Economia

Das dívidas ao sonho: educação financeira no cooperativismo transforma vida de trabalhadores no ES

Conheça a história da analista Karoline Freitas e etenda como o programa de educação financeira da Cooperáguia tem ajudado centenas de trabalhadores a sair das dívidas e a cuidar melhor do dinheiro

Foto: Grupo Águia Branca

“A vida toda eu vivi no meu limite. Eu moro sozinha, sou independente, sempre tive que pagar as minhas contas. Então, eu sempre estive no limite, vivendo para apagar ‘incêndio’, justamente porque eu nunca tive um planejamento financeiro, eu nunca me organizei”, explica a analista de People Experience Karolina Freitas.

A história dela retrata a realidade de milhares de pessoas no Espírito Santo, que, por não terem acesso à educação financeira, terminam tomando decisões equivocadas e fazendo mau uso do dinheiro. E ela sentiu na pele a falta desse conhecimento quando ficou desempregada.

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“Nesse período, eu demorei muito para me organizar. E eu não tinha planejamento financeiro, eu não tinha reserva financeira. Eu me vi em uma situação onde eu não tinha muito para onde correr, a não ser me endividar”, ressalta.

Endividamento atinge milhares de famílias no ES

Assim como Freitas, milhares de capixabas caíram no endividamento. Até abril de 2026, conforme mostram dados do Connect Fecomércio-ES, obtidos por meio da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), 32,6% das famílias estão endividadas no Espírito Santo.

Considerando que o estado possui cerca de 1,4 milhão de domicílios ocupados (com base nos dados censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE), o índice de 32,6% representa aproximadamente 450 mil famílias capixabas estão com alguma conta ou compromisso financeiro em atraso.

No Brasil, segundo dados do Banco Central, o cartão de crédito é o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias e compromete, sozinho, 54% da renda familiar. E foi justamente esse um dos vilões que levaram Freitas a passar por momentos de aperto financeiro.

“Sempre usei o cartão de crédito para complementar a renda, o que é um grande erro. Minha relação com o dinheiro era sempre assim, em emergência. O dinheiro não me ajudava, ele me gerava aflição”, destaca a analista.

Além do cartão, de acordo com dados da Peic, o crédito pessoal também é um dos principais meios de endividamento dos capixabas. A incidência é de 14,8% entre as famílias com renda de até 10 salários mínimos e de 11,5% entre as com renda acima de 10 salários mínimos.

Outro vilão é o crédito consignado. O estudo aponta que ele é o causador das dívidas de 8,4% das famílias espírito-santenses, seguido pelo cheque especial, responsável por cerca de 3% dos lares endividados.

Dívidas afetam a saúde e o bem-estar

As consequências do endividamento não param apenas na inclusão do nome em órgãos de proteção ao crédito, como o SPC e a Serasa. Elas podem se estender para a saúde, comprometendo o desempenho nas atividades laborais, conforme explica a diretora de administração e finanças do Grupo Águia Branca, Andreia Gabriel, que também atua como diretora administrativa da Cooperáguia.

Andreia Gabriel, diretora de administração e finanças do Grupo Águia Branca | Foto: Grupo Águia Branca

“A gente percebia que muitas pessoas viviam com orçamento apertado. Não necessariamente porque ganhavam pouco, mas porque nem sempre tinham ferramentas para organizar melhor o próprio dinheiro. Isso impacta muito mais do que o bolso, afeta a rotina, os planos, o bem-estar, a saúde mental”, afirma.

Além da dificuldade para organizar o orçamento, a necessidade de renegociar dívidas e a preocupação constante com o desequilíbrio financeiro também estavam entre os comportamentos apresentados por alguns colaboradores do Grupo Águia Branca.

“Esses sinais mostraram que não bastava atuar quando o problema já estava instalado, era importante também trabalhar na prevenção, ajudando as pessoas a compreender melhor a sua realidade financeira e tomar decisões antes que as dificuldades se agravassem”, ressalta a diretora de administração e finanças.

Educação financeira preventiva

Ao perceber que o problema não se limitava a casos isolados, mas também estava relacionado à falta de ferramentas e conhecimentos para administrar melhor o dinheiro, a cooperativa entendeu que precisava ir além de soluções pontuais.

Criou-se, então, um programa gratuito de educação financeira, o Educa + Finanças, com mentorias que ajudam os funcionários a tomar melhores decisões referentes ao uso do dinheiro no dia a dia. E foi graças a essa iniciativa que a analista Karolina Freitas conseguiu sair do vermelho e reorganizar a vida financeira.

“Mudou muito o meu pensamento, principalmente sobre o consumo. Agora, antes de consumir, antes de fazer uma dívida, eu penso realmente se eu preciso daquilo, o retorno que pode me dar e se pode esperar mais um pouco. Assim não atropelo o meu planejamento financeiro. Também comecei a criar o hábito de poupar. Agora eu crio reservas de acordo com os meus objetivos, sejam eles de curto, médio ou longo prazo”, explica.

Além de Freitas, mais de 600 colaboradores participaram do programa. Na oportunidade, eles aprenderam não só como poupar, mas também sobre como usar o crédito responsável e investir.

“A gente olha para resultados objetivos e para mudança de comportamento. Um exemplo é perceber ao longo do ano seguinte participantes formando uma reserva de emergência. Isso mostra que o conhecimento virou prática, mas para mim o principal resultado é outro: a pessoa passar a tomar decisões financeiras com mais consciência, segurança e menos ansiedade. Queremos que isso seja sustentável como um processo contínuo de educação financeira”, afirma a diretora administrativa da Cooperáguia.

A educação financeira ajudou a analista Karolina Freitas a reorganizar a vida e voltar a fazer planos para o futuro, entre eles, realizar o sonho de comprar um carro novo.

“Eu não tenho um veículo ainda, esse é um dos meus objetivos a longo prazo, essa é uma das minhas caixinhas de reserva, além de viagens que eu desejo fazer. Hoje, para alcançar o sonho do carro, precisei estabelecer um valor e um prazo para chegar até esse objetivo”, explica.

Cursos gratuitos ensinam a organizar as finanças

A história da analista do Grupo Águia Branca mostra como o conhecimento sobre o próprio dinheiro pode ajudar a transformar a relação com as finanças.

E quem também deseja sair das dívidas, aprender a controlar os gastos e se preparar para conquistar objetivos, assim como ela, pode encontrar oportunidades gratuitas de aprendizado, mesmo sem fazer parte de uma cooperativa.

Uma dessas iniciativas é o Se Liga Finanças ON, plataforma de educação financeira do instituto da cooperativa Sicoob, que oferece cursos gratuitos pela internet.

Foto: arquivo pessoal

O projeto ensina, com linguagem simples e atividades práticas, como organizar o orçamento, lidar com o endividamento, planejar metas financeiras e conhecer opções de investimento.

Há também uma formação voltada aos microempreendedores individuais (MEIs), além de um curso específico para quem quer aprender a investir.

A iniciativa está disponível para quem deseja desenvolver mais autonomia nas decisões financeiras. Não é necessário ter conta na cooperativa Sicoob para participar.

As aulas podem ser acessadas pelo celular ou computador, de acordo com a disponibilidade de cada aluno por meio da plataforma: https://seligafinancas.institutosicoob.org.br/

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Graduado em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade 2 de Julho e MBA em Comunicação Corporativa pela Unifacs, já trabalhou como produtor de jornalismo all news na Band News FM Salvador. Exerceu a função de assessor de imprensa e comunicação na Prefeitura de Madre de Deus, Grupo Varjão e Câmara Municipal de Salvador.