Por que multinacionais exigem proteção contra incêndio acima da norma brasileira
Engenheiro civil com mais de 18 anos de atuação e referência em projetos de prevenção e combate a incêndios para grandes indústrias, Álvaro Ribeiro Julio explica o que leva empresas globais a adotar critérios mais rígidos do que a legislação local

Quem acompanha a implantação de uma fábrica ou de um centro de distribuição de grupo multinacional no Brasil costuma se surpreender com o nível de exigência do projeto de proteção contra incêndio. Reservas de água maiores, redes de sprinklers mais densas e ensaios mais rigorosos aparecem no escopo mesmo quando a legislação estadual aceitaria uma solução mais simples.
“A norma local responde a uma pergunta e o padrão internacional responde a outra”, afirma Álvaro Ribeiro Julio, engenheiro civil há 18 anos, referência no ramo e sócio administrador da AK Projetos, Gerenciamento e Consultoria. Segundo ele, “a regulamentação brasileira tem como foco principal a segurança das pessoas e a regularização da edificação junto ao Corpo de Bombeiros. Já os critérios da NFPA e da FM Global olham também para o patrimônio e para a capacidade de a operação continuar funcionando depois de um sinistro.”
Receba as principais notícias no seu WhatsApp!Essa diferença de objetivo tem origem no seguro. Grandes corporações contratam apólices globais, e as seguradoras condicionam cobertura e preço ao cumprimento de padrões próprios de engenharia. “O investidor não pergunta apenas se o prédio tem o auto de vistoria. Ele quer saber quanto tempo a planta ficará parada e quanto isso custará. A lógica de mercado não nos permite atender aos padrões sem prevermos os impactos financeiros que a implantação vai causar”, diz o engenheiro, que conduziu projetos para multinacionais com aplicação dessas referências.
Na prática, o impacto aparece cedo. A altura de estocagem, o tipo de embalagem e o material armazenado definem o sistema de sprinklers, o volume do reservatório e a potência das bombas. “Quando o padrão internacional entra só no fim do projeto, a obra encarece e atrasa”, alerta Álvaro. Para ele, a decisão precisa ser tomada ainda na fase de concepção, junto com a arquitetura e a estrutura, e não como um item complementar.
O movimento já ultrapassa as multinacionais. Empresas brasileiras que fornecem para cadeias globais, ou que buscam melhores condições de seguro, passaram a adotar os mesmos critérios por conta própria. “Tenho estudado de perto o mercado da Flórida, onde pretendo estruturar uma operação de consultoria, e lá esse raciocínio é o ponto de partida de qualquer projeto. O Brasil caminha na mesma direção”, observa.
O engenheiro pondera que seguir um padrão mais exigente não significa desprezar a norma nacional. O projeto precisa atender às duas camadas, e o desafio técnico está em compatibilizá-las sem duplicar custos. “É um trabalho de gestão tanto quanto de engenharia”, resume, citando a coordenação entre projetistas, instaladores, seguradora e órgão público.
A tendência é que a distância entre a exigência legal e a prática das grandes empresas continue a orientar o mercado. À medida que galpões ficam mais altos e operações mais concentradas, o prejuízo potencial de um único incêndio cresce, e a proteção deixa de ser tratada como custo de regularização para ser vista como parte da estratégia do negócio. Para quem projeta, constrói ou ocupa edificações industriais e logísticas, conhecer os padrões internacionais tende a ser cada vez menos um diferencial e mais um requisito.
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