Vai sobrar vaga para quem? Secretários candidatos e o jogo de poder no ES
Na prática, o governo troca força no Poder Executivo por musculatura política futura na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.

O Espírito Santo entra no ciclo eleitoral com um tabuleiro político claramente em movimento e não é um movimento discreto. A decisão do governador Renato Casagrande (PSB) de permitir, incentivar ou ao menos não frear a saída de um número expressivo de secretários para disputar vagas de deputado estadual e federal redesenha o cenário político e levanta uma pergunta inevitável: com tantos nomes fortes em campo, vai sobrar vaga para quem?
Não se trata de um ajuste pontual, mas de uma estratégia. Quase metade do secretariado estadual aparece cotada para disputar as eleições proporcionais. Secretários que hoje comandam pastas estratégicas, com visibilidade, agenda pública intensa e interlocução direta com prefeitos, lideranças regionais e setores produtivos, passam a mirar o Poder Legislativo. Na prática, o governo troca força no Poder Executivo por musculatura política futura na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
Do ponto de vista do Palácio Anchieta, o cálculo faz sentido. Governos fortes tendem a buscar bancadas fortes. Ao eleger aliados diretos, Casagrande amplia sua capacidade de influência política, mesmo fora do Executivo, e ajuda a consolidar um projeto de continuidade administrativa e política. Secretários viram candidatos com discurso pronto: apresentam entregas, resultados e a narrativa de que fazem parte de um governo que “funciona”. Isso gera voto e voto em escala estadual.
Mas toda estratégia tem custo. E o custo, nesse caso, aparece no afunilamento das disputas. Quando muitos nomes com estrutura, exposição e apoio partidário entram na corrida proporcional, o espaço para candidaturas independentes, novatos ou políticos sem vínculo direto com o governo diminui drasticamente. Não porque falte voto no Espírito Santo, mas porque falta espaço competitivo.
Quem está fora da base governista passa a disputar uma eleição mais pesada, mais cara e mais desigual. Prefeitos, lideranças locais e até segmentos da sociedade civil tendem a se alinhar a quem já demonstra força e viabilidade. A lógica do “voto útil” se impõe cedo. Com isso, candidaturas alternativas correm o risco de ficar pelo caminho antes mesmo da largada oficial.
Esse movimento também provoca ruído dentro da própria base. Nem todo mundo que apoia o governo se sente contemplado quando muitos secretários ocupam o mesmo campo eleitoral. Há disputas internas silenciosas, sobreposição de bases, concorrência por redutos semelhantes e, inevitavelmente, insatisfações. Nem todos os aliados terão espaço nas chapas mais competitivas. Nem todos os projetos pessoais caberão nesse arranjo.
Além disso, há um desconforto perceptível em parte do eleitorado. Para quem cobra renovação política, a sensação é de continuidade excessiva. Secretários deixam cargos, mas permanecem no mesmo circuito de poder. Troca-se a função, não o grupo político. Isso pode não ser decisivo para o resultado das urnas, mas ajuda a alimentar um discurso crítico que a oposição certamente explorará.
Ainda assim, é difícil negar: o movimento agrada mais do que desagrada dentro da lógica do poder. A base governista se fortalece, os partidos aliados ampliam suas chances de bancada e o governador consolida influência para além do mandato. Quem perde espaço são os que dependem de brechas, os independentes, os menos conhecidos, os que apostavam em um cenário menos congestionado.
No fim das contas, a pergunta inicial permanece como síntese do momento político capixaba: vai sobrar vaga para quem? A resposta, ao que tudo indica, é direta. Vai sobrar menos espaço para quem está fora da engrenagem e mais poder concentrado entre quem já ocupa o centro do jogo. O Espírito Santo caminha para uma eleição proporcional marcada menos pela surpresa e mais pela força das estruturas, com todos os riscos e consequências que isso carrega para o futuro político do Estado.
O efeito colateral imediato é uma reorganização interna da máquina pública; o ganho projetado é a formação de uma bancada numerosa, experiente e alinhada ao projeto político que hoje comanda o Estado.
Conheça os nomes cotados:
- Agricultura – Enio Bergoli
- Ciência e Tecnologia – Bruno Lamas (PSB)
- Cultura – Fabrício Noronha
- Educação – Vitor de Ângelo (PSB)
- Esportes – José Carlos Nunes (PT)
- Justiça – Rafael Pacheco
- Meio Ambiente – Felipe Rigoni (União)
- Recuperação do Rio Doce – Guerino Balestrassi (MDB)
- Saúde – Tyago Hoffmann (PSB)
- Secretaria de Governo – Emanuela Pedroso (PSB)
- Secretaria das Mulheres – Jacqueline Moraes (PSB)
- Trabalho, Assistência e Desenvolvimento Social – Cyntia Grillo (Podemos)
- Turismo – Victor Coelho (PSB)