Cidades

Bispo de Cachoeiro recebe título raro por missão em Moçambique

O bispo afirmou ter sido surpreendido pela aprovação, mesmo sabendo que havia uma movimentação em torno da indicação.

Bispo de Cachoeiro
Foto: Divulgação

O bispo diocesano de Cachoeiro de Itapemirim, Dom Luiz Fernando Lisboa, CP, será agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. A concessão da honraria foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Universitário da instituição, em reconhecimento à sua trajetória missionária, especialmente pelo trabalho desenvolvido em Moçambique, no continente africano.

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A notícia foi recebida por Dom Luiz na manhã desta sexta-feira (19). O bispo afirmou ter sido surpreendido pela aprovação, mesmo sabendo que havia uma movimentação em torno da indicação.

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Segundo Dom Luiz, o reconhecimento não deve ser visto como uma homenagem individual, mas como uma forma de dar visibilidade ao povo africano, em especial à população de Moçambique e da província de Cabo Delgado, região marcada por conflitos, deslocamentos forçados e graves violações de direitos humanos.

O bispo dedicou a honraria ao povo moçambicano, à Diocese de Pemba, aos missionários, padres, religiosos, católicos e não católicos com quem conviveu durante os anos em que atuou no país africano. Para ele, o título pertence à África, continente que, segundo destacou, ainda sofre com guerras, abandono e invisibilidade internacional.

Bispo de Cachoeiro assumiu missão especial

Dom Luiz viveu por quase 20 anos em Pemba, capital da província de Cabo Delgado. Primeiro, atuou como missionário. Depois, assumiu a missão episcopal na região. Durante esse período, acompanhou de perto o agravamento da violência, intensificada a partir de 2017, com ataques de grupos armados, mortes, fuga de famílias e destruição de comunidades.

Naquele contexto, a Igreja local exerceu papel importante no acolhimento da população atingida, na assistência humanitária e na denúncia das violações cometidas contra civis. Mesmo após deixar Moçambique e assumir a Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, em fevereiro de 2021, Dom Luiz manteve o compromisso de falar sobre a realidade africana.

O bispo já afirmou, em diferentes ocasiões, que Moçambique está entre os países mais pobres do mundo e que a região norte, onde atuou, concentra vulnerabilidades ainda maiores. Segundo ele, a guerra em Cabo Delgado tem relação com disputas por recursos naturais e já deixou milhares de mortos, além de cerca de 1 milhão de deslocados.

A atuação de Dom Luiz em defesa da vida, dos direitos humanos, da cultura africana, da dignidade das comunidades locais e da religiosidade dos povos foi um dos principais fundamentos para a concessão do título acadêmico.

Homenagem

Para o bispo, a homenagem reconhece uma missão coletiva. Ele ressaltou que não foi à África em nome próprio, mas enviado por sua congregação e pela Igreja do Brasil. Por isso, entende que o título também homenageia todos os missionários e missionárias que, diariamente, dedicam a vida ao serviço de outras comunidades.

Dom Luiz também estendeu o reconhecimento aos missionários brasileiros e estrangeiros que atuam em diferentes partes do mundo, inclusive àqueles que deixam seus países para trabalhar no Brasil.

A professora Patrícia Teixeira Santos, titular em História da África da Universidade Federal de São Paulo, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas e pesquisadora colaboradora em centros internacionais de estudos africanos, explicou que a aprovação ocorreu de forma unânime no Conselho Universitário da UEL.

De acordo com ela, o processo foi apresentado por meio de um dossiê elaborado com a participação de universidades públicas e da PUC do Paraná. O pedido teve como postulador o professor doutor Jefferson Olivatto da Silva e contou com apoio de universidades brasileiras e portuguesas, bispos do Brasil, de Portugal e de Moçambique, além de pessoas e instituições que acompanham a trajetória de Dom Luiz desde o período em que ele ainda era sacerdote.

Patrícia destacou que mais de 60 autoridades eclesiásticas, religiosos, lideranças comunitárias e sociais do Brasil, de Portugal e de Moçambique apoiaram a indicação. Entre os apoiadores, também estão representantes de tradições religiosas afro-brasileiras e muçulmanas.

Doutor Honoris Causa

A professora explicou que o título de Doutor Honoris Causa é uma das maiores honrarias concedidas por uma universidade. Ele reconhece pessoas cuja trajetória, trabalho e contribuição social são considerados altamente relevantes.

Segundo Patrícia, toda a fundamentação do pedido teve como base a atuação de Dom Luiz na Diocese de Pemba, especialmente na defesa da vida da população moçambicana. O dossiê reuniu registros de sua atuação pastoral, humanitária e pública em favor dos direitos humanos.

Ainda conforme a professora, o material apresentado à UEL passou a ser considerado uma referência para outros processos de indicação ao título de Doutor Honoris Causa, pela consistência da documentação e pela relevância da trajetória analisada.

Dom Luiz defende que a missão religiosa não pode ser separada da defesa da vida, da cultura, da memória, do território e da dignidade dos povos. Para ele, fé e compromisso social caminham juntos, sobretudo quando comunidades vulneráveis têm seus direitos violados.

O bispo também afirma que não é possível permanecer indiferente diante do sofrimento humano. Em sua avaliação, a religião não deve se limitar aos espaços internos dos templos, mas precisa se traduzir em ações concretas em favor do próximo, especialmente daqueles que mais precisam de proteção e defesa.

Atualmente à frente da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, Dom Luiz mantém vínculos com a África e segue defendendo que o Brasil tem uma responsabilidade histórica com o continente africano. Em diferentes momentos, ele já afirmou que o país tem uma “dívida impagável com a África” e que a Igreja brasileira pode contribuir, entre outras formas, com a formação de seminaristas africanos.

A data da entrega oficial do título de Doutor Honoris Causa ainda deverá ser definida pela Universidade Estadual de Londrina.

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