O voto que não vem por procuração
Quaest mostra Flávio Bolsonaro na liderança para presidente no Espírito Santo, enquanto Pazolini aparece atrás de Ricardo Ferraço na disputa estadual

A mais recente pesquisa Quaest no Espírito Santo expõe uma aparente contradição que, na verdade, ajuda a explicar como o eleitor constrói suas escolhas. Flávio Bolsonaro lidera a disputa presidencial entre os capixabas, mas Lorenzo Pazolini, candidato ao governo apoiado por ele, aparece atrás de Ricardo Ferraço.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiNo principal cenário estimulado para presidente, Flávio Bolsonaro tem 37% das intenções de voto no Espírito Santo, enquanto Lula registra 30%. Renan Santos aparece com 4%, Ronaldo Caiado com 3%, Romeu Zema e Augusto Cury têm 2% cada. Brancos e nulos somam 7%, e 15% estão indecisos.
Na disputa pelo governo, porém, a vantagem é de Ricardo Ferraço, que lidera com 35%, seguido por Pazolini, com 28%. Helder Salomão tem 10%, Breno Barcelos, 2%, e Rafael Demuner, 1%. Outros 9% declaram voto branco ou nulo, enquanto 15% ainda não sabem em quem votar.
A diferença fica mais evidente na simulação de segundo turno. Ferraço aparece com 45%, contra 35% de Pazolini. Brancos e nulos representam 10%, mesmo percentual dos indecisos. A Quaest entrevistou 804 eleitores entre os dias 23 e 26 de agosto. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.
Claro, caro leitor, a campanha só começou e o cenário pode mudar. Pesquisas são retratos dos momentos e eleições se decidem nas urnas. Mas o retrato atual indica que, embora Flávio Bolsonaro lidere no Espírito Santo, essa preferência não está sendo transferida integralmente para o candidato que ele apoia na disputa estadual.
Lá e cá
A explicação começa pela própria natureza das duas eleições. Na escolha para presidente, o eleitor tende a considerar temas nacionais, como economia, segurança pública, programas sociais, relações internacionais e a avaliação do governo federal. Também pesa a polarização política, que organiza parte expressiva do eleitorado entre campos já conhecidos.
Na eleição para governador, entram fatores mais próximos. A avaliação da administração estadual, a relação do candidato com os municípios, as alianças regionais, o conhecimento sobre sua trajetória e a percepção de capacidade para administrar serviços públicos influenciam diretamente a decisão. O eleitor pode se identificar com Flávio Bolsonaro no plano nacional e, ao mesmo tempo, considerar Ferraço mais preparado, mais conhecido ou mais adequado para governar o Espírito Santo.
O apoio presidencial oferece palanque, tempo de exposição e uma identidade política mais clara. Mas não entrega um pacote fechado de votos. Para receber a preferência destinada ao candidato nacional, o nome estadual precisa convencer o eleitor por suas próprias qualidades.
Eleições passadas
O Espírito Santo já demonstrou esse comportamento em 2022. No segundo turno presidencial, Jair Bolsonaro venceu no Estado com 58,04% dos votos válidos, contra 41,96% de Lula. Na mesma data, Renato Casagrande derrotou Manato, candidato apoiado por Bolsonaro, e conquistou a reeleição para o governo capixaba.
Casagrande terminou aquela disputa com 53,8% dos votos válidos, enquanto Manato recebeu 46,2%. Isso significa que uma parcela relevante dos capixabas apertou 22 para presidente e, na urna seguinte, recusou o candidato apresentado pelo mesmo campo político para o governo estadual.
Não se tratou de distração nem de incoerência. Foi uma escolha deliberada. O eleitor separou as disputas, analisou candidaturas diferentes e montou a própria combinação. Bolsonaro venceu no Espírito Santo, mas não conseguiu carregar Manato até o Palácio Anchieta. Casagrande, por sua vez, venceu sem depender de uma vitória de Lula no Estado.
Quatro anos depois, como foi dito, o retrato deste momento feito pela Quaest sugere a repetição dessa lógica. Ainda há tempo, eleitores indecisos e uma campanha inteira pela frente. Não é possível afirmar antecipadamente quem vencerá.
O que os números permitem dizer é que a urna comporta escolhas que não obedecem necessariamente à verticalização política. O eleitor pode querer um presidente de direita e um governador de centro, votar contra o governo federal e pela continuidade estadual ou separar afinidade ideológica de modelo administrativo. Eleições para presidente e governador acontecem no mesmo dia, mas não são a mesma eleição.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
