Segurança

Pesquisa revela violência “invisível” vivida por mulheres no Espírito Santo

Levantamento do DataSenado mostra que cerca de 30% das capixabas relataram situações concretas de violência no último ano sem identificá-las espontaneamente dessa forma.

Violência contra a mulher
Foto: Ilustrativa/Pixabay

A violência contra a mulher no Espírito Santo pode alcançar vítimas que sequer identificam o que viveram como uma agressão doméstica ou familiar. Cerca de 30% das capixabas relataram ter passado por ao menos uma situação concreta de violência nos 12 meses anteriores à pesquisa, mesmo sem declarar espontaneamente que haviam sofrido esse tipo de violência.


O dado faz parte da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025 e incorporada ao Mapa Nacional da Violência de Gênero. O índice capixaba está dentro da margem de erro da estimativa nacional, de 29%, portanto não pode ser considerado estatisticamente diferente do resultado do país.

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A pesquisa ouviu 21.641 mulheres com 16 anos ou mais em todo o Brasil, entre 16 de maio e 8 de julho de 2025. O levantamento possui amostra probabilística e nível de confiança de 95%.


31% das capixabas já sofreram violência


Quando a análise considera toda a vida das entrevistadas, 31% das mulheres do Espírito Santo afirmaram já ter sofrido violência doméstica ou familiar praticada por um homem. Nos 12 meses anteriores à pesquisa, 14% declararam ter enfrentado esse tipo de violência.


Entre as capixabas que relataram violência praticada por homens, 90% disseram ter sofrido violência psicológica. Outros 86% citaram violência moral e 76%, violência física. Em 64% dos casos, o agressor era marido ou companheiro da vítima na época da agressão.


Outro dado chama atenção para a permanência da vítima próxima ao agressor. Entre as mulheres que sofreram violência no estado, 21% ainda conviviam com a pessoa responsável pela agressão. Desse grupo, 85% moravam com o agressor.


Nas situações consideradas mais graves pelas entrevistadas, 53% disseram que o agressor estava bêbado e 49% relataram episódios relacionados a ciúmes.


Violência afeta relacionamentos e trabalho


Os impactos também continuam depois das agressões. Entre as mulheres que terminaram o relacionamento com o agressor, 81% disseram que a violência teve muita influência na decisão.


Além disso, 69% das vítimas afirmaram que a situação afetou o convívio com outras pessoas. Para 47%, as consequências chegaram à vida profissional ou ao trabalho remunerado.


“Os dados ajudam a romper com uma leitura da violência doméstica como um episódio isolado e que a violência não termina quando a agressão acaba”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número. Segundo ela, o enfrentamento também precisa considerar as condições necessárias para que as mulheres reconstruam suas vidas.


Maioria acredita que agressões não são denunciadas


A pesquisa também revela como a violência está presente no círculo social das capixabas. Sete em cada dez entrevistadas, ou 70%, conhecem uma amiga, familiar ou pessoa próxima que já sofreu violência doméstica ou familiar.


Ao mesmo tempo, 62% acreditam que as mulheres denunciam as agressões apenas “na minoria das vezes”. Outros 23% consideram que as vítimas não denunciam.


O conhecimento sobre mecanismos de proteção também aparece como um desafio. Segundo o levantamento, 63% das capixabas afirmam conhecer pouco a Lei Maria da Penha, enquanto 10% dizem não conhecer nada sobre a legislação.


Em relação às medidas protetivas, 62% afirmaram conhecê-las pouco e 17% disseram não conhecer o recurso. Somados, os dois grupos representam 79% das entrevistadas.


Entre os serviços de proteção, a Delegacia da Mulher é a mais conhecida, citada por 94% das capixabas. A Defensoria Pública aparece com 90%, seguida por CRAS ou CREAS, com 88%.


Brasil também apresenta diferença entre violência e reconhecimento
O fenômeno não se restringe ao Espírito Santo. Nacionalmente, apenas 4% das brasileiras disseram espontaneamente ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento. Quando questionadas sobre situações específicas, sem o uso do termo “violência”, 33% relataram experiências compatíveis com violência doméstica.


A diferença corresponde a 29% da população feminina pesquisada que relatou situações de violência sem identificá-las espontaneamente dessa maneira.


De acordo com o levantamento, quase 29 milhões de mulheres sofreram violência doméstica ou familiar no Brasil no período analisado. Desse universo, 24,97 milhões relataram situações concretas sem nomeá-las espontaneamente como violência.


Quando também são consideradas 1,87 milhão de mulheres que reconheceram ter sofrido violência, mas não procuraram delegacia, Ligue 180 ou 190, o levantamento aponta 26,84 milhões de brasileiras nessa lacuna entre a violência vivenciada e a busca por proteção policial, equivalente a 93,6% das vítimas consideradas nessa análise.


Para Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, ampliar a rede de proteção é fundamental, mas as políticas públicas também precisam alcançar o momento anterior à procura por atendimento, garantindo informação para que as mulheres reconheçam situações de violência e conheçam seus direitos.

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Jornalista com mais de uma década de experiência em produção de conteúdo jornalístico e cobertura de temas políticos, de segurança pública e institucionais. Atua com redação e edição de matérias para diferentes plataformas. Também possui experiência em comunicação política e eleitoral, assessoria de imprensa e redação publicitária.