Do presépio às chagas humanas do nosso tempo

A pergunta decisiva não é se celebramos bem o Natal, mas se vivemos como quem acredita que Deus continua entre nós

presépio
Foto: FreePik

Por Dom Luiz Fernando Lisboa, CP

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Costumamos dizer que o Natal passa rápido. As luzes se apagam, os presépios voltam para as caixas, a rotina retoma seu ritmo. Mas o Evangelho insiste em outra direção: o Natal não termina no calendário; ele começa na vida. O mistério da Encarnação não é um evento a ser lembrado, mas uma forma permanente de Deus estar no mundo.

Quando o Papa Leão  XIV recordou na Missa da vigília de Natal,  “às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor”, ele nos ajudou a compreender que o Natal verdadeiro acontece sempre que essa distância é rompida. Não se trata de um sentimento piedoso de dezembro, mas de uma escolha cotidiana: aproximar-se da carne ferida da humanidade, como Deus fez.

O risco é conhecido: celebrar o Natal como memória bonita, mas inofensiva. Um cristianismo que contempla o Menino no presépio, mas evita o adulto ferido nas ruas da história. No entanto, o Filho de Deus não nasceu para ser protegido em cenários simbólicos. Ele nasceu para crescer, caminhar, tocar e ser tocado. O Natal, portanto, não é um refúgio espiritual; é um envio.

Se o Natal é permanente, então o presépio também mudou de lugar. Ele está espalhado pela história, nas chagas humanas que continuam abertas: na pobreza estrutural e na exclusão social; no sofrimento psíquico e emocional que corrói por dentro;  nas pessoas em situação de rua, invisíveis aos olhares apressados; nos migrantes forçados, arrancados de sua terra e de seus vínculos; nas violências cotidianas, que destroem corpos e relações; no preconceito e discriminação contra negros e indígenas, na violência contra as mulheres e no feminicídio, chaga extrema que revela o colapso do cuidado e do amor; no abandono dos idosos; nas juventudes sem horizonte; nas feridas da criação, inseparáveis das feridas dos pobres; e na indiferença, que anestesia consciências e normaliza o sofrimento.

            Essas realidades não são “assuntos sociais” externos à fé. São o lugar onde o Natal continua acontecendo — ou sendo recusado. Ali está a carne na qual Deus decidiu habitar.

Se Deus escolheu ficar, a Igreja não pode passar. Uma pastoral fiel ao Natal não se limita a organizar celebrações, mas cultiva presença. Não administra apenas ritos, mas constrói proximidade. Tocar as chagas do Senhor hoje é permitir que a Encarnação se prolongue em gestos concretos de escuta, proteção, denúncia e cuidado.

Isso exige conversão diária. Porque viver o Natal o ano inteiro significa aceitar que a fé nos desinstale, nos canse, nos exponha. Quem se aproxima das feridas não sai intacto, mas sai mais humano e, consequentemente, mais cristão.

A pergunta decisiva não é se celebramos bem o Natal, mas se vivemos como quem acredita que Deus continua entre nós. Cada vez que acolhemos a vida frágil, o Natal acontece. Cada vez que rompemos o silêncio diante da violência, o Natal acontece. Cada vez que a Igreja se aproxima do sofrimento humano sem medo de se comprometer, o Natal acontece.

Celebrar o nascimento de Cristo é aprender a reconhecê-lo nascido todos os dias, nos lugares onde a vida pede cuidado. Assim, o Natal deixa de ser uma data bonita no calendário e se torna um modo de viver o Evangelho o ano inteiro.

*** Pe. José Carlos Ferreira da Silva é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral – Editora Dialética.  É Mestre em Ciências da Religião, Jornalista e Psicólogo. Atualmente é Vigário Episcopal para Comunicação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, Pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, bairro Independência, Cachoeiro de Itapemirim. Membro das Academia Cachoeirense de Letras.

Estudante de jornalismo pela Unidade Estácio, atua na parte de segurança do portal AQUINOTICIAS.COM. Apaixonada pela área, trabalhou pela primeira vez como estagiária de jornalista aos 18 anos e nunca mais cogitou outro caminho.

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