Por que as cidades do ES estão cada vez mais quente e o que ninguém quer discutir

Esse aquecimento não ocorre de forma uniforme. Estudos mostram que, dentro da mesma cidade, há variações significativas de temperatura entre bairros.

Foto: Magno Batista

Estamos enfrentando mais uma onda de calor no Espírito Santo. É verão, é quente, todos sabemos. O problema é que, ano após ano, esse calor se intensifica, se prolonga e se torna mais agressivo. Não se trata mais de um evento pontual, mas de uma tendência clara, previsível e mensurável. E é importante deixar algo muito claro desde o início: não estamos falando, aqui, das mudanças climáticas globais em si, mas de um problema urbano, local e diretamente relacionado à forma como as cidades estão sendo planejadas, ocupadas e construídas.

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O argumento mais comum é que “sempre fez calor”. Esse discurso ignora dados técnicos e estudos urbanos que demonstram o aumento contínuo da temperatura média nas cidades, impulsionado pela urbanização desordenada, pela impermeabilização do solo e pela retirada sistemática da vegetação. O resultado são as ilhas de calor urbano, cada vez mais presentes no cotidiano capixaba.

Esse aquecimento não ocorre de forma uniforme. Estudos mostram que, dentro da mesma cidade, há variações significativas de temperatura entre bairros. E, na maioria das vezes, os locais mais quentes são justamente os bairros periféricos, com menos áreas verdes, menos arborização e menor investimento em infraestrutura urbana. O calor, nesse contexto, também revela desigualdade social.

Isoladamente, muitas cidades pensam em arborização urbana. O Espírito Santo possui iniciativas e projetos de lei em andamento para a criação de um Plano Estadual de Arborização Urbana, mas a implementação de programas específicos acaba ficando, na prática, sob responsabilidade dos municípios. O problema é que essas ações costumam ser pontuais, fragmentadas e desconectadas de um planejamento urbano mais amplo.

A solução mais óbvia é frequentemente tratada como secundária: árvores reduzem temperatura. Dependendo da espécie, do porte e da densidade, a arborização urbana pode reduzir significativamente a temperatura local, melhorar a umidade do ar, diminuir a sensação térmica e até reduzir o consumo de energia elétrica. Isso é comprovado tecnicamente.

No entanto, infraestrutura urbana ainda é vista quase exclusivamente como concreto, asfalto e edificações. Um programa consistente de arborização urbana deveria ser tratado como infraestrutura essencial. A dificuldade é que árvores não geram impacto imediato. Elas levam anos para crescer, não rendem inaugurações rápidas e não produzem resultados visíveis no curto prazo político.

Existem também soluções complementares que podem gerar efeitos mais rápidos. O aumento de áreas verdes, com parques, praças e corredores ecológicos, contribui para o resfriamento do ar por meio da evapotranspiração. Telhados e paredes verdes ajudam no isolamento térmico das edificações. O uso de materiais claros ou refletivos em telhados, fachadas e pavimentos reduz a absorção de calor solar, diminuindo a temperatura das superfícies urbanas.

Mas é impossível discutir esse tema sem atribuir responsabilidade também à população. Existe uma cultura consolidada de ocupar 100% do terreno, eliminando quintais, áreas permeáveis e espaços verdes. Essa escolha individual, repetida milhares de vezes, gera um impacto coletivo direto no microclima urbano. Não é apenas o poder público que constrói ilhas de calor. A sociedade também participa desse processo.

Nenhuma dessas medidas funciona isoladamente. Arborização, planejamento urbano, legislação, fiscalização e mudança de comportamento precisam caminhar juntas. O calor extremo que sentimos hoje não é um acaso climático. É consequência direta de decisões urbanas acumuladas ao longo do tempo. Se continuarmos tratando o problema como algo passageiro, o verão deixará de ser apenas quente e passará a ser insustentável. Planejar cidades mais verdes, mais humanas e mais resilientes deixou de ser discurso. Tornou-se uma urgência.

Jornalista com mais de uma década de experiência em produção de conteúdo jornalístico e cobertura de temas políticos, de segurança pública e institucionais. Atua com redação e edição de matérias para diferentes plataformas. Também possui experiência em comunicação política e eleitoral, assessoria de imprensa e redação publicitária.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM