Por que grávidas têm desejos por alimentos específicos? Veja o que diz a ciência
Alterações hormonais e cerebrais podem explicar os desejos alimentares durante a gravidez, segundo pesquisas recentes.

Vontade repentina de comer chocolate, sorvete, frutas ou até combinações incomuns de alimentos faz parte da experiência de muitas gestantes. Esses desejos podem surgir em diferentes momentos da gravidez e, em geral, não representam um problema.
Apesar de serem conhecidos, os desejos alimentares durante a gestação ainda intrigam os cientistas. A ciência aponta que alterações hormonais, metabólicas e cerebrais podem influenciar essas vontades. Além disso, fatores emocionais, culturais e comportamentais também participam desse processo.
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Uma pesquisa publicada na revista científica Nature Neuroscience acrescentou uma nova pista. Em experimentos com camundongos, pesquisadores identificaram alterações em circuitos cerebrais ligados à serotonina, à motivação e à recompensa alimentar.
O resultado ajuda a compreender melhor o fenômeno. Entretanto, ainda não comprova que o mesmo mecanismo explique os desejos das mulheres grávidas.
Por que a gravidez provoca desejos por alimentos específicos?
Os desejos alimentares, conhecidos cientificamente como food craving, representam uma vontade intensa de consumir determinado alimento. Diferentemente da fome, eles não dependem necessariamente de uma necessidade de energia.
Uma gestante pode sentir vontade de comer um chocolate específico mesmo depois de uma refeição. Também pode desejar um alimento que antes não despertava tanto interesse.
Segundo especialistas, não existe uma explicação única para esse comportamento. A combinação de alterações hormonais, necessidades energéticas, mudanças sensoriais e fatores psicológicos pode influenciar essas preferências.
Além disso, a gravidez modifica a percepção dos sabores e a maneira como o cérebro interpreta a saciedade. Por isso, determinados alimentos podem despertar mais interesse durante esse período.
Os hábitos familiares e culturais também interferem nas escolhas. Em diferentes países, alimentos doces e ricos em gordura e carboidratos aparecem frequentemente entre os mais desejados.
Hormônios e cérebro influenciam a vontade de comer
Durante a gestação, o organismo passa por transformações hormonais e metabólicas importantes. Nesse contexto, os níveis de estrogênio e progesterona podem influenciar a percepção dos sabores e da saciedade.
Entretanto, não existe uma relação direta entre determinado hormônio e um alimento específico.
A vontade de comer chocolate, por exemplo, não significa necessariamente que a progesterona esteja provocando esse desejo.
Além disso, a gestação também envolve mudanças na atividade cerebral. Essas alterações podem atingir regiões relacionadas ao paladar, às emoções e à sensação de recompensa.
Consequentemente, a relação da mulher com a comida pode mudar ao longo dos meses.
O que uma nova pesquisa descobriu sobre os desejos na gravidez?
O estudo publicado na Nature Neuroscience investigou o comportamento alimentar de camundongos durante a gestação.
Pesquisadores do Pennington Biomedical Research Center, da Universidade Estadual da Louisiana, trabalharam com cientistas da Universidade de Illinois Chicago e do Baylor College of Medicine.
Os experimentos mostraram que as fêmeas grávidas procuravam mais alimentos ricos em gordura, açúcar e proteínas. Além disso, consumiam porções maiores e faziam refeições com maior frequência.
Um detalhe chamou a atenção: os animais apresentavam esse comportamento mesmo quando já estavam alimentados.
Qual é o papel da serotonina nesse processo?
A investigação identificou alterações em neurônios produtores de serotonina, uma substância que participa da comunicação entre células nervosas.
Esses neurônios ficam em uma região cerebral chamada núcleo dorsal da rafe. Durante a gestação dos animais, eles apresentaram menor atividade.
Os pesquisadores também observaram aumento da atividade de um canal de potássio chamado SK3. Esse mecanismo contribuiu para reduzir a atividade dos neurônios.
A equipe identificou ainda uma conexão com a área tegmental ventral, região envolvida nos processos de motivação e recompensa.
Quando os cientistas estimularam essa conexão, o comportamento de busca por alimentos diminuiu nos animais grávidos.
Apesar dos resultados, os pesquisadores ainda precisam investigar se esse mecanismo também ocorre nas mulheres.
Em qual trimestre os desejos costumam aparecer?
Os desejos podem surgir desde o início da gravidez. Entretanto, costumam atingir maior frequência durante o segundo trimestre.
Segundo observações clínicas citadas na reportagem original, muitas gestantes apresentam vontades mais intensas entre a 14ª e a 20ª semana.
No terceiro trimestre, esses desejos podem diminuir ou desaparecer.
Contudo, cada gestação apresenta características próprias. Portanto, não existe um calendário obrigatório para o aparecimento dessas vontades.
Desejos alimentares na gravidez exigem preocupação?
Na maioria das situações, não. Um desejo ocasional por determinado alimento geralmente não representa um problema quando a gestante mantém uma alimentação equilibrada.
Por outro lado, o consumo frequente de produtos muito calóricos pode comprometer a qualidade da dieta.
O excesso também pode favorecer um ganho de peso acima do recomendado. Entre as possíveis consequências estão maior risco de diabetes gestacional e alterações da pressão arterial.
Além disso, a gravidez não significa que a mulher precise comer por dois. Embora as necessidades nutricionais aumentem, isso não exige duplicar a quantidade de calorias.
Quando procurar orientação médica?
Algumas situações merecem atenção durante o pré-natal:
- Desejos que substituem refeições importantes.
- Episódios frequentes de compulsão alimentar.
- Ganho ou perda excessiva de peso.
- Dificuldade para manter uma alimentação equilibrada.
- Vômitos persistentes ou dificuldade para se alimentar.
Outro sinal importante envolve a vontade persistente de consumir substâncias que não são alimentos, como terra, sabão, giz ou gelo.
Esse comportamento recebe o nome de síndrome da pica e pode estar associado a deficiências nutricionais. Por isso, exige avaliação profissional.
No geral, os desejos alimentares representam um fenômeno complexo, que envolve corpo, cérebro e comportamento. A nova pesquisa amplia o conhecimento científico, mas ainda não oferece uma explicação definitiva para o que acontece com as gestantes.
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