Entre o anúncio e a acolhida
A teologia desse anúncio não se limita a afirmar que Deus veio ao mundo, mas reconhece que Ele escolheu permanecer em um processo contínuo de acolhida.

Por Pe. José Carlos Ferreira da Silva
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiHá muitos séculos, antes que houvesse datas ou calendários capazes de organizar a espera, Jesus já era anunciado. Sua vinda atravessou gerações como promessa, sustentada por palavras que não pretendiam explicar tudo, mas manter acesa a esperança. O anúncio não era pressa, era vigília. Não se tratava de quando, mas de quem viria.
Depois, há mais de dois mil anos, Ele nasceu. O fato histórico é simples e incontestável: um nascimento situado no tempo, em circunstâncias comuns, quase invisíveis aos grandes registros do poder. Ainda assim, aquele acontecimento alterou a forma como o tempo passou a ser contado. O eterno entrou no cronológico, não para dominá-lo, mas para habitá-lo.
Desde então, sua vida e seu projeto continuam a ser anunciados todos os dias. Não apenas em palavras religiosas ou celebrações formais, mas nos gestos que insistem em preservar a dignidade humana, na misericórdia que interrompe a lógica da exclusão, na verdade que resiste ao cinismo. O anúncio não se esgota porque não é apenas memória; é convocação.
A teologia desse anúncio não se limita a afirmar que Deus veio ao mundo, mas reconhece que Ele escolheu permanecer em um processo contínuo de acolhida. O Cristo anunciado não força entrada. Ele aguarda. Sua presença depende menos da solidez das estruturas e mais da disponibilidade de espaços humanos capazes de recebê-lo.
Por isso, o nascimento de Jesus não é apenas um evento do passado, nem se reduz a uma proclamação diária. Ele permanece como possibilidade aberta e, ao mesmo tempo, como exigência histórica. O projeto da encarnação não se completa sem lugares concretos onde possa continuar a acontecer, por meio da conversão, da escuta e da responsabilidade assumida.
Assim, o anúncio antigo se torna atual, o nascimento distante se torna próximo, e o projeto revelado se transforma em tarefa. Não porque o mundo precise de mais palavras sobre Jesus, mas porque ainda carece de lugares onde Ele possa, de fato, nascer. Que a Encarnação de Cristo continue encontrando lugar em mim e em você. Feliz Natal.
*** Pe. José Carlos Ferreira da Silva é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral – Editora Dialética. É Mestre em Ciências da Religião, Jornalista e Psicólogo. Atualmente é Vigário Episcopal para Comunicação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, Pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, bairro Independência, Cachoeiro de Itapemirim. Membro das Academia Cachoeirense de Letras.
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