; o cuidado, não”, conclui Maria Luiza.

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Produtor de conteúdo & executivo, já passei por empresas como TV Globo e TV Record.