Saúde e Bem-estar

Dorme demais e acorda cansado? Estudo investiga novo perfil de depressão

Estudo com mais de 11 mil pessoas identifica um possível perfil de depressão associado ao ritmo circadiano, com alterações no sono e na energia.

- a foto mostra pessoa com depressão
- fonte: Magnific

Dormir por muitas horas e ainda acordar cansado pode indicar mais do que uma noite mal dormida. Em algumas pessoas, alterações no sono, na disposição e nos horários de descanso podem acompanhar os sintomas da depressão.

Um estudo da Universidade de Sydney, na Austrália, identificou um possível perfil do transtorno associado ao ritmo circadiano, mecanismo biológico que regula o ciclo de sono e vigília. Os pesquisadores estimaram que cerca de 25% dos mais de 11 mil participantes com depressão apresentavam características desse padrão.

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Os resultados foram publicados no British Journal of Psychiatry. Apesar da descoberta, os cientistas ressaltam que a chamada depressão circadiana ainda não constitui um diagnóstico médico formal. Novas pesquisas precisam esclarecer como esse perfil se relaciona com a doença e quais tratamentos podem beneficiar esses pacientes.

O que é depressão circadiana e quais são os sinais?

O ritmo circadiano funciona como um relógio biológico interno. Ele ajuda o organismo a organizar funções como o sono, a liberação de hormônios e as variações de energia ao longo do dia.

Quando esse sistema não acompanha adequadamente a rotina de uma pessoa, ela pode sentir dificuldade para despertar, apresentar sonolência em horários inadequados ou manter horários regulares de descanso.

No estudo australiano, a equipe do Brain and Mind Centre, da Universidade de Sydney, identificou aproximadamente 2.600 participantes com características compatíveis com o possível perfil circadiano da depressão.

Os pesquisadores observaram diferentes sinais, entre eles:

  • Dormir e acordar mais tarde do que o habitual.
  • Sentir cansaço intenso pela manhã.
  • Dormir por períodos prolongados, principalmente quando os sintomas depressivos pioram.
  • Apresentar diferenças acentuadas nos horários de sono entre dias de trabalho e períodos livres.
  • Relatar mudanças sazonais no humor, no apetite, no peso, na energia e na convivência social.

Além disso, os participantes desse grupo relataram início mais precoce da depressão e maior frequência de ganho de peso durante os episódios.

Essas características, entretanto, não confirmam o transtorno por conta própria. Cansaço persistente e alterações no sono também podem acompanhar outras condições de saúde e exigem avaliação individualizada.

Depressão circadiana pode dificultar o tratamento?

A pesquisa identificou diferenças na experiência dos participantes com medicamentos antidepressivos. Pessoas com características desse perfil relataram respostas menos favoráveis a determinados medicamentos e maior ocorrência de efeitos colaterais.

Diante desses resultados, os pesquisadores investigam se tratamentos direcionados ao ritmo circadiano podem ajudar determinados pacientes.

Entre as possibilidades estão a terapia de luz, que utiliza exposição controlada à luz para influenciar o relógio biológico, e a melatonina, hormônio que participa da regulação do ciclo de sono e vigília.

O pesquisador Ian B. Hickie, da Universidade de Sydney, destacou a importância de reconhecer características circadianas ao avaliar pessoas com depressão. Michael Terman, especialista em terapêutica ambiental que não participou do estudo, também apontou a relação entre dificuldades para despertar, sono prolongado e possíveis abordagens voltadas à regulação do sono.

No entanto, o estudo não demonstrou que a terapia de luz ou a melatonina funcionem especificamente para esse possível perfil. Por isso, ninguém deve iniciar essas intervenções ou modificar medicamentos sem orientação profissional.

Quando procurar ajuda para alterações no sono?

Dormir demais, acordar exausto ou apresentar horários irregulares de descanso não significa necessariamente ter depressão. Entretanto, quando essas mudanças persistem e vêm acompanhadas de tristeza, perda de interesse, falta de energia ou dificuldades nas atividades cotidianas, vale procurar avaliação profissional.

Manter horários regulares para dormir e acordar e observar mudanças na disposição ao longo do dia pode ajudar a identificar padrões importantes para relatar durante a consulta.

A psiquiatra Nina Kraguljac, da Universidade Estadual de Ohio, ressaltou que muitas pessoas com depressão apresentam alterações na duração do sono. Por isso, os pesquisadores consideram que avaliar o ritmo circadiano pode contribuir para personalizar os cuidados.

Ainda assim, os resultados exigem cautela. Os participantes relataram os próprios hábitos, o que pode limitar a precisão das informações. Além disso, a equipe não conseguiu determinar se as alterações circadianas desaparecem quando o episódio depressivo termina.

Assim, a principal contribuição do estudo está em ampliar a investigação sobre as diferenças entre pessoas com depressão. Com novas evidências, os especialistas poderão compreender melhor como o relógio biológico influencia os sintomas e se essa informação ajuda a orientar tratamentos mais individualizados.

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