O tráfico de drogas no Brasil

Muita coisa não chega claramente para essa discussão, hoje restrita ao tráfico, que alimenta fortemente a economia da miséria no Brasil, de forma perversa e preconceituosa.

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Por João Gualberto

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Acredito que a sociedade brasileira esteja banalizando muito a discussão sobre a questão das drogas, sobretudo o combate ao seu comércio, obviamente ilegal. Há alguns anos chegou a ser discutida a possibilidade da legalização das chamadas drogas leves, mas com o crescimento da extrema direita o que temos visto é a perda de densidade desse tipo de pauta, com o surgimento de uma perspectiva quase que exclusivamente policial ao seu combate. Aliás, temos assistindo a um recuo perigoso das nossas pautas de inclusão social, de uma forma geral, nos últimos anos. A luta agora é para não deixar essas questões regredirem demais no tempo, já que a pauta reacionária voltou com toda força.

A matança realizada recentemente pela polícia militar do Rio de Janeiro e o apoio manifestado por grande parte da opinião pública brasileira mostra esse olhar policialesco do qual estou falando. Parece mesmo que ações desse calibre são esperadas pela maioria, diante da gravidade do que vem acontecendo, sobretudo entre os jovens mais pobres.

Lembro-me sempre das reflexões fortes e bem construídas do sociólogo Michel Misse, capixaba de Cachoeiro recentemente falecido, acerca da territorialidade do combate ao comércio das drogas. Nessa guerra só morrem jovens pobres, em grande parte pretos, de bairros periféricos, como se os consumidores não estivessem na classe média alta, onde a polícia não está presente de forma ostensiva.  A hipocrisia brasileira determina que esse mercado só tem vendedores – todos imersos na pobreza – mas não tem compradores, até porque não se organiza a busca de drogas onde muitos sabem que estão sendo consumidas. No Brasil só os pobres pagam a conta, e mais cedo ou mais tarde ela vem em forma de tiros, dos rivais ou da própria polícia.

Muita coisa não chega claramente para essa discussão, hoje restrita ao tráfico, que alimenta fortemente a economia da miséria no Brasil, de forma perversa e preconceituosa. Os príncipes das famílias ricas, consumidores de todo tipo de drogas, parece que nada têm a ver com tudo isso. São parte da bolha inatingível da sociedade.

Para trazer um novo elemento à nossa análise, o conceituado jornalista Elio Gaspari, em sua coluna nos jornais O Globo e Folha de São Paulo do último dia 7 de dezembro, informa que o mercado americano lucra vendendo armas ao crime e ajudando muito na lavagem de dinheiro, e que, apesar de toda a ação espetacular de seu governo, Trump não quer se meter nisso. Só por esse relato dá para notar que não é matando pessoas na periferia que se vai acabar com o tráfico.  Ele tem enraizamentos muito mais densos no nosso tecido social, envolve mesmo dimensões do mercado internacional de armas.

Estimulado por meu amigo, o jornalista José Caldas, li uma pesquisa do instituto Data Favela, chamada Raio X da Vida Real, em que foram entrevistados 4.000 traficantes em favelas e comunidades de 23 estados brasileiros. O estudo apontou que 6 a cada 10 deles dizem que sairiam do crime se tivessem uma oportunidade, sendo que abrir o próprio negócio foi a opção mais citada de alternativa ao crime. Metade afirma ser a questão financeira o principal impedimento para deixar a atividade criminal. Entretanto, o que mais chamou a minha atenção foi o fato de que 42% têm outra atividade profissional, sobretudo os chamados bicos.

Isso me leva afirma que é excessivo o tratamento como bandidos simplesmente a esses trabalhadores do tráfico, como o discurso conservador gosta de afirmar. Não quero com isso afirmar dizer que não devemos ter repressão policial, o que não podemos é imaginar que esse é o caminho, no fundo, ele é muito mais complexo. Como eles exercem outras profissões, nos cruzamos com eles em nosso cotidiano, convivemos cordialmente com boa parte deles, portanto, não são pessoas perigosas a ponto de não poder circular, elas estão envolvidas no ilícito.

Outro elemento importante é que o tráfico é fonte importante de renda nas favelas e periferias brasileiras. É um meio para enfrentar a fome e a miséria, que poderiam ser bem maiores sem ele. Portanto, não se trata de uma questão simples de ser combatida. O tráfico de drogas é uma fonte de fatos horrorosos, mas temos de reconhecer que ao mesmo tempo é uma alternativa de sobrevivência que faz parte do cotidiano deste país desigual chamado Brasil.

A importância social do consumo de drogas – no alto e na base da pirâmide – é muito grande. Combater tudo isso exige muito mais do que ações teatrais de quem quer fazer populismo policial às custas dos que menos podem fazer para se defender. Exige que discutamos a abrangência desse fenômeno de sociedade, sem uma lenda de culpa e penalização.

*** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM