Política Regional

Projeção após enchente sustenta candidatura de Peter Costa à Assembleia Legislativa?

O episódio transformou o gestor em símbolo de empatia e liderança em meio ao caos

Foto: Divulgação

A tragédia climática que atingiu o município de Mimoso do Sul na noite de 22 e madrugada de 23 de março de 2024 deu projeção política significativa ao prefeito Peter Costa. O episódio transformou o gestor em símbolo de empatia e liderança em meio ao caos, projetando seu nome para além da realidade local e alimentando especulações sobre voos políticos mais altos, como uma possível candidatura à Assembleia Legislativa do Espírito Santo.

Não há dúvidas de que a condução inicial da crise contribuiu para fortalecer a imagem pública do prefeito. Em momentos extremos, a população tende a valorizar líderes que demonstram presença, sensibilidade e capacidade de articulação. Nesse aspecto, Peter Costa conseguiu se colocar como um gestor ativo, que não se escondeu diante da tragédia.

A atuação conjunta com o Governo do Estado, órgãos federais, entidades da sociedade civil e forças de segurança permitiu uma resposta rápida no socorro às vítimas e no início do processo de reconstrução após a tragédia que deixou o saldo negativo de 18 mortes confirmadas, uma pessoa desaparecida e milhares de famílias desalojadas.

O capital político, construído em meio à dor coletiva, explica em parte a expressiva vitória do prefeito na reeleição e o alto índice de aprovação registrado em pesquisas realizadas ainda em 2023.

Cadeira no Poder Legislativo Capixaba

No entanto, a pergunta central que se impõe é se essa projeção, fortemente ancorada em um episódio específico e traumático, é suficiente para credenciar Peter Costa a uma cadeira na Assembleia Legislativa.

A resposta exige uma análise mais ampla de sua trajetória administrativa, incluindo virtudes e fragilidades que antecedem e sucedem a enchente. Antes mesmo da tragédia climática, a gestão do prefeito já enfrentava críticas relevantes, especialmente no campo fiscal e previdenciário.

O Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo, por exemplo, recomendou a rejeição das contas da Prefeitura de Mimoso do Sul em diferentes exercícios, apontando irregularidades graves, com destaque para o não repasse adequado de contribuições ao Instituto de Previdência dos Servidores do município. Além disso, houve apontamentos relacionados ao descumprimento do investimento mínimo constitucional em educação, especialmente no exercício de 2023, quando a aplicação ficou abaixo dos 25% exigidos por lei.

Para um gestor que almeja ocupar um cargo legislativo estadual, esses registros não podem ser tratados como meros detalhes técnicos. Eles se transformam em argumentos políticos poderosos nas mãos de adversários, além de levantar dúvidas sobre compromisso com políticas públicas.

A própria condução do período pós-enchente também passou a ser alvo de questionamentos à medida que o impacto emocional da tragédia foi dando lugar a uma análise mais racional dos atos administrativos.

Surgiram críticas sobre a transparência na aplicação dos recursos destinados à reconstrução, especialmente em relação à ausência de informações claras e acessíveis à população sobre contratos, valores e cronogramas de obras.

Aos pontos

Embora seja natural que gestores busquem capitalizar politicamente seus atos, a linha entre comunicação institucional e exploração eleitoral de uma crise humanitária é tênue e, quando ultrapassada, pode gerar desgaste.

Por outro lado, seria equivocado ignorar os pontos positivos da trajetória do prefeito. Ele construiu sua carreira política de forma relativamente rápida, sendo eleito vereador em sua primeira disputa e, em seguida, prefeito do município. A reeleição com ampla margem demonstra que, apesar das críticas, uma parcela significativa da população reconhece seu trabalho e confia em sua liderança.

Ainda assim, a transição de prefeito de uma cidade com pouco mais de 24 mil habitantes para deputado estadual exige mais do que visibilidade episódica. Exige densidade política, histórico consistente de boa gestão, capacidade de formular propostas de alcance regional e estadual, além de articulação com diferentes segmentos da sociedade.

A enchente de 2024, por mais marcante que tenha sido, não pode ser tratada como credencial única ou definitiva. Ela representa um capítulo importante da trajetória de Peter Costa, mas não resume sua gestão nem responde, por si só, às exigências de um mandato legislativo.Peter Costa reúne qualidades que explicam sua força política local e sua projeção recente, mas também carrega fragilidades que precisam ser enfrentadas com transparência e responsabilidade. O tempo, as escolhas futuras e a disposição para corrigir erros é que dirão se essa projeção se sustentará.

Graduado em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade 2 de Julho e MBA em Comunicação Corporativa pela Unifacs, já trabalhou como produtor de jornalismo all news na Band News FM Salvador. Exerceu a função de assessor de imprensa e comunicação na Prefeitura de Madre de Deus, Grupo Varjão e Câmara Municipal de Salvador.