Quem são os lulistas e os bolsonaristas convictos no Brasil de 2026?
Os números ajudam a compreender onde cada identidade política encontra maior adesão, mas também revelam que nenhum dos dois campos cabe em um único retrato social

A polarização brasileira costuma ser apresentada como uma divisão simples, quase geométrica, entre dois grupos homogêneos e facilmente reconhecíveis. De um lado, os lulistas; do outro, os bolsonaristas. A realidade, porém, é mais complexa. As duas identidades atravessam classes sociais, níveis de escolaridade, idades e regiões, embora encontrem maior intensidade em determinados segmentos da população.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiUma pesquisa BTG Pactual/Nexus, realizada entre 31 de julho e 2 de agosto de 2026 com 2.002 eleitores, oferece elementos para observar essas diferenças. O levantamento não perguntou apenas em quem cada pessoa pretendia votar. Para medir a polarização, os entrevistados responderam, em uma escala de zero a dez, quanto concordavam com as afirmações “Sou anti-Lula” e “Sou anti-Bolsonaro e sua família”.
O documento revela menos dois blocos perfeitamente definidos do que um país atravessado por identidades políticas fortes, mas socialmente misturadas. Lulistas e bolsonaristas não vivem em universos separados: compartilham cidades, igrejas, locais de trabalho, faixas de renda e até as mesmas famílias. Os percentuais mostram onde cada campo encontra maior adesão, mas também lembram que nenhuma estatística é capaz de encerrar a complexidade de um eleitor. Em 2026, compreender essa diversidade será tão importante quanto acompanhar os números das pesquisas — porque eleições são decididas por tendências coletivas, mas o voto continua sendo uma escolha individual.
A partir da combinação das respostas, o instituto dividiu o eleitorado em seis grupos. Foram considerados lulistas convictos aqueles que se identificam com o antibolsonarismo e rejeitam o antilulismo. Os bolsonaristas convictos seguem imediatamente a lógica oposta. Identificam-se com o antilulismo e rejeitam o antibolsonarismo.
Pelo critério adotado, os bolsonaristas convictos representam 29% dos eleitores, enquanto os lulistas convictos correspondem a 25%. Outros 20% foram classificados como não polarizados, por não se engajarem de maneira relevante nem com o antilulismo nem com o antibolsonarismo.
É importante compreender o que esses percentuais revelam e o que deixam velado. Os dados indicam quanto cada identidade política representa dentro de determinado segmento. Não significa, por exemplo, que a maioria dos lulistas seja formada por mulheres ou que a maior parte dos bolsonaristas seja evangélica. O levantamento mostra, na verdade, que o lulismo ou o bolsonarismo convicto alcança maior presença proporcional entre determinados grupos.
Então, vamos lá. A diferença mais evidente aparece no recorte por sexo. Entre as mulheres, 29% são classificadas como lulistas convictas, ante 27% de bolsonaristas convictas. Entre os homens, a relação se inverte de maneira mais acentuada: 31% integram o grupo bolsonarista e 20%, o lulista.
A idade produz um quadro menos linear. Entre os eleitores de 16 a 24 anos, há praticamente um empate: 21% são bolsonaristas convictos e 20%, lulistas. Essa faixa também concentra o maior percentual de não polarizados, de 27%. Esse percentual aponta para uma relação menos consolidada com as duas principais identidades políticas do país.
O bolsonarismo chega a 30% entre os eleitores de 25 a 40 anos e a 31% entre os que têm de 41 a 59 anos. Nessas duas faixas, o lulismo registra 23% e 25%, respectivamente. Entre as pessoas com 60 anos ou mais, a distância praticamente desaparece: 29% são bolsonaristas convictos e 28%, lulistas convictos.
Também não há uma separação absoluta por escolaridade. O lulismo alcança seu maior percentual entre os entrevistados com ensino superior, segmento no qual 31% são classificados como convictos. O bolsonarismo aparece com 29%. Entre aqueles com ensino fundamental, o cenário se inverte: 31% são bolsonaristas convictos e 24%, lulistas. No ensino médio, os percentuais são de 27% e 22%. Diferença pouca em todos os recortes.
Mas é na religião que se apresenta algumas das divisões mais expressivas. Entre os evangélicos, 36% são bolsonaristas convictos, mais que o dobro dos 17% classificados como lulistas. Entre os brasileiros sem religião, ocorre o movimento contrário: 37% pertencem ao grupo lulista, enquanto 16% estão no bolsonarista.
Os adeptos de outras religiões também apresentam maior presença lulista, com 32%, ante 21% de bolsonaristas convictos. Entre os católicos, no entanto, volta-se ao quase empate técnico, com uma distância menor. Nesse grupo, 29% são bolsonaristas e 25%, lulistas.
Esses números ajudam a explicar por que o debate religioso adquiriu tanta importância na política brasileira. Temos de levar em conta que esses percentuais não autorizam, contudo, a tratar qualquer comunidade religiosa como um bloco eleitoral uniforme. Mesmo entre os evangélicos, segmento no qual o bolsonarismo apresenta sua maior vantagem, há diferentes posições políticas. O mesmo vale para católicos, pessoas sem religião e integrantes de outras crenças. Em todas as religiões há opinião política plural. Puro suco de Brasil, como dizem.
A renda tampouco desenha uma fronteira perfeita. Entre os que vivem em famílias com rendimento de até um salário mínimo, 28% são bolsonaristas convictos e 25%, lulistas. Na faixa de um a dois salários mínimos, a diferença aumenta: 31% contra 20%.
Já entre os entrevistados com renda familiar superior a cinco salários mínimos, os grupos estão numericamente equilibrados: 31% são lulistas convictos e 30%, bolsonaristas. Essa faixa registra ainda a menor proporção de não polarizados, 15%, sinal de que a identidade política também está fortemente estabelecida entre os eleitores de renda mais elevada.
A situação profissional acrescenta mais uma camada ao retrato. O bolsonarismo convicto representa 30% dos trabalhadores formais e 31% dos informais. O lulismo alcança 24% e 22%, respectivamente. Entre os desocupados, entretanto, 26% são lulistas convictos e apenas 11%, bolsonaristas. Nesse grupo, 31% foram classificados como não polarizados, o maior percentual entre as categorias econômicas analisadas.
No recorte territorial, a maior distância aparece no Sul. Na região, 35% dos eleitores são bolsonaristas convictos, diante de 19% de lulistas. No Norte e Centro-Oeste, os percentuais são de 25% e 21%. No Nordeste, 28% e 26%. No Sudeste, 29% e 27%.
O tamanho e a localização dos municípios também influenciam o desenho. Nas capitais, os lulistas convictos chegam a 31%, enquanto os bolsonaristas representam 24%. Nas regiões metropolitanas, os percentuais ficam mais próximos: 29% e 27%. No interior, ocorre a inversão mais clara, com 31% de bolsnaristas convictos e 21% de lulistas.
O que emerge da pesquisa não é a existência de dois personagens sociais rígidos, mas de tendências. O lulismo convicto encontra maior adesão entre mulheres, pessoas sem religião, entrevistados com ensino superior e moradores das capitais. O bolsonarismo convicto se destaca entre homens, evangélicos e moradores do Sul e do interior.
Ainda assim, ambos estão presentes em praticamente todos os grupos examinados. Essa talvez seja a principal conclusão do levantamento: a polarização não separa dois Brasis completamente distintos. Ela atravessa o mesmo país, as mesmas cidades, famílias, igrejas, ambientes de trabalho e faixas de renda.
Compreender essas diferenças é mais útil do que transformá-las em estereótipos. Os dados ajudam a explicar o comportamento eleitoral, mas não substituem as razões individuais, as experiências concretas e as expectativas que levam cada pessoa a aderir, rejeitar ou manter distância dos dois principais campos políticos brasileiros.
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