Voto distrital misto: quem ganha e quem pode perder com a mudança
A proposta prevê que metade das vagas seja ocupada pelos candidatos mais votados em cada distrito e a outra metade seja distribuída conforme a votação das legendas, respeitando listas partidárias previamente organizadas.

A proposta de adoção do voto distrital misto no Brasil pode mudar a maneira como milhões de brasileiros escolhem seus representantes na Câmara dos Deputados, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais.
A mudança está sendo articulada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em conjunto com lideranças partidárias, entre elas o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab.
Receba as principais notícias no seu WhatsApp!A discussão envolve uma alteração importante nas regras eleitorais: substituir o atual sistema proporcional de lista aberta por um modelo que combina a eleição de representantes por regiões específicas com a escolha de parlamentares por listas organizadas pelos partidos.
Na prática, o eleitor poderá ter dois votos: um para escolher diretamente o candidato que representará seu distrito eleitoral e outro para escolher um partido. A proposta prevê que metade das vagas seja ocupada pelos candidatos mais votados em cada distrito e a outra metade seja distribuída conforme a votação das legendas, respeitando listas partidárias previamente organizadas.
A mudança ainda está em fase de articulação política. Em 28 de outubro de 2026, Hugo Motta anunciou a intenção de discutir e votar uma proposta de reforma eleitoral ainda neste ano. A implementação integral do sistema foi projetada para 2034, com uma possível etapa de transição em 2030. Portal da Câmara dos Deputados+1
O debate, entretanto, vai além de uma simples mudança na cédula eleitoral. A proposta pode alterar o peso dos partidos, a influência de candidatos com grande votação individual, a participação de grupos sociais no Congresso e a relação entre os parlamentares e as regiões que representam.
O que é o voto distrital misto e como funcionaria na prática?
Para entender a proposta, é necessário conhecer primeiro como funciona a eleição atualmente.
Hoje, o Brasil utiliza o sistema proporcional de lista aberta para escolher deputados federais, deputados estaduais e vereadores. Isso significa que o eleitor pode votar diretamente em um candidato ou escolher apenas o número de um partido.
Os votos recebidos pelos candidatos também entram na conta do partido ou da federação. Depois da apuração, as cadeiras são distribuídas conforme o desempenho eleitoral das legendas e as regras de votação mínima. Por isso, um candidato que recebe muitos votos pode ajudar outros integrantes do mesmo partido a conquistar uma vaga.
É justamente esse mecanismo que permite a eleição de parlamentares que receberam menos votos individualmente do que candidatos de outras legendas. O resultado depende não apenas da votação pessoal, mas também do desempenho coletivo do partido.
O que mudaria com a reforma?
No modelo distrital misto, o eleitor passaria a votar duas vezes. Uma escolha seria destinada ao candidato que disputaria a representação de sua região. A outra seria direcionada a um partido político.
Para compreender, imagine um estado com 70 vagas na Câmara dos Deputados.
Pelo desenho apresentado nas articulações, a distribuição seria a seguinte:
- 35 deputados eleitos pelos distritos: o estado seria dividido em 35 regiões eleitorais, cada uma com uma disputa própria. O candidato mais votado em cada região conquistaria a vaga.
- 35 deputados eleitos pelas listas partidárias: os partidos apresentariam listas com nomes previamente organizados. As vagas seriam distribuídas conforme a votação obtida pelas legendas.
Assim, metade dos parlamentares representaria diretamente os distritos, enquanto a outra metade chegaria ao Legislativo por meio do desempenho dos partidos.
O modelo não acaba completamente com a participação dos partidos na eleição. Entretanto, modifica a maneira como as vagas são preenchidas e reduz a influência que a votação individual de um candidato exerce sobre a eleição de outros integrantes da mesma legenda. Portal da Câmara dos Deputados+2
Por que Hugo Motta e os partidos querem mudar o sistema eleitoral?
A discussão sobre o voto distrital misto ganhou força em um momento de mudanças na composição política do Congresso Nacional e de crescimento de candidatos que conquistam votações expressivas nas redes sociais.
Um dos pontos centrais da discussão é o chamado efeito dos puxadores de votos. São candidatos que recebem uma quantidade muito elevada de votos e, pelas regras do sistema proporcional, contribuem para que outros nomes do mesmo partido também conquistem cadeiras.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) é um exemplo desse fenômeno. Nas eleições de 2022, sua votação individual ultrapassou 1,4 milhão de votos em Minas Gerais, contribuindo para o desempenho da legenda na distribuição das vagas.
Com o avanço das redes sociais, candidatos com grande alcance na internet passaram a reunir eleitores em diferentes regiões de seus estados. Isso permite que uma pessoa conquiste uma votação muito superior à de outros integrantes da mesma chapa.
A avaliação de lideranças envolvidas na articulação é que o atual sistema permite que a popularidade de um candidato tenha reflexos sobre a composição de toda a bancada partidária.
A discussão sobre o voto distrital misto envolve uma mudança na forma como o poder político é distribuído no Brasil.
De um lado, os defensores do modelo apontam a possibilidade de aproximar deputados de regiões específicas, estabelecer uma relação territorial mais clara entre representantes e eleitores e reduzir o efeito dos candidatos que concentram milhões de votos.
De outro, os críticos alertam para o risco de diminuir a diversidade política, aumentar a influência das direções partidárias e criar diferenças na quantidade de cidadãos representados por cada parlamentar.
Para o cidadão, a principal mudança seria passar a escolher tanto um representante de seu distrito quanto um partido político. A composição da Câmara, por sua vez, dependeria de uma combinação entre disputas regionais e listas partidárias.
Você no aquinoticias.com
Presenciou algo importante na sua cidade? Tem uma denúncia, reclamação ou um vídeo exclusivo? Sua sugestão pode virar notícia. Envie agora para o nosso WhatsApp: (28) 99991-7726