Deslealdade ou estratégia: o que diz a foto de Arnaldinho ao lado de Pazolini?
Em tempos de pré-campanha, uma foto pode funcionar como discurso, mensagem cifrada ou, no mínimo, provocação calculada.

Na política, raramente uma imagem é apenas um registro casual. Em tempos de pré-campanha, uma foto pode funcionar como discurso, mensagem cifrada ou, no mínimo, provocação calculada.
É nesse terreno que se insere a imagem do prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), ao lado do prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), hoje principal adversário do grupo político liderado pelo governador Renato Casagrande (PSB), de quem Arnaldinho sempre foi tratado como aliado.
A pergunta que se impõe não é trivial: trata-se de um gesto de deslealdade política ou de uma jogada estratégica diante de um tabuleiro cada vez mais estreito?
Arnaldinho construiu sua trajetória rumo ao Palácio Anchieta ancorado em uma relação institucional sólida com o governador Casagrande. Vila Velha foi contemplada com investimentos, o prefeito ganhou espaço em agendas oficiais e passou a ser citado, ainda que informalmente, como um nome viável para o debate sucessório de 2026.
Esse capital político, porém, encontrou um limite claro quando Casagrande bateu o martelo em favor do vice-governador Ricardo Ferraço como candidato preferencial à sucessão.
A partir daí, o cenário mudou. Para um político jovem, com ambições estaduais declaradas, aceitar passivamente esse enquadramento significaria correr o risco de sair da disputa antes mesmo de ela começar de fato.
É nesse contexto que a foto ganha densidade política. Ao aparecer ao lado de Pazolini, Arnaldinho envia sinais múltiplos, e todos eles incômodos para alguém.
Para o grupo governista, a imagem soa como um gesto de infidelidade simbólica, ainda que não formalizada em palavras ou atos concretos.
Já para a oposição, é a demonstração de que o prefeito de Vila Velha não se sente confortável no papel de coadjuvante de um projeto que já tem protagonista definido.
Há, evidentemente, quem leia o episódio como oportunismo. Afinal, Pazolini representa um campo político distinto, com discurso e base eleitoral próprios, frequentemente em confronto direto com o governo Casagrande. A aproximação pública, ainda que “isolada”, pode ser interpretada como tentativa de manter todas as portas abertas, mesmo à custa de coerência ideológica ou gratidão política.
Mas há outra leitura possível, e talvez mais compatível com a lógica crua da política. Arnaldinho parece agir como alguém que entendeu cedo demais que, em disputas majoritárias, lealdade sem perspectiva de poder costuma ser sinônimo de irrelevância futura. Ao se mostrar capaz de dialogar com adversários do governo, ele tenta reafirmar autonomia, ampliar seu raio de manobra e, sobretudo, lembrar que seu nome ainda está em jogo.
Pesquisas de opinião, como a mais recente da Real Time Big Data, mostram Arnaldinho em posição secundária na corrida, distante da polarização que começa a se desenhar entre Ferraço e Pazolini.
A foto, portanto, diz menos sobre uma ruptura consumada e mais sobre um desconforto latente. Ela revela um político que percebeu a redução do próprio espaço dentro da aliança original e decidiu reagir antes que fosse tarde.
Se isso será lido pelo eleitor como maturidade estratégica ou como ambiguidade calculada, ainda é cedo para afirmar.
No curto prazo, o gesto cobra seu preço: desconfiança entre aliados, ruído na base governista e munição para críticos, que já levantam o mote de um samba famoso, da saudosa Beth Carvalho: “Você pagou com traição, a quem sempre lhe deu a mão”…
Entretanto, no médio prazo, pode funcionar como ativo, caso Arnaldinho consiga se posicionar como alternativa viável a uma polarização que, até aqui, não o inclui.