Deixar a prefeitura no meio do caminho pode custar caro para Pazolini e Arnaldinho
Ambos, se confirmarem a intenção de concorrer, terão de deixar seus cargos até abril, abrindo mão de mandatos ainda em curso para apostar em um projeto maior.

O prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), e o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), surgem como nomes competitivos no tabuleiro político do Espírito Santo para a disputa do comando do Palácio Anchieta. Ambos, se confirmarem a intenção de concorrer, terão de deixar seus cargos até abril, abrindo mão de mandatos ainda em curso para apostar em um projeto maior. A decisão, no entanto, carrega riscos políticos relevantes e um histórico nacional que recomenda cautela.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiApesar de arriscado, o movimento de abandonar a prefeitura no meio do mandato para disputar a vaga do Poder Executivo estadual não é novidade. Levantamento do jornal O Globo mostra que, neste século, a aposta fracassou em cerca de 70% dos casos.
Entre eles estão o Tarso Genro (PT), que, em 2002, deixou a prefeitura de Porto Alegre e concorreu ao Palácio Piratini, e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil, que deixou o Poder Executivo municipal para disputar o comando do Governo do Estado de Minas Gerais.
Dos 19 prefeitos que decidiram trocar a gestão municipal pela tentativa de chegar ao governo do estado, apenas seis obtiveram êxito: em São Paulo, João Doria, em 2018; José Serra, em 2006; Wilma Faria, no Rio Grande do Norte, em 2002; Marcelo Déda, de Sergipe, em 2006; Beto Richa, no Paraná, em 2010, e Ricardo Coutinho, da Paraíba, neste mesmo ano.
Além dos capixabas Lorenzo Pazolini e Arnaldinho Borgo, os prefeitos do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e do Recife, João Campos, também vivem esse dilema em 2026. Eles cogitam deixar seus cargos para buscar novos voos.
O paralelo ajuda a iluminar o cenário capixaba: ainda que Vitória e Vila Velha tenham peso político relevante, o eleitorado estadual é mais diverso, com demandas regionais distintas e disputas que extrapolam os limites urbanos onde os prefeitos construíram suas bases.
Há também um componente simbólico que não pode ser ignorado. Para parte do eleitorado, a renúncia antecipada soa como quebra de compromisso. A percepção de que o voto dado para um mandato de quatro anos foi interrompido por ambição política pode gerar desgaste. Essa leitura é reforçada pela análise do cientista político Marco Antonio Teixeira, para quem existe uma espécie de “punição” eleitoral associada à frustração da expectativa do eleitor que confiou ao prefeito a condução integral do mandato.
No Espírito Santo, o risco é potencializado por um ambiente político tradicionalmente atento à gestão e à estabilidade administrativa. Pazolini e Arnaldinho terão de convencer o eleitor de que a saída antecipada não representa abandono, mas sim a continuidade de um projeto em escala maior. Não é uma tarefa simples: exige narrativa consistente, resultados concretos nas prefeituras e capacidade de dialogar com regiões onde suas marcas administrativas são menos conhecidas.
Ao optar pela disputa estadual, os prefeitos capixabas entram em um jogo de alto risco e retorno incerto. A história mostra que o cálculo político nem sempre fecha e que a transição pode custar muito mais caro do que se pode imaginar. No fim das contas, a decisão não será julgada apenas nas urnas, mas também na memória do eleitor, que tende a cobrar coerência entre o mandato concedido e o caminho escolhido.
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