Bloqueio das bets não encerrou o mercado clandestino

Mesmo após o bloqueio das casas de apostas autorizadas, jogadores relatam depósitos e saques funcionando normalmente em plataformas internacionais. Governo intensifica fiscalização e já mira milhares de sites, aplicativos e grupos nas redes sociais.
A proibição das bets no Brasil tirou do ar algumas das maiores casas de apostas do país, mas não conseguiu acabar com o jogo pela internet. Pelo menos é o que contam apostadores de Goiás, que seguem utilizando plataformas estrangeiras para fazer suas apostas, depositar dinheiro e até sacar os ganhos.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp!Enquanto gigantes do setor, como Betano, bet365 e Betnacional, deixaram de funcionar normalmente no país, sites que já operavam fora das regras brasileiras continuam aparecendo no radar dos jogadores.
E tem mais: os links dessas plataformas seguem circulando entre amigos, conhecidos e comunidades de apostadores.
Dois jogadores que preferiram não se identificar afirmaram que a proibição anunciada em setembro não mudou a rotina de apostas. Um deles contou que utiliza plataformas de origem russa e sueca. O outro citou serviços que descreveu como japoneses, chineses e latino-americanos.
O contraste chama atenção. De um lado, o governo aperta o cerco contra as bets. Do outro, apostadores encontram alternativas fora do mercado regulamentado.
Apostadores seguem depositando e sacando dinheiro
Um dos entrevistados contou que continuou apostando normalmente depois da entrada em vigor das restrições.
Segundo ele, os endereços das plataformas estrangeiras chegam por meio de contatos pessoais e comunidades formadas por jogadores que acompanham o mercado diariamente.
O apostador relatou ter utilizado sites russos e suecos, conseguido fazer depósitos e recebido os valores dos saques, embora algumas retiradas tenham demorado mais do que o habitual.
Um detalhe chama atenção: ele garante que não precisou utilizar VPN nem simular uma conexão de outro país para entrar nas plataformas.
A VPN, sigla para Rede Privada Virtual, é uma tecnologia que cria uma conexão criptografada entre o dispositivo e a internet. Entre suas funções, está a possibilidade de ocultar o endereço IP original e utilizar o de um servidor remoto, fazendo com que o acesso pareça partir de outra localização.
Mas, de acordo com o entrevistado, nada disso foi necessário.
Ele explicou que os links continuam sendo compartilhados entre pessoas que apostam com frequência e mantêm contato com outros jogadores.
As comunidades também não desapareceram. Embora participe de grupos com integrantes de diferentes estados, o apostador disse conhecer apenas dois ou três tipsters de Goiás que permaneceram na atividade.
Tipsters são pessoas que compartilham análises, palpites e sugestões de apostas esportivas.
Sites estrangeiros e bônus por indicação movimentam apostadores
Outro jogador ouvido pela reportagem foi ainda mais direto ao falar sobre os efeitos da proibição.
“Consigo depositar e sacar normalmente, não mudou nada, não alterou nada”, afirmou.
O entrevistado citou plataformas como 45X, 8888F e 1win, além de outros serviços que descreveu como japoneses, chineses, argentinos, chilenos e paraguaios.
Todas essas casas mencionadas já operavam sem regulamentação brasileira antes mesmo da proibição nacional.
Segundo o apostador, ele conhecia os sites havia algum tempo e simplesmente continuou utilizando os mesmos serviços depois da mudança nas regras.
Também afirmou que não recebeu qualquer comunicado dessas empresas sobre adaptações ou restrições relacionadas à legislação brasileira.
Só que a participação dele nesse mercado não se limita às apostas.
O jogador também compartilha links de cadastro e recebe bônus quando outras pessoas entram nas plataformas por meio de suas indicações.
Ele contou que essas recompensas podem render quantias consideráveis, dependendo dos bônus recebidos.
Apesar de negar uma divulgação frequente em publicações abertas nas redes sociais, admitiu que compartilha os endereços com pessoas próximas e mostra seus próprios ganhos para incentivar novos cadastros.
Segundo ele, amigos e seguidores também continuam apostando.
Telegram segue ativo, e tipsters mudam o discurso
A proibição também não fez desaparecer as comunidades de palpites esportivos.
Registros de canais do Telegram analisados na reportagem mostram que a movimentação continuou durante outubro, mesmo depois de as restrições entrarem em vigor.
Entre as publicações identificadas estão análises de partidas da NBA, principal liga de basquete dos Estados Unidos, e jogos de futebol americano.
Os administradores compartilham palpites, mercados de apostas, cotações e justificativas baseadas no desempenho dos atletas.
Mas há uma mudança curiosa na maneira de apresentar esse conteúdo.
Em vez de recomendar diretamente uma aposta, alguns tipsters passaram a utilizar expressões condicionais, como se estivessem apenas discutindo cenários hipotéticos.
Em uma das mensagens analisadas, um administrador reconheceu que as bets regulamentadas estavam fora do ar, mas continuou apresentando sugestões para jogos da NBA.
Outro classificou suas análises como um “exercício mental”, já que as apostas não estavam permitidas no Brasil.
Na prática, o conteúdo mantém características de uma análise de apostas: mercados específicos, cotações e explicações sobre as escolhas.
A diferença está na forma de apresentar as recomendações.
Outros registros mostram administradores compartilhando links para grupos paralelos e mensagens sobre saques realizados por eles e por clientes.
Betano, bet365 e Betnacional fora do ar
Se as plataformas estrangeiras continuam acessíveis para alguns apostadores, a situação é diferente entre as grandes marcas que operavam legalmente no Brasil.
Testes de acesso descritos na reportagem original identificaram bloqueios e dificuldades em diversas casas de apostas autorizadas.
A Betnacional, por exemplo, passou a redirecionar os usuários do endereço betnacional.bet.br para o portal oficial Brasil sem Bets, que apresenta uma mensagem informando o bloqueio.
O mesmo comportamento foi identificado no domínio tiger.bet.br, associado ao jogo popularmente conhecido como Tigrinho.
Já a Betano apresentou uma mensagem de serviço indisponível.
A bet365 também estava entre as plataformas sem funcionamento regular durante as verificações.
Outros endereços apresentaram falhas ou simplesmente não responderam às tentativas de acesso.
A apuração encontrou restrições também em aplicativos disponíveis nas lojas digitais. Nas plataformas verificadas, não foi possível realizar apostas normalmente.
Os testes, porém, não incluíram todos os sites existentes na internet. Por isso, não permitem concluir que todas as casas estrangeiras estejam funcionando ou que todas as plataformas clandestinas tenham sido bloqueadas.
Entenda quando as bets foram proibidas no Brasil
A mudança no mercado brasileiro veio com a Medida Provisória nº 1.394/2026, assinada em 25 de setembro.
O cronograma estabelecido pelo governo determinou que as casas autorizadas encerrassem os novos depósitos até 5 de outubro.
O mesmo dia marcou o fim do prazo para os apostadores retirarem voluntariamente os saldos das contas.
A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos autorizados deveriam sair do ar.
Segundo informações atribuídas a autoridades federais na apuração, das 188 plataformas autorizadas, apenas uma ainda permanecia acessível no dia seguinte ao prazo. O bloqueio desse serviço já havia sido solicitado e acabou sendo executado.
A medida também estabeleceu procedimentos para devolver eventuais valores que ainda estivessem nas contas dos jogadores.
Nesses casos, as operadoras deveriam encaminhar informações às instituições financeiras para permitir a transferência dos recursos aos clientes.
Mas a fiscalização não ficou restrita às empresas que tinham autorização para funcionar.
O governo também passou a intensificar a identificação de sites clandestinos, aplicativos e conteúdos que promovem apostas.
Governo amplia ofensiva contra sites ilegais
Os primeiros números da operação mostram o tamanho do desafio enfrentado pelas autoridades.
Até 29 de setembro, 5.209 domínios relacionados a apostas ilegais haviam sido sinalizados para derrubada.
Desse total, 2.387 já tinham sido bloqueados pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Em 6 de outubro, o número de solicitações de bloqueio recebidas pela agência havia chegado a 13.241.
A ofensiva envolve o Ministério da Fazenda, o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a Anatel e outros órgãos federais.
O trabalho inclui identificar sites clandestinos, restringir o acesso a plataformas irregulares e remover conteúdos promocionais publicados na internet.
O CiberLab, ligado à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), também entrou em ação para identificar páginas e perfis utilizados na divulgação de apostas ilegais.
Até 6 de outubro, 186 aplicativos haviam sido notificados para remoção das lojas digitais.
Mais de 100 mil endereços já entraram no radar da Fazenda
A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF) informou que mais de 25 mil sites ilegais foram encaminhados para bloqueio desde o início de outubro de 2026.
Quando considerado todo o período de atuação da Secretaria, o número ultrapassa 100 mil endereços eletrônicos.
Os dados são nacionais.
Segundo a pasta, a identificação das plataformas clandestinas acontece de forma contínua, com apoio de um laboratório virtual e de equipes técnicas responsáveis pelo monitoramento do setor.
O trabalho não se resume a retirar sites do ar.
A Secretaria também identifica os meios de pagamento utilizados pelas plataformas ilegais e determina o bloqueio das contas financeiras envolvidas nas operações.
A estratégia busca atingir não apenas o acesso dos usuários, mas também a movimentação de dinheiro das empresas.
A Fazenda afirmou que continuará monitorando o mercado e encaminhando novos endereços para bloqueio.
Telegram entra na mira: 806 grupos e canais são alvo de medidas
As redes sociais também viraram uma das principais frentes de fiscalização.
Entre 1º e 22 de outubro, o Ministério da Justiça e Segurança Pública solicitou medidas contra 806 grupos e canais do Telegram relacionados a apostas ilegais.
Segundo a Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi), esses espaços somavam 22.178.024 usuários.
No mesmo período, o ministério encaminhou para bloqueio ou remoção 25.528 sites, páginas, perfis e grupos relacionados à oferta irregular de apostas.
Juntos, esses espaços reuniam 24.039.260 usuários, membros e seguidores, de acordo com os dados apresentados pelo governo.
A maior parte das medidas atingiu sites de apostas: foram 24.341 endereços encaminhados para bloqueio.
O restante envolveu grupos do Telegram, páginas e perfis de outras plataformas digitais.
O ministério também notificou Google, Meta, YouTube, X, Telegram, TikTok, Kwai e Discord para retirar publicidade relacionada a apostas.
As lojas de aplicativos da Apple e do Google receberam notificações para remover os 186 aplicativos identificados.
Palpites disfarçados de brincadeira podem gerar punição?
A estratégia de alguns tipsters de apresentar recomendações como hipóteses também chamou atenção das autoridades.
Questionado sobre publicações que utilizam expressões condicionais, o Ministério da Justiça explicou que a fiscalização considera o conteúdo e seus efeitos, não apenas as palavras escolhidas pelo autor.
Isso significa que apresentar um palpite como uma simulação não garante que a publicação esteja fora das restrições.
O ministério citou o artigo 16, parágrafo 1º, da Medida Provisória nº 1.394/2026.
O dispositivo proíbe publicidade que ofereça, promova, divulgue ou facilite o acesso a apostas de quota fixa direcionadas ao público brasileiro.
A avaliação também não depende exclusivamente da existência de remuneração.
Pelo artigo 18 da medida, a divulgação irregular pode ser considerada publicidade abusiva, conforme o Código de Defesa do Consumidor.
Dependendo das circunstâncias, ainda podem existir responsabilidades civis e penais.
A MP também estabelece obrigações para plataformas digitais, lojas de aplicativos e sistemas operacionais, que devem adotar medidas para impedir a circulação de conteúdos proibidos.
O descumprimento pode resultar em advertências e multas de até 10% do faturamento do grupo econômico no Brasil, respeitado o limite de R$ 50 milhões por infração e as condições previstas na norma.
A legislação prevê ainda o compartilhamento de informações entre Polícia Federal, Receita Federal e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para identificar os responsáveis por possíveis irregularidades.
Influenciadores de apostas já foram investigados em Goiás
A divulgação de plataformas de apostas por influenciadores e pessoas que recebem benefícios por indicações não é um assunto novo em Goiás.
Em maio de 2026, a Operação Tigrinho investigou suspeitos que teriam atuado como gerentes de um esquema envolvendo apostas fraudulentas.
A investigação mencionou pessoas ligadas aos municípios de Senador Canedo e Guapó.
O caso ajuda a mostrar por que a circulação de links e os pagamentos por novos cadastros estão no radar das autoridades.
Isso não significa, porém, que os apostadores entrevistados estejam envolvidos naquele esquema.
Os relatos mostram que os endereços de cadastro continuam sendo distribuídos por contatos pessoais e comunidades, mesmo depois da proibição.
Procurado na apuração original, o Ministério Público de Goiás (MPGO) informou que não possui estatísticas específicas sobre demandas relacionadas a apostas on-line.
O órgão explicou que a responsabilidade pela investigação depende das características de cada caso.
Quando há elementos transnacionais ou possíveis crimes contra o sistema financeiro, por exemplo, a apuração pode ser de competência federal.
O MPGO orientou que possíveis irregularidades sejam comunicadas por seu canal oficial de denúncias.
Anatel recebeu ordens para bloquear quase 30 mil domínios
Outro levantamento da reportagem original mostra a dimensão das ordens encaminhadas à Anatel.
Entre 25 de setembro e 19 de outubro, a agência recebeu 21 determinações administrativas para bloquear sites relacionados a apostas ilegais.
As ordens abrangiam 29.968 domínios únicos.
Desse total, 17 determinações partiram da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, envolvendo 27.227 domínios.
As outras quatro foram encaminhadas pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, com 2.741 endereços.
Há, porém, uma diferença importante entre determinar um bloqueio e confirmar que ele foi executado.
A Anatel não informou quantos desses domínios tiveram o acesso efetivamente interrompido.
Segundo a agência, sua função é receber as determinações dos órgãos responsáveis e encaminhá-las às operadoras de internet.
A identificação dos sites ilegais e a decisão de bloqueá-los ficam sob responsabilidade da Secretaria de Prêmios e Apostas e do Ministério da Justiça.
As ordens têm abrangência nacional, sem divisão por estado.
Por isso, a Anatel também não possui dados consolidados sobre quantos bloqueios foram efetivamente realizados em Goiás.
Por que alguns sites continuam funcionando?
Uma das explicações está na própria dinâmica dos bloqueios.
Segundo a Anatel, as determinações atingem os domínios e endereços eletrônicos especificados nas ordens recebidas.
Quando uma plataforma passa a utilizar um novo domínio, subdomínio ou endereço, esse novo caminho precisa ser identificado pelas autoridades.
Só depois ele poderá entrar em uma nova determinação ou em uma atualização da lista de bloqueios.
É uma fiscalização que exige acompanhamento constante.
A agência também explicou que a Medida Provisória nº 1.394/2026 não estabelece um prazo único para todas as ordens serem cumpridas.
O tempo necessário depende das condições de cada determinação e das características técnicas envolvidas.
O procedimento passa por diferentes órgãos: a Fazenda e o Ministério da Justiça identificam os sites e podem solicitar os bloqueios; a Anatel encaminha as ordens às operadoras; e o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) recebe as determinações relacionadas a domínios terminados em “.br”.
Já as plataformas digitais são notificadas diretamente pelo Ministério da Justiça, conforme as atribuições previstas na medida.
A Anatel reforçou que não escolhe quais sites devem sair do ar. Essa decisão cabe aos órgãos fiscalizadores.
Governo mantém fiscalização e orienta denúncias
A Secretaria de Prêmios e Apostas afirmou que seguirá identificando sites clandestinos, solicitando bloqueios e monitorando os meios de pagamento utilizados pelas plataformas.
O Ministério da Justiça também continuará acompanhando conteúdos públicos nas redes sociais, incluindo grupos e canais abertos do Telegram.
Quem identificar possíveis irregularidades pode registrar uma denúncia anônima pela plataforma Fala.BR.
No caso de sites que continuam acessíveis apesar das restrições, a Anatel orienta que as informações sejam encaminhadas à Secretaria de Prêmios e Apostas ou ao Ministério da Justiça, responsáveis por avaliar a necessidade de novas medidas.
Bloqueio das bets não encerrou o mercado clandestino
A proibição mudou o cenário das apostas no Brasil. As principais casas autorizadas deixaram de oferecer seus serviços normalmente, milhares de domínios entraram nas listas de bloqueio e a fiscalização passou a alcançar aplicativos, influenciadores e comunidades digitais.
Mas os relatos colhidos em Goiás mostram outro lado dessa história.
Enquanto o governo tenta fechar as portas do mercado de apostas, alguns jogadores afirmam que continuam encontrando plataformas estrangeiras, realizando depósitos e recebendo saques.
O episódio também reacende a discussão sobre a presença dos jogos de azar na cultura brasileira. Modalidades tradicionais, como o jogo do bicho, fazem parte desse universo e despertam interesse em conteúdos sobre resultados, regras e funcionamento. É um tema abordado por portais especializados como o Mega Bicho.
Os depoimentos não permitem medir quantas pessoas seguem apostando nem comprovar que todos os serviços mencionados estejam disponíveis em todo o território nacional.
Ainda assim, expõem o desafio das autoridades: impedir que o mercado clandestino ocupe o espaço deixado pelas empresas regulamentadas.
Por enquanto, a disputa entre fiscalização e plataformas irregulares continua. E os relatos indicam que, para parte dos apostadores, a proibição ainda não significou o fim do jogo.
Fonte: Jornal Opção
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