Ricardo e Camillo: a soma das diferenças
Chapa reúne experiência e juventude, interior e Capital, mas Camillo terá de mostrar que pode ampliar sua atuação para além de Vitória

Às vésperas das convenções que oficializarão as candidaturas, o governador Ricardo Ferraço encerrou uma das principais indefinições de sua campanha à reeleição. O vereador de Vitória Camillo Neves, do PP, foi escolhido para ocupar a vaga de vice na chapa liderada pelo MDB.
A confirmação nas redes sociais do governador veio um dia antes das convenções do MDB e da Federação União Progressista, marcadas para esta quarta-feira (5). Camillo tem 34 anos, foi eleito vereador em 2024 com 2.778 votos e construiu sua imagem pública a partir do esporte e do trabalho social desenvolvido pelo instituto que leva seu nome.
A leitura política dessa união mostra que Ricardo contempla uma federação importante, mantém a aliança reunida, oferece espaço à Capital e acrescenta um nome jovem à chapa. A acomodação partidária parece resolvida. Resta saber como funcionará a complementaridade entre os dois pré-candidatos ao Palácio Anchieta. Será que funciona?
A princípio, sim. Ricardo e Camillo representam perfis suficientemente diferentes para que um possa acrescentar ao outro. Ricardo chega à eleição com mais de quatro décadas de vida pública e passagens pelo Legislativo estadual, Câmara dos Deputados, Senado, secretarias e vice-governadoria. Desde abril, ocupa o comando do Estado. Sua presença oferece experiência administrativa, articulação política e conhecimento das diferentes regiões capixabas.
Camilo entra com características que diferem de Ricardo. Tem uma trajetória política curta e construiu sua identidade fora dos caminhos mais tradicionais do poder. O esporte, a atuação social e a relação com comunidades de Vitória podem ajudá-lo a alcançar um público diferente daquele que acompanha o governador.
Existe também uma complementaridade geográfica. Ricardo tem origem em Cachoeiro de Itapemirim e forte ligação com o interior. Camillo nasceu, cresceu e exerce o mandato em Vitória. Em uma eleição na qual a Grande Vitória terá papel relevante, a presença de um representante da Capital pode contribuir para ampliar a circulação da chapa nesse território.
Mas…
Até aqui, a combinação faz sentido. A experiência de um encontra a juventude do outro. O interior encontra a capital. Uma trajetória política consolidada se junta a uma imagem de renovação.
A parte mais sensível está no fato de Camillo ainda não ter passado por uma campanha estadual e não possuir experiência no Executivo. Sua votação está concentrada em Vitória, e sua atuação continua pouco conhecida fora da capital.
Isso não representa uma condenação antecipada, mas estabelece um teste. Durante a campanha, Camillo terá de mostrar que consegue falar sobre o Espírito Santo como um todo. Precisará apresentar posições sobre segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, desenvolvimento regional e equilíbrio fiscal. A condição de jovem, atleta e liderança social pode abrir espaço, mas não substitui o debate sobre governo.
Também será necessário observar o papel que Ricardo reservará ao companheiro de chapa. Para que a complementaridade funcione, Camillo não poderá aparecer apenas como o rosto jovem escolhido para equilibrar a fotografia. Precisará ter voz, agenda e capacidade de interlocução próprias.
Esse cuidado é especialmente importante porque o Espírito Santo acaba de demonstrar o peso de uma vice-governadoria. O próprio Ricardo chegou ao Palácio Anchieta depois da renúncia de Renato Casagrande para concorrer ao Senado. Ele sabe, portanto, que escolher um vice significa indicar alguém que poderá assumir o governo em algum momento.
A composição funciona politicamente porque reúne partidos e acomoda diferenças. Pode funcionar eleitoralmente porque aproxima experiências, gerações e territórios distintos. O ponto de atenção está em transformar essa complementaridade calculada no papel em uma parceria reconhecida pelo eleitor.
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