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Arthur Gehardt

Esse é o último artigo de uma série que escrevi sobre o processo de desenvolvimento industrial do Espírito Santo, que nos tirou de um estado

4 mins de leitura

em 29 de abr de 2024, às 08h54

Foto: Reprodução/Internet

Por João Gualberto

Esse é o último artigo de uma série que escrevi sobre o processo de desenvolvimento industrial do Espírito Santo, que nos tirou de um estado totalmente voltado para a produção de café de baixa qualidade e pouca produtividade e nos trouxe ao quadro que temos hoje. Tudo começou em 1943 com a interventoria de Jones dos Santos Neves, e estava basicamente concluído no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. Nesse longo trajeto, muitos foram os atores sociais que contribuíram para o seu sucesso. Muitas atividades, longe dos governos também contribuíram para o bom desfecho.

Minha tentativa é a de mostrar que houve um projeto construído pelas elites capixabas. Obviamente que a vida social não é só traçada pelas elites, mas elas, quando se afastam da busca de caminhos coletivos, costumam botar tudo a perder. Coisa, aliás, que os capixabas sabem muito bem. Não desconheço que exista toda a sociedade e ainda o chamado capital social. Disso tratarei na sequência, mas exigirão outros artigos sobre esse tema específico.

Voltando à minha narrativa, em 1971, Christiano Dias Lopes deixou o poder e foi substituído por Arthur Gehardt. Ele sempre foi técnico muito respeitado e voltado para o nosso processo de desenvolvimento. Foi um de seus principais formuladores. Engenheiro com mestrado nos Estados Unidos – o único de sua época – é homem culto e aplicado. Participou, desde os primeiros movimentos das equipes da Federação das Indústrias, das suas comissões técnicas e dos estudos que lá foram produzidos. Além de técnico, foi bom operador político, visto que, como secretário do governo de transição de Rubens Rangel em 1966, foi responsável pela montagem do secretariado.

Na gestão de Christiano, foi presidente do Bandes, portanto, envolvido de perto na gestão do desenvolvimento e da captação de empresas. Quando chegou ao governo, Arthur se tornaria um dos governadores mais próximos ao poderoso ministro da fazenda, Antônio Delfim Neto, detentor de muito poder no ciclo dos militares. Através dele, chegou mais próximo dos centros decisórios da época. Fez, sobretudo, uma excelente diplomacia de seu próprio governo e também dos projetos que já estavam prontos e precisavam ser viabilizados. Conseguiu com o apoio do presidente do BNDES, Marcus Viana, e do presidente do Banco Central, Ernane Galvêas, captar os investimentos que mudaram a face do Espírito Santo. Fez um jogo de mestre, aproveitando as oportunidades que estavam colocadas.

Entre elas estava o fato da Vale já ter terminado em 1966 a construção do Porto de Tubarão. Ele daria suporte à construção de toda uma cadeia produtiva ligada ao setor metal mecânico. Assim, foram captadas a planta da Companhia Siderúrgica de Tubarão, da Aracruz Celulose e da Samarco. Na época, eram denominados “Os Grandes Projetos”. Estavam todos, umbilicalmente ligados a Cia. Vale do Doce, sobretudo pelo papel central do Porto de Tubarão em todo esse movimento de transformação no Espírito Santo. A professora Marta Zorzal e Silva, em sua brilhante obra intelectual trabalha muito bem esses elementos.

O Espírito Santo fez uma inflexão para os negócios globais no Governo Arthur Gehardt, com forte aporte de recursos do BNDES. Foi um grande salto. A dupla Arthur-Christiano fez uma obra de gigantes. Embora tenham rompido politicamente, concluíram o projeto jonista. Aliás, o plano de governo que a aliança PSD-PTB fez para disputar com Jones dos Santos Neves, as eleições de 1962 já previa muita coisa, inclusive o banco de desenvolvimento para gerir esse aspecto do governo e a Companhia Siderúrgica de Tubarão, pedra de toque na construção industrial que se pretendia.

Tudo isso era produto, não apenas da inteligência e sagacidade do ex-governador, que disputava, de novo, o governo, mas também da contribuição de toda uma geração de capixabas. Era também a fusão da ideia dos empresários na FINDES com a dos políticos do governo estadual. A nossa marca governamental, nesse ciclo, foram as gestões articuladas e empreendedoras. Elas criaram as bases do Espírito Santo moderno. O resultado: o estado onde a indústria tem o maior peso no PIB de todo o Brasil, que equivale a 38% dele.   

** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM

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