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Renato Pacheco

Nesse ano de 2024 fazem vinte que morreu Renato Pacheco. Conheço poucos intelectuais que tenham amado tão intensamente o Espírito Santo quanto ele

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em 31 de maio de 2024, às 10h40

Foto: Reprodução/Estação Capixaba

Por João Gualberto

Nesse ano de 2024 fazem vinte que morreu Renato Pacheco. Conheço poucos intelectuais que tenham amado tão intensamente o Espírito Santo quanto ele. Foi juiz de direito, professor, historiador, folclorista, provavelmente o primeiro capixaba com mestrado em sociologia feito na USP do inicio dos anos 1950. Um homem com muitos talentos e atributos. Presidiu o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e fez dele a sua casa. Dirigiu também a Comissão Espírito-Santense de Folclore junto com o seu mestre Guilherme Santos Neves e Rogério Medeiros. Foi ainda membro da Academia Espírito-Santense de Letras. Muitos outros títulos e qualificações teve o Renato Pacheco, um gigante na inteligência capixaba.

Quero tratar aqui da sua obra literária, fazendo um corte na sua extensa produção intelectual. Retirei de alguns de seus romances, onde acredito que ele faça uma espécie de sociologia do cotidiano capixaba, um argumento que vou expor. Li, particularmente interessado, A Oferta e o Altar, Reino não Conquistado, Pedra Menina e Vilão Farto. Eles são apenas uma pequena fração da extensa obra do professor Renato, mas dão em seu conjunto uma ideia clara da visão que teve da nossa vida social. Mas vou me deter aqui em apenas um deles, onde todo o conjunto já está anunciado.

Julgo A Oferta e o Altar, publicado pela primeira vez em 1964, um livro seminal sobre o modo de vida capixaba. Analisando – entre outros elementos – a eleição de 1958 no município de Conceição da Barra, que na ficção ganha o nome de Ponta D’Areia, o autor nos faz um retrato do mundinho das pequenas cidades de seu tempo. Um retrato ácido, mas verdadeiro, duro, mas permanente. Creio que muitos daqueles elementos ainda estejam presentes no dia a dia cheio de intrigas e preconceitos que marcam o nosso imaginário social.

No livro, uma das personagens centrais é Joaninha do Muxá, uma solteirona – como se dizia à época – frustrada, que controla a vida de todos, ou melhor, que organiza a maledicência generalizada do lugar. Falar mal da vida dos outros, controlar a sexualidade alheia é uma espécie de diversão perversa coletiva. Se isso faz mal a alguém, se destrói reputações, se condena pessoas inocentes, melhor ainda. O objetivo é esse mesmo. O fofoqueiro é um destruidor de vidas. Já que a sua vida vale pouco, porque dela nada faz, que, então, se dane o bem-estar coletivo.

Na narrativa de Renato Pacheco vemos que o novo é perigoso para muitos, e até hoje, e não só nas pequenas localidades. Basta ver a desgraceira que fazem as chamadas fake news nas redes sociais. Na verdade, a intriga ganhou escala nos nossos tempos, mas já estava na alma dos pequenos e mesquinhos desde sempre. O lugar de onde brotam as maldades é o coração das pessoas. Assim pensava Renato Pacheco.

A Oferta e o Altar também mostra um outro tipo de controle, o da violência. Ela tinha sede sobretudo na tosca polícia local, onde reinavam os que eram nomeados pelo poder político dos grandes coronéis, tanto locais quanto estaduais. A polícia, aliás, estava totalmente aliada ao imaginário coronelista que havia no local, não só do lado dos políticos, mas também dos mais favorecidos, dos privilegiados de uma forma geral.

Todo o clima político da cidade girava em torno de uma política miúda em que afetos e amigos, de uma forma geral, eram divididos pelo alinhamento partidário. Mais uma vez vemos em A Oferta e o Altar a gênese dos nossos exageros nas definições partidárias. As paixões já comandavam o dia a dia da política, tudo era enquadrado a partir disso. Nos dias que correm temos a exacerbação desse padrão de comportamento. Esses exageros se alimentam de um imaginário instituído na nossa política pelo coronelismo, origem e razão invisível de muitas coisas que ocorrem nos dias atuais.

Mas não é a análise sociológica o único mérito do grande mestre Renato Pacheco. Seu texto é limpo e direto. Seu livro, uma leitura deliciosa, cheio de situações que lembram a todos nós, tendo ou não morado em pequenas cidades brasileiras, fatos conhecidos, muito conhecidos.

Não apenas o texto do grande mestre é uma alfinetada no nosso provincianismo –  alfinetada que lhe custou o título de persona non grata no município de Conceição da Barra, mas também toda a sua extensa obra contém esse manifesto contra o jeito pequeno de fazer as coisas. Sua forma fecunda de desconstruir os entraves ao desenvolvimento pleno de nossas capacidades culturais. Foi com essa visão abrangente que participou da nossa vida cultural, deixando ricas reflexões que continuam sólidas mais de sessenta anos depois.

** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM

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