Riquezas do Sul

Darcy Batista Gonçalves: o desconhecido que se tornou o coração cultural de Iúna

Conheça Darcy Batista Gonçalves, um multiartista que transformou Iúna com sua arte e resiliência. Uma história inspiradora.

De Guaçuí para as ruas, palcos e corações de Iúna. A história de Darcy Batista Gonçalves é a tradução perfeita do que o projeto Riquezas do Sul busca eternizar: trajetórias de capixabas que, com talento, resiliência e amor à arte, transformaram a realidade ao seu redor. Patrono da Cadeira Nº 14 da Academia Iunense de Letras, Darcy não foi apenas um escritor; foi um multiartista visionário que enxergou na cultura o caminho para a união de uma comunidade.

Nascido em Guaçuí, no dia 18 de janeiro de 1950, Darcy chegou a Iúna em 1977 para trabalhar na construção civil, trazendo sua família três anos depois. Seus primeiros passos na nova cidade foram marcados pela observação silenciosa, sentimento que ele imortalizou no poema autobiográfico “O Desconhecido”. Nos versos, ele descreve o temor inicial e o isolamento de quem chega a uma cidade pequena, enfrentando os olhares e julgamentos de quem ainda não o conhecia.

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No entanto, a poesia também revela a virada de sua história: o número dos que o abraçaram foi infinitamente maior do que os que o condenaram. Iúna, com sua “singeleza de uma rosa”, deixou de ser um território estranho para se consagrar como o seu “berço dourado”. Ele fez do chão da cidade o seu próprio chão, e de sua gente, a sua família.

A revolução nos palcos: o grupo “Unidos pelo Céu”

Foi na integração comunitária e na fé que Darcy encontrou sua maior vocação. Católico atuante e com visão de liderança, impulsionou a criação da Mocidade Iunense Cristã (MIC) em 1979 e, em 1981, fundou o lendário grupo teatral “Unidos pelo Céu”. O que começou inspirado em uma esquete de circo transformou-se em um dos maiores grupos de teatro do Espírito Santo, chegando a contar com 112 membros ativos.

Nos palcos, Darcy era incansável. Assinava a autoria, direção, figurino e cenografia de espetáculos que marcaram época. Além da peça que deu nome ao grupo (mais tarde rebatizada de “O Céu uniu dois Corações”), ele escreveu e dirigiu obras como “Meu papai Noel”, “O Nascimento de Jesus”, “A Força do Amor”, “Tarde demais para Amar”, “Grave não, mas grávido sim” e “Filho Adotivo”.

Sua crença de que a arte educa, alimenta a alma e exercita a paz mental culminou, em 1986, na implantação do projeto “O Teatro e a Comunidade”, uma iniciativa pioneira para descentralizar a cultura e dar voz artística aos bairros e moradores. O impacto de sua articulação cultural foi tão expressivo que, em 1984, participou ativamente da fundação da Casa da Cultura Iunense.

Uma vida de superação

Ao lado da esposa, Maria do Carmo Rocha Gonçalves, construiu uma grande família, sendo pai de nove filhos: Erasmo, Rozana, Helberte, Laureano, Andréia, Priscila, Gesinéia, Hingria e Fabiano.

Sua dedicação não se restringia à arte. A busca pelo conhecimento o acompanhou por toda a vida. Concluiu o primeiro grau já adulto, em 1981, e logo se destacou como um dos melhores alunos do curso de Técnico em Contabilidade na Escola Henrique Coutinho (1982-1984). Essa excelência o levou a integrar o quadro de funcionários da agência do Banestes em Iúna. O reconhecimento público de sua índole e contribuição social veio em 7 de novembro de 1991, quando recebeu o título de Comendador pela Ordem dos Cavaleiros do Rio Pardo.

A partir de 1989, Darcy enfrentou duras batalhas contra a própria saúde. Após sofrer três derrames, o último deles o levou a falecer precocemente no dia 15 de setembro de 1995, aos 45 anos, na Santa Casa de Iúna.

Hoje, seus restos mortais descansam no cemitério local, mas seu legado está eternizado na memória cultural do Sul do Espírito Santo. Darcy Batista Gonçalves provou que a riqueza de uma região não se mede apenas por sua economia, mas pelas mentes brilhantes que, por meio das palavras e das cortinas que se abrem, ensinam uma cidade inteira a aplaudir a arte e a própria história.

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