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Reinventar-se

Nos muitos anos em que fui professor do curso de mestrado em administração da Universidade Federal do Espírito Santo

4 mins de leitura

em 28 de jun de 2024, às 09h58

Foto: Divulgação

Por João Gualberto

Nos muitos anos em que fui professor do curso de mestrado em administração da Universidade Federal do Espírito Santo estruturei muitas aulas, como também a orientação de dissertações, na vasta obra do sociólogo inglês Anthony Giddens. De modo especial, sempre estive muito atento ao seu conceito de modernidade, sobretudo quando ele o articula ao de autoidentidade. Isso porque nas sociedades tradicionais cada indivíduo tinha um papel social que era basicamente definido por seu lugar na estrutura da sociedade como um todo. Havia pouco lugar para modificações.

Para pensarmos em alguns exemplos, basta imaginarmos alguém vivendo em uma aldeia medieval europeia e seu universo existencial. Cada ação sua já estava prevista no código moral de seu meio. Impossível não ser cristão, caso em que ele poderia simplesmente ser queimado pela inquisição. Ademais, sua profissão já estava definida na lógica de sua família. Ninguém mudava de classe social, ninguém poderia romper com a estrutura que já estava colocada desde o dia em que nasceu.

O mesmo se dava com o ser humano que vivia numa sociedade tribal, onde a mobilidade social nem existia, até porque, sem acumulação de bens, a diferenciação social era quase nula. Com as sociedades atuais tudo isso mudou. O que Giddens chama da alta modernidade, que são também os tempos da globalização, varreram muitas barreiras. Aliás, ele foi um dos primeiros intelectuais que trabalhou com a ideia de globalização e sua relação dialética com o local. Essa desconstrução de barreiras redefiniu as possibilidades de cada um de nós.

Muitas vezes me espantam as transformações que vejo desde o mundo em que nasci até os tempos atuais. Estou, portanto, falando do meu presente e não de tempos imemoriais. Hoje as pessoas podem muito mais ser o que querem do que há menos de 60 anos. Penso nisso, por exemplo, quando vejo o magnífico mosteiro zen budista que Daiju San construiu no Morro da Vargem, no município de Aracruz. Ele, que nasceu Bitti e filho do prefeito de sua cidade, é hoje uma figura relevante no mundo religioso do qual participa. É um dos monges mais importantes do mundo. Reinventou-se como um novo ser, muito distante da criança que foi e do adulto que estaria fadado a se tornar.

Não precisamos ir tão longe para expor o meu argumento, basta vermos a quantidade de pessoas que mudaram seus rostos, transformaram seu nariz ou suas orelhas, a cor de seus cabelos ou harmonizaram sua face de forma a transformarem-se em pessoas bem mais próximas de seu ideal de beleza. Tudo isso era impensável até bem recentemente, sem falar em opções mais radicais, como os que mudam para se adaptar a sua própria condição de gênero. Há também homens que se travestem como mulheres e vice-versa. Ou seja, na alta modernidade, qualquer um de nós pode muito mais facilmente transformar-se na pessoa que deseja ser.

É a primeira vez na história da humanidade em que essas transformações podem acontecer e cada um de nós pode ser aquele ou aquela que deseja ser. Há hoje, também pela primeira vez, uma espécie de planejamento estratégico de nossa própria existência, de nosso estar no mundo. A possiblidade de nos reinventarmos está, é claro, muito vinculada aos recursos financeiros que temos e ao mundo que nos cerca. Os mais pobres no Brasil, por exemplo, têm mais limitações do que os que me leem, que são em sua imensa maioria dos setores médios da população. Nos nossos setores sociais somos o que quisermos ser. Muitas vezes é preciso coragem, mas viver exige coragem, como muito bem profetizou Guimarães Rosa.

Para finalizar meus exemplos, cito que os últimos presidentes do Brasil não nasceram em berços aristocráticos e nem são herdeiros de alguma família tradicional no poder. Do mesmo modo podemos mencionar os mais recentes governadores do nosso estado e prefeitos da capital. Todos são pessoas que acreditaram em si mesmas e inventaram os seus destinos. Nunca antes houve essa possibilidade no mundo, a não ser com uma ou outra exceção. Creio ser esse, de fato, o maior ganho de viver nos tempos em que vivemos, apesar de tanta dor e opressão que ainda restam como marcas do passado distante ou da opressão atual.

** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM

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