Cidades

Meninas Bordadeiras de Burarama criam coleção guiada por memórias e sentimentos

O lançamento representa uma nova etapa de um projeto desenvolvido pelo Sebrae/ES, em parceria com a Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim

Foto: Divulgação

A Festa da Imigração Italiana de Burarama, será palco, neste sábado (18), do lançamento oficial da Coleção CORAÇÕES, criada pelas Meninas Bordadeiras de Burarama. O evento será realizado das 9h às 18h, na praça do distrito, em Cachoeiro de Itapemirim.

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A apresentação da coleção está marcada para as 14h e contará com a participação das candidatas ao Miss Cachoeiro de Itapemirim 2026. Elas desfilarão peças produzidas pelas bordadeiras, unindo moda, artesanato, cultura e as histórias da comunidade.

Leia também: Cachoeiro: Bordadeiras lançam coleção inspirada na história de Burarama

O lançamento representa uma nova etapa de um projeto desenvolvido pelo Sebrae/ES, em parceria com a Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim, para fortalecer o turismo, os pequenos negócios e a economia criativa no corredor ecológico formado por Burarama, Pacotuba e Cafundó.

Desenvolvimento turístico da região

A coordenadora do projeto, Mariangela Grillo Fassarella, com a analista da regional Sul do Sebrae/ES, Luciana Nogueira (Foto: Divulgação)

Segundo a analista da regional Sul do Sebrae/ES, Luciana Nogueira, o trabalho começou a partir de uma iniciativa voltada ao desenvolvimento turístico das comunidades localizadas no entorno da Floresta Nacional de Pacotuba.

“Temos um projeto do Sebrae com a Prefeitura de Cachoeiro para o desenvolvimento do turismo no corredor ecológico formado por Burarama, Pacotuba e Cafundó. Esse é o corredor ecológico da Floresta Nacional de Pacotuba, uma unidade de conservação nacional gerida pelo ICMBio”, explicou.

A proposta está relacionada ao fortalecimento das comunidades que vivem próximas à unidade de conservação. Além da preservação ambiental, o projeto busca criar oportunidades de trabalho, renda, empreendedorismo e valorização da identidade regional.

De acordo com Luciana, a chefe da Floresta Nacional de Pacotuba, Augusta Rosa Gonçalves, já desenvolvia ações com moradores e empreendedores do território. “Dentro do plano de manejo, a Augusta tem como missão trabalhar o desenvolvimento da comunidade. São realizadas atividades na floresta voltadas ao desenvolvimento do território e à educação ambiental. Os empreendedores também são chamados para participar dessas ações”, afirmou.

Diagnóstico identificou potenciais turísticos

O envolvimento do Sebrae ocorreu durante o processo de desenvolvimento da marca turística de Cachoeiro de Itapemirim. A partir desse trabalho, surgiu a necessidade de apoiar de maneira mais direta os empreendedores das comunidades do corredor ecológico.

“O papel do Sebrae é apoiar o desenvolvimento do empreendedor. A partir disso, fizemos um diagnóstico da região e visitamos cada empreendimento localizado naquele território”, relatou Luciana.

O levantamento permitiu identificar produtores, artesãos, prestadores de serviços e grupos comunitários com potencial para participar das ações de desenvolvimento turístico.

O projeto está em andamento há aproximadamente um ano e meio e reúne diferentes empreendedores da região. Entre os grupos identificados durante o diagnóstico estava o coletivo das Meninas Bordadeiras de Burarama.

Bordadeiras se reúnem semanalmente para preservar histórias

As Meninas Bordadeiras de Burarama formam um coletivo social e cultural. As integrantes se reúnem todas as quintas-feiras para produzir bordados e compartilhar experiências. O grupo não trabalha com um único estilo ou uma técnica rígida. As peças são produzidas por meio do bordado livre, permitindo que cada mulher represente suas lembranças, sentimentos e vivências.

“Elas se reúnem todas as quintas-feiras para bordar, dentro de um trabalho voluntário. É um projeto social. Elas são um ponto de memória”, destacou a analista técnica.

Nos tecidos, as bordadeiras registram elementos que fazem parte da história de Burarama e das comunidades vizinhas. As criações incluem cenas da infância, receitas familiares, tradições locais, plantações de café, florestas, cachoeiras e outros aspectos da natureza.

Para Luciana, o coletivo exerce uma função que vai além da produção artesanal. As mulheres ajudam a preservar e transmitir a memória da região. “Como ponto de memória, elas são as guardiãs de toda essa história, que é bordada à mão e em ponto livre”, afirmou.

Comercialização das peças era um desafio

Foto: Matheus Rocha/PMCI

Apesar da qualidade artística e do significado cultural dos trabalhos, o diagnóstico identificou que as bordadeiras ainda enfrentavam dificuldades para apresentar e comercializar os produtos. Muitas criações eram feitas em pedaços de tecido, sem uma aplicação que facilitasse a venda ou aumentasse o valor percebido pelo público.

“O bordado delas é lindo, mas precisava de uma aplicação e de uma apresentação que trouxessem maior valorização ao produto. Às vezes, era um pano bordado com pontos lindos e uma tradução de sentimento incrível. Mas era somente um pano. Poderia se transformar em um quadro, uma almofada ou uma flâmula”, exemplificou.

A partir dessa necessidade, o Sebrae apresentou ao grupo a proposta de desenvolver uma coleção comercial, sem retirar das peças a identidade artesanal e comunitária.

Tradição do bordado atravessa gerações

Foto: Matheus Rocha/PMCI

A história das Meninas Bordadeiras de Burarama começou muito antes da criação oficial do grupo. Coordenadora do projeto social, Mariangela Grillo Fassarella aprendeu os primeiros pontos de bordado com a mãe quando tinha apenas seis anos. Ao longo da vida, ela compartilhou esse conhecimento com moradores da comunidade e ajudou a aproximar crianças e jovens de uma prática transmitida entre gerações.

Por volta de 2004, inspiradas por uma publicação da época, as integrantes decidiram adotar o nome Meninas Bordadeiras de Burarama. Anos depois, em 2015, a iniciativa recebeu o reconhecimento de Ponto de Memória, com certificação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Para Mariangela, essa liberdade é uma das características mais importantes do trabalho desenvolvido pelo coletivo. “A modernidade nos cobra perfeição. No bordado eu escolho o ponto que quero, a cor que quero, se errar, continuo dali. É a minha forma de tecer a história. Um ponto atrás do outro, é uma terapia. Cada ponto tece sua emoção. Eu aprendi com minha mãe, ensinei para meus filhos. Fico feliz por essa arte não morrer”.

Cada peça produzida pelo grupo possui características próprias, pois carrega parte da história da mulher que a criou. Os bordados não seguem apenas referências estéticas. Eles registram experiências vividas, relatos familiares e elementos que fazem parte da identidade de Burarama.

“A gente borda com as mãos, mas, na verdade, quem guia mesmo é o coração. Cada pontinho tem uma lembrança, uma história que a gente viveu ou ouviu dos nossos pais e avós. Foi assim que nasceu a Coleção Corações. Quando a gente borda a floresta, a Pedra da Ema, a Cachoeira da Forquilha, os cafezais ou a nossa igreja, não está fazendo só um desenho bonito. Está contando um pedacinho da nossa vida e de Burarama”, explicou Mariangela.

Oficina de design deu origem à nova coleção

Foto: Matheus Rocha/PMCI

No início de 2026, as bordadeiras receberam a proposta de participar do desenvolvimento de uma coleção que pudesse chegar ao mercado de forma mais organizada. A etapa prática começou em maio, quando as integrantes participaram de uma oficina voltada à criação, ao design e à aplicação dos bordados em novos produtos.

“No início deste ano, levamos para as bordadeiras a proposta de desenvolver uma coleção comercial. Em maio, elas participaram de uma oficina de design para a criação de novas peças”, contou Luciana.

O objetivo não era modificar a essência do trabalho, mas oferecer ferramentas para que os bordados fossem aplicados em produtos mais atrativos e com maior potencial de comercialização.

“Foi um trabalho com elementos de design e aprimoramento da comercialização, para que elas também pudessem gerar renda”, ressaltou.

Durante a imersão, as mulheres analisaram formatos, aplicações e maneiras de apresentar os trabalhos ao público. O processo resultou na criação da Coleção CORAÇÕES.

Festa da Imigração foi escolhida para o lançamento

Depois do desenvolvimento das peças, o projeto precisava encontrar um momento adequado para apresentar a coleção oficialmente ao mercado e à comunidade.

As próprias bordadeiras sugeriram que o lançamento acontecesse durante a Festa da Imigração Italiana de Burarama, evento tradicional do distrito.

“Nós precisávamos de um momento para lançar essa coleção. Elas falaram sobre a Festa da Imigração Italiana e surgiu a possibilidade de realizar um desfile para a apresentação oficial”, explicou Luciana.

A proposta foi encaminhada à direção do Sebrae e aprovada. A partir disso, a organização começou a estruturar o desfile e a participação das candidatas ao Miss Cachoeiro de Itapemirim 2026.

A escolha da festa também permite que os visitantes conheçam outros aspectos da cultura local, como a gastronomia típica, a música, o artesanato e as tradições mantidas pelos moradores.

Nome CORAÇÕES representa sentimentos bordados

Foto: Matheus Rocha/PMCI

O nome da coleção está diretamente relacionado ao processo criativo das integrantes. Segundo Luciana, cada ponto bordado nasce de uma lembrança, de uma experiência ou de um sentimento guardado pelas mulheres.

“A coleção chama CORAÇÕES porque o bordado delas, antes de ser um ponto, é um sentimento”, afirmou.

Inicialmente, a ideia começou a ser desenvolvida próximo ao Dia das Mães. Entretanto, o grupo e os responsáveis pelo projeto perceberam que a coleção precisava de mais tempo e de uma apresentação especial.

“Na época, estávamos perto do Dia das Mães, mas seria tudo muito corrido. Pela história das bordadeiras e por tudo o que elas representam, entendemos que a coleção precisava de uma apresentação nobre. Por isso, guardamos o lançamento para a Festa da Imigração Italiana”, relatou.

As peças não representam somente lembranças felizes. Algumas produções também refletem momentos difíceis, superações e mudanças vividas pelas integrantes.

“Às vezes, não é necessariamente um sentimento bom. Existem muitas histórias de mulheres que se libertaram por meio do bordado. Para elas, o trabalho também funciona como uma terapia”, explicou Luciana.

Bordado também se tornou espaço de acolhimento

Foto: Matheus Rocha/PMCI

Os encontros das quintas-feiras funcionam como um momento de criação, convivência e acolhimento. Enquanto bordam, as mulheres conversam, compartilham experiências e fortalecem os vínculos entre elas.

“É um momento de rir, mas também de chorar juntas. Elas contam histórias felizes e, em outros momentos, escutam histórias tristes”, disse Luciana.

Uma das experiências mencionadas por ela envolve uma bordadeira negra que, durante muito tempo, produzia apenas figuras de crianças brancas.

Segundo Luciana, quando foi questionada sobre as escolhas, a mulher relatou que sofreu preconceito durante a infância por causa da cor da pele e do cabelo. “Ela contou que, quando era criança, outras crianças mexiam com ela e faziam comentários sobre o cabelo. No subconsciente, era como se ser branca significasse não enfrentar aquele preconceito”, explicou.

Com o tempo e por meio do trabalho desenvolvido no coletivo, a bordadeira conseguiu ressignificar essas lembranças.

“Ela conseguiu superar essa questão e, atualmente, borda crianças negras. Essa também é uma forma de libertação por meio do bordado”, relatou Luciana.

A história ajuda a explicar por que a coleção recebeu o nome CORAÇÕES. Cada peça carrega não apenas uma técnica artesanal, mas também parte da trajetória de quem a produziu.

Experiências turísticas

Foto: Matheus Rocha/PMCI

Além da criação e da comercialização das peças, o projeto também transformou os encontros das bordadeiras em uma experiência turística. Atualmente, grupos podem agendar visitas às reuniões realizadas às quintas-feiras. Durante a atividade, os visitantes conhecem as histórias das integrantes e aprendem técnicas básicas de bordado livre.

“Transformamos esse trabalho em uma experiência para o turismo. Nas quintas-feiras, quando elas se reúnem, já é possível agendar visitas para levar grupos que desejam bordar com elas”, explicou Luciana.

A experiência já foi testada com um grupo de 38 participantes do projeto Sesc 60+. Durante a visita, cada pessoa aprendeu a fazer o próprio ponto. “Cada participante aprende o seu ponto. Eu mesma aprendi e tenho a minha própria camiseta bordada. Elas me ensinaram e eu bordei”, contou.

A atividade aproxima os visitantes da comunidade e permite que conheçam não apenas o produto final, mas também as histórias e os processos envolvidos na produção.

Oficina em feiras e eventos

Outra iniciativa criada a partir do projeto é a oficina “Entre Linhas e Histórias”. A atividade pode ser levada para feiras, encontros culturais e outros eventos.

“Temos a oficina ‘Entre Linhas e Histórias’, que pode ser realizada em eventos. Já fizemos essa atividade em uma feira em Cachoeiro, onde as bordadeiras ensinaram o bordado dentro do estande”, explicou Luciana.

A proposta amplia a divulgação do grupo, fortalece o reconhecimento das artesãs e contribui para a preservação da memória de Burarama. “São experiências que temos desenvolvido com elas para fortalecer essa imagem e perpetuar uma história tão bonita”, completou.

Caravanas para o evento

O lançamento oficial da Coleção CORAÇÕES acontecerá às 14h deste sábado, durante a Festa da Imigração Italiana de Burarama.

A programação da festa começa às 9h e segue até as 18h, com gastronomia típica, música, cultura, artesanato e outras atrações para moradores e visitantes.

Também haverá uma caravana com saída de Cachoeiro de Itapemirim às 10h, em frente à unidade do Sebrae. A participação será realizada por meio de inscrição solidária, conforme as orientações apresentadas no formulário da organização.

Serviço

Festa da Imigração Italiana

  • Data: sábado – 18 de julho
  • Horário: das 9h às 18h
  • Local: Praça de Burarama – Cachoeiro de Itapemirim
  • Desfile da Coleção CORAÇÕES: 14h
  • Caravana com saída de Cachoeiro de Itapemirim, às 10h (em frente ao SEBRAE) com destino à Praça de Burarama
  • Garanta sua vaga para a Caravana pelo link: https://forms.office.com/r/UyNUdXgg5B
  • Realização: Sebrae/ES
  • Apoio: Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim e Região Sul Capixaba dos Vales e Café

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Com mais de 23 anos de experiência na área, e passagens por diversos veículos de comunicação do Estado, atua no portal AQUINOTICIAS.COM desde 2021, e está em sua segunda passagem pelo veículo, somando mais de 11 anos de empresa. Formada em História e pós-graduada em Jornalismo Político, atuou também em assessoria de imprensa por mais de 15 anos, além de passagem por emissoras de rádio, TV e revistas em Cachoeiro de Itapemirim.