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Cooperativismo promove a inclusão e muda a vida de comunidade quilombola no Norte do ES

Cooperativa formada por trabalhadores do Quilombo de Córrego de São Domingos reúne 20 cooperados e já impacta a vida de mais de 60 famílias.

Sede da CTRA está localizada no município de São Mateus. Cooperados prestam serviços para a empresa Suzano.
Foto: reprodução

Seja nas aulas de história ou nos noticiários, você certamente já ouviu a palavra “quilombo”. A origem etimológica do termo está ligada ao idioma Kimbundu, uma variante do Bantu falada em Angola. Seu significado quer dizer “acampamento”, “arraial” ou “povoado fortificado”.

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No Brasil, a palavra ganhou um novo sentido, passando a designar comunidades formadas por pessoas negras escravizadas que fugiam das fazendas e engenhos em busca de liberdade. Os primeiros quilombos surgiram ainda no período colonial e, até a abolição da escravidão, em 1988, essas comunidades se espalharam de norte a sul do país.

No Espírito Santo não foi diferente. O estado também foi um terreno fértil para a formação de comunidades de resistência negra contra a escravidão. Grande parte dos quilombos capixabas estavam localizados no Norte do estado, região marcada pelo contexto escravagista, principalmente pelo ciclo da farinha de mandioca.

Quase um século e meio depois da abolição da escravidão no Brasil, a população quilombola segue resistindo, dentro ou fora dos quilombos. Segundo o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Espírito Santo possui 15.652 pessoas quilombolas. Dessas, 2.786 (17,8%) vivem em quilombos.

Embora apenas parte dessa população permaneça nas comunidades, os territórios quilombolas capixabas abrigam 5.074 moradores, dos quais 2.288 não se autodeclaram quilombolas. Ao todo, são 11 quilombos oficialmente reconhecidos, com maior concentração no Norte do estado.

A região conhecida como Sapê do Norte, entre São Mateus e Conceição da Barra, é um dos principais redutos da cultura negra capixaba, reunindo cerca de 32 comunidades quilombolas. Entre elas está Córrego São Domingos, uma das maiores em densidade demográfica no estado, com população estimada em 485 pessoas, segundo o Censo Quilombola de 2022.

Foi nessa comunidade que surgiu, em 2014, a primeira cooperativa quilombola de prestação de serviços florestais do Brasil: a Cooperativa dos Trabalhadores Rurais e Agricultores da Comunidade Quilombola do Córrego de São Domingos (CTRA).

Cooperativa gera transformação social no quilombo de São Domingos

Em um terreno fertilizado pela força da resistência, mas também marcado pelas cicatrizes da discriminação e do preconceito, a semente do cooperativismo encontrou espaço para germinar, empoderando a população local e dando novas oportunidades de sobrevivência com prosperidade econômica e justiça social.

Antes de criar raízes nesse território, porém, esse modelo de negócio ainda era desconhecido pelos moradores. É o que relembra Valdete Jeronimo, atual presidente da CTRA e um dos sócios fundadores da cooperativa.

“Antigamente a gente fazia serviços de colheita de madeira nas áreas da Suzano [antiga Fibria], essa era nossa forma de sobreviver. Um primo meu via que algumas empresas prestavam serviços pra eles e daí veio com a ideia de montarmos uma pequena empresa para tentar correr atrás e disputar esses contratos”, lembra.

Segundo ele, a intenção era conquistar uma forma de trabalho mais digna. No entanto, quando procuraram a ajuda de um consultor para a estruturação da empresa, ele orientou pela criação de uma cooperativa.

“Antes eu nem sabia o que era uma cooperativa. Eu tinha muita dúvida, mas depois que eu aprendi sobre o funcionamento, entendi que não tem coisa melhor. Hoje eu digo que se a pessoa tiver oportunidade, ela tem que fazer parte de uma cooperativa. A melhor forma de formalizar um trabalho é por meio de uma cooperativa, desde que você tenha pessoas comprometidas que levem o negócio a sério”, afirma.

A CTRA pertence ao Ramo Trabalho e reúne profissionais da mesma categoria que compartilham objetivos comuns e atuam de forma colaborativa para alcançá-los. Atualmente, seus 20 cooperados desempenham atividades essenciais nas plantações de eucalipto, incluindo a preparação do terreno, o controle das formigas e o manejo das plantas.

Não é exagero dizer que existe uma comunidade de São Domingos antes e depois da cooperativa. Hoje, a CTRA impacta a vida de mais de 60 famílias. Jeronimo destaca a geração de postos de trabalho. “Somos uma referência na comunidade. Nós empregamos 31 colaboradores e agora resgatamos os jovens e oferecemos trabalho digno, com bons salários e benefícios”, afirma.

Mais do que gerar renda, a cooperativa fortaleceu os laços comunitários. “Antes nossa comunidade era bem parada, a cooperativa ajudou os moradores a se unirem mais e tem proporcionado uma vida mais agradável para todos. Quando tem festa comunitária, nós contribuímos com doações, quando alguém precisa de um veículo para deslocamento, nós emprestamos… Nós nos ajudamos bastante”, diz.

Paz, inclusão e prosperidade em comunidade

A transformação vivida pelos residentes do quilombo de Córrego de São Domingos reflete um movimento maior. Só no Espírito Santo já são mais de 100 cooperativas, que reúnem mais de um milhão de cooperados. Para Carlos André Santos de Oliveira, diretor-executivo do Sistema OCB/ES – organização que representa o movimento no estado –, o cooperativismo é um motor de desenvolvimento local.

“O principal diferencial do cooperativismo é impulsionar o desenvolvimento social e econômico das localidades onde está presente. A cooperativa do Quilombo de São Domingos é um exemplo da prática do Interesse pela Comunidade, um dos princípios do cooperativismo. Todos os resultados econômicos de uma cooperativa retornam para a própria região. Por isso, no cooperativismo todo mundo cresce junto”, enfatiza.

Neste primeiro sábado de julho (4/7), o mundo celebra o Dia Internacional do Cooperativismo (Coops Day). Em 2026, o tema definido pela Aliança Cooperativa Internacional (ACI) para guiar a celebração foi “Cooperativas por um mundo pacífico”. Para a entidade, a paz vai além da ausência de conflitos: é resultado de justiça social, da inclusão e da prosperidade econômica, valores ligados à atuação das cooperativas.

O presidente da CTRA concorda com essa afirmação, explicando que esse conceito de paz está atrelado às novas possibilidades trazidas pelo cooperativismo e à ascensão social gerada pelo modelo de negócio.

“Antes a gente era muito malvisto, era muita desigualdade. Hoje é diferente, conseguimos adquirir bens, ter moradia digna e oferecer uma vida mais estável às nossas famílias. Somos respeitados. As pessoas que antes não falavam com a gente, hoje nos ouvem. Por meio do cooperativismo, nós fomos muito além”, celebra Jeronimo.

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