Tecnologia

Como a burocracia brasileira formou profissionais de TI disputados lá fora

O engenheiro de software Odair Gollo, referência em ERP e automação de processos industriais há mais de 20 anos, explica por que a complexidade do ambiente de negócios brasileiro se tornou uma escola de alto nível para quem trabalha com tecnologia

Quem desenvolve sistemas corporativos no Brasil aprende cedo que nenhuma regra é simples. Tributos que mudam de um estado para outro, obrigações fiscais em constante atualização e processos que variam de empresa para empresa fazem parte da rotina. O que sempre foi visto como obstáculo passou a ser encarado como um diferencial de formação.

Os números confirmam o movimento. Segundo o Relatório Setorial 2025 da Brasscom, as exportações brasileiras de software e serviços de tecnologia somaram R$ 41,6 bilhões em 2025, um crescimento de 24,7% em relação ao ano anterior Os números confirmam o movimento. Segundo o Relatório Setorial 2025 da Brasscom, as exportações brasileiras de software e serviços de tecnologia somaram R$ 41,6 bilhões em 2025, um crescimento de 24,7% em relação ao ano anterior. A procura também alcança as pessoas. Um estudo sobre o setor aponta que profissionais brasileiros passaram a ser disputados por empresas estrangeiras mesmo sem deixar o país, atraídos por salários em dólar.

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“O profissional brasileiro de TI é treinado na exceção”, afirma Odair Gollo, consultor sênior de implantação de ERP e desenvolvedor na Azimut do Brasil, fabricante de iates de luxo, e sócio da 19 Projetos de Tecnologia. Para ele, lidar todos os dias com cenários que não cabem no padrão cria um tipo de raciocínio difícil de ensinar em sala de aula.

Uma escola chamada complexidade
O comércio exterior é um bom exemplo. Um único processo de importação envolve PIS, COFINS, IPI, ICMS, despesas aduaneiras e registros como a DI e a DUIMP, cada um com regras próprias. “Quando você constrói um sistema que dá conta de tudo isso, aprende a pensar em integração de ponta a ponta”, diz Gollo, que desenvolveu um módulo de importação capaz de reduzir de vários dias para algumas horas o tempo de lançamento das operações.

A experiência se repete em outras áreas. Na indústria de produtos personalizados, em que cada unidade sai da fábrica com uma configuração diferente, o sistema precisa conectar o pedido comercial à engenharia e à linha de produção sem perder o histórico de alterações. Esse nível de rastreabilidade exige arquitetura sólida e conhecimento profundo do negócio.

O que o mercado externo enxerga
“Lá fora, o problema raramente é falta de tecnologia. É excesso de sistemas que não conversam”, avalia o especialista. Empresas que cresceram adotando uma ferramenta para cada área chegam a um ponto em que os dados não se cruzam e as decisões ficam lentas. É nesse cenário que a habilidade de integrar plataformas diferentes ganha valor.

Gollo destaca ainda um traço menos técnico. “A gente aprendeu a entregar com orçamento curto e prazo apertado, e isso muda a forma de projetar uma solução”, observa. O resultado são sistemas enxutos, pensados para resolver o problema central antes de ganhar funcionalidades extras.

Fronteiras cada vez menores
“Venho planejando um projeto próprio de tecnologia no mercado americano e por conta dos estudos para esse negócio, posso dizer com propriedade que as dores das empresas americanas são muito parecidas com as que resolvo há vinte anos aqui no Brasil”, conta Gollo. Na visão dele, a automação de processos e a Inteligência Artificial ampliam essa oportunidade, já que dependem de dados organizados e sistemas integrados, justamente o terreno em que os brasileiros acumulam experiência.

O especialista faz uma ressalva dizendo que o “Conhecimento técnico abre a porta, mas não basta”, pondera. Domínio do idioma, compreensão das regras locais e capacidade de traduzir tecnologia em resultado financeiro continuam sendo decisivos para quem quer atuar fora do país.

A trajetória da tecnologia brasileira mostra que dificuldade e competência costumam caminhar juntas. Um ambiente de negócios exigente formou profissionais habituados a integrar, adaptar e simplificar, três capacidades que empresas de qualquer país procuram. Em um mercado cada vez mais digital e sem fronteiras, saber resolver problemas complexos deixou de ser uma necessidade local e passou a ser um produto de exportação.

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Produtor de conteúdo & executivo, já passei por empresas como TV Globo e TV Record.