O que Marataízes, Evita Perón e um avião têm em comum? Senta que lá vem História!

Pouso de emergência de um avião argentino em Marataízes, em 1947, reúne fatos históricos, geopolítica, lendas e histórias que atravessaram gerações.

Marataízes
Foto: Registro Histórico Público

Por Ricardo Mignone

Os mais jovens certamente nunca ouviram falar nessa História ou no máximo sabem poucos detalhes. Porém, há muito mais por trás do pouso forçado de um avião argentino em Marataízes do que se imagina. Tem geopolítica, lenda urbana e até anedota local. Vamos aos fatos! Em 12 de agosto de 1947, um avião Douglas DC-4 da “Flota Aerea Mercanti Argentina” (FAMA) fez um pouso de emergência em Marataízes, no Espírito Santo. A aeronave de prefixo LV-ABL pertencia à FAMA, primeira companhia aérea da Argentina para rotas internacionais, criada no ano anterior ao acidente.

O pouso de emergência foi causado por falta de combustível. O avião havia decolado de Buenos Aires com destino ao Rio de Janeiro, mas um forte nevoeiro impediu o pouso e, após voar em círculos e tentar buscar uma rota alternativa, o combustível se esgotou.

Diante da situação, a tripulação pousou o quadrimotor nas areias da Praia da Barra (que na época pertencia a Itapemirim e hoje faz parte de Marataízes). Todos os ocupantes sobreviveram.

O voo transportava passageiros de alta relevância política que viajavam de Buenos Aires ao Rio para participar da Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz e da Segurança no Continente (conhecida historicamente como a Conferência de Petrópolis), realizada no Palácio Quintandinha.

Assim que o Douglas DC-4 tocou as areias da Praia da Barra, os moradores correram para o local. A comunidade se uniu para ajudar no desembarque e amparar os tripulantes e passageiros estrangeiros. Como não havia infraestrutura em Marataízes, os passageiros e diplomatas foram inicialmente acolhidos pelos moradores. Parte da comitiva foi levada para Cachoeiro de Itapemirim, onde os passageiros receberam abrigo e hospedagem antes de seguirem de trem para o Rio de Janeiro.

É aí que surge a lenda urbana relacionada a esse acidente aéreo. O episódio alimentou o imaginário da população por décadas. O relato mais famoso é o de que a primeira-dama argentina, Evita Perón, estaria secretamente a bordo desse voo. Embora historiadores apontem que ela já estava no Rio na data para a conferência diplomática, a lenda de que Evita caminhou pelas areias e dormiu na região é contada com até hoje pelos antigos moradores.

E o que a geopolítica tem a ver com essa História. A conferência da qual os diplomatas argentinos iriam participar teve uma importância histórica monumental por inaugurar a arquitetura militar da Guerra Fria nas Américas.

O evento reuniu 21 nações americanas e resultou na Criação do TIAR (Tratado do Rio), que estabeleceu o princípio da defesa hemisférica coletiva: a premissa de que um ataque armado contra um país americano seria considerado um ataque contra todos os demais, obrigando-os à assistência mútua.

O encontro foi o primeiro pacto de segurança coletiva do pós-guerra no mundo e base conceitual para a Criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). As decisões tomadas no Brasil também assentaram as bases políticas e de segurança que permitiram, logo no ano seguinte (1948), a criação da Organização dos Estados Americanos (OEA) durante a conferência de Bogotá, na Colômbia.

A conferência marcou o fim da política unilateral dos EUA na região (Dutrina Monroe) em troca de um compromisso multilateral. Na prática, consolidou formalmente a América Latina sob a esfera de influência dos EUA diante do bloco soviético que emergia no cenário mundial.

Foi justamente para essa histórica reunião de cúpula que a delegação argentina viajava quando o avião da FAMA sofreu a pane seca e realizou o famoso pouso forçado em Marataízes.

Os principais líderes políticos presentes na Conferência Interamericana de 1947 foram o presidente dos EUA, Harry S. Truman, Eurico Gaspar Dutra, presidente do Brasil, George Marshall, secretário de Estado dos EUA, entre outros. O presidente argentino Juan Domingo Perón não compareceu fisicamente a Petrópolis. Ele enviou uma delegação diplomática oficial (aquela que acabou sofrendo o famoso acidente aéreo em Marataízes).

Deixei para o final do artigo a anedota que o acidente de 1947 rendeu. Como Marataízes e Itapemirim eram vilas pacatas na década de 1940, a chegada repentina de um enorme quadrimotor internacional quebrou totalmente a rotina dos moradores.

O avião virou atração. Moradores de várias cidades vizinhas viajavam até a Praia da Barra apenas para ver de perto o “gigante dos ares” caído na areia, gerando uma movimentação inédita para a época. Após o pouso de emergência, os destroços do DC-4 permaneceram na Praia da Barra por semanas, sendo gradualmente desmontados, leiloados como sucata e consumidos pela ação do mar.

Muitas partes da aeronave viraram souvenires para os moradores. Uma das hélices foi levada para Muqui e está lá até hoje. Mas o fato mais inusitado envolve um paraquedas retirado do avião.

Um dos muitos curiosos que foram ver o DC-4 de perto era um competente pedreiro, morador da Barra. Pessoas da época contavam e ainda contam que o cidadão pegou o paraquedas e resolveu pular com o equipamento do alto da torre da Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, ali mesmo na Barra. O pedreiro teria se esborrachado no chão, mas sobreviveu. Será que este foi o primeiro salto de base jump da História?

O fato atravessou décadas. Até hoje, os descendentes do pedreiro voador têm o apelido de “paraquedas”. Dois colegas meus, netos do pedreiro, na época de estudantes nos anos 70, tinham esse apelido e não gostavam nem um pouco.

Hoje, não resta mais nada do Douglas DC-4 na praia, mas as histórias do “avião da FAMA”, de Evita Perón e da família “paraquedas” permanecem vivas na memória cultural, nos registros históricos e nos “causos” contados em Marataízes.

*Lito Sousa é um especialista em aviação brasileiro, piloto, mecânico e criador do canal do YouTube Aviões e Músicas. Ele luta atualmente contra a doença conhecida como síndrome de Creutzfeldt-Jakob, gerando solidariedade e comoção nacional.

Ricardo Mignone é jornalista formado na UFES, com MBA em Mercado Financeiro e Derivativos pela USP/FACAMP

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As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM

Ricardo Mignone é jornalista formado na UFES, pós-graduado pala USP/FACAMP em Mercado Financeiro, Derivativos Mercado de Capitais (MBA).

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