Entre o Confete e a Bússola: o desafio de governar um ES que já aprendeu a dar certo
No Espírito Santo, a sucessão do governador Renato Casagrande coloca em cena uma figura que, curiosamente, parece viver esse paradoxo: o vice-governador Ricardo Ferraço.

Na política, como no carnaval, há sempre dois personagens que disputam a atenção da plateia: o que samba no meio da avenida, cercado de confete e purpurina, e aquele que, longe do brilho imediato, segura o mapa que indica para onde a escola precisa ir. O primeiro arranca aplausos instantâneos. O segundo garante que o desfile não se perca no caminho.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiNo Espírito Santo, a sucessão do governador Renato Casagrande coloca em cena uma figura que, curiosamente, parece viver esse paradoxo: o vice-governador Ricardo Ferraço. Mesmo depois de mais de duas décadas de vida pública, volta e meia surge a pergunta, quase como um eco repetido nos corredores do poder e nas conversas de município em município: “Mas afinal, ele já mostrou a que veio?”
A pergunta, em si, tem algo de curioso. Ferraço já percorreu praticamente todos os caminhos possíveis da administração pública. Foi deoutado estadual, federal senador da República, secretário de Estado em áreas estratégicas, vice governador por duas vezes e articulador político respeitado e gestor reconhecido em agendas complexas como o desenvolvimento econômico e a agricultura. Quando passou pela Secretaria de Agricultura, por exemplo, deixou marcas de gestão técnica e diálogo produtivo com o campo, algo que, num estado com forte presença do agronegócio, não é pouca coisa.
Ainda assim, há sempre a sensação de que ele precisa provar mais um capítulo, apresentar mais um certificado, mostrar novamente o currículo, como se sua trajetória fosse uma obra que nunca chega ao ponto final.
Talvez isso revele menos sobre Ferraço e mais sobre o humor do eleitorado. A política brasileira, muitas vezes, valoriza o espetáculo tanto quanto, ou até mais que, a substância. Há quem prefira o gestor que aperta todas as mãos, que dança conforme a música da multidão e que transforma cada agenda pública num palco. A simpatia imediata costuma render manchetes e aplausos.
Mas governar, na prática, raramente é uma avenida iluminada. É mais parecido com uma sala de máquinas: decisões difíceis, contas que precisam fechar e escolhas que nem sempre são populares.
Nesse aspecto, a trajetória de Ferraço sempre esteve mais ligada à engenharia da política do que ao teatro da política. Ao longo da carreira, construiu reputação de lealdade institucional e de compromisso com projetos de longo prazo. Foi parceiro político do ex-governador Paulo Hartung e hoje integra a gestão de Casagrande num papel de articulação e formulação estratégica.
Essa postura, aliás, já teve custos. Algumas das posições que defendeu em Brasília, como a Reforma Trabalhista, em 2017, foram necessárias, mas impopulares e que acabaram contribuindo para que perdesse uma eleição ao Senado. É o tipo de preço que apenas quem aposta na política como instrumento de decisão, e não apenas de popularidade, costuma pagar.
Há também um episódio recente que ajuda a entender a força política silenciosa que o vice-governador carrega. Na eleição estadual anterior, a máquina política do partido de Casagrande, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), não foi suficiente para garantir a vitória no primeiro turno. Foi a soma de forças com o grupo de Ferraço que ampliou o arco político necessário para consolidar a vitória no segundo turno.
Ou seja, há momentos em que a política se revela menos no palco e mais nos bastidores.
O debate sobre sucessão também expõe outro traço curioso do espírito capixaba. O Espírito Santo é hoje um estado que coleciona reconhecimentos nacionais em áreas como gestão fiscal, transparência e capacidade de investimento público. Um território pequeno no mapa, mas cada vez mais relevante em setores estratégicos como turismo, logística, mineração e agronegócio.
Ainda assim, às vezes parece persistir uma espécie de “complexo de estado pequeno”, como se o sucesso recente ainda precisasse ser confirmado todos os dias. Como se fosse necessário provar, repetidamente, que o Espírito Santo pode continuar avançando.
Nesse cenário, a eventual candidatura de Ricardo Ferraço surge menos como uma ruptura e mais como uma pergunta sobre continuidade com evolução. Não se trata apenas de manter o que deu certo, mas de dar novos passos a partir de uma base sólida.
Ferraço representa, para muitos analistas, essa possibilidade de transição sem sobressaltos: alguém que conhece a engrenagem administrativa, dialoga com setores econômicos e entende o funcionamento da máquina pública sem precisar aprender no caminho.
Isso não significa que a disputa será simples. A política capixaba é plural, competitiva e, como toda eleição, tende a produzir novos protagonistas e narrativas. Outros nomes surgem, estilos diferentes aparecem, e o eleitor terá a palavra final.
Mas talvez a questão central não seja se Ricardo Ferraço ainda precisa provar algo.
Talvez a pergunta mais interessante seja outra: num estado que aprendeu a organizar suas contas e planejar seu futuro, o Espírito Santo prefere continuar guiado pela bússola da gestão ou voltar a se encantar apenas pelo brilho do confete político?
No fim das contas, é sempre o eleitor quem decide qual desses personagens merece conduzir o próximo desfile da história capixaba.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
