Como as fortes chuvas expõem cidades mal planejadas e o comportamento da sociedade

No Espírito Santo, municípios como Vitória, Vila Velha, Cariacica, Serra, Linhares, Colatina e Cachoeiro de Itapemirim já vivenciaram episódios recentes de alagamentos severos

cidade após chuvas fortes
Foto: FreePik

Por Filipe Machado

Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aqui

A cada período de chuvas intensas, diversas cidades brasileiras enfrentam o mesmo cenário: ruas alagadas, trânsito interrompido, imóveis invadidos pela água e prejuízos que se repetem ano após ano. No Espírito Santo, municípios como Vitória, Vila Velha, Cariacica, Serra, Linhares, Colatina e Cachoeiro de Itapemirim já vivenciaram episódios recentes de alagamentos severos, com impactos diretos na mobilidade urbana, no comércio e na segurança das famílias.

É comum que esses eventos sejam atribuídos exclusivamente ao volume elevado das chuvas. No entanto, a engenharia urbana demonstra que chuvas intensas são previsíveis. O que transforma a chuva em desastre é a incapacidade da cidade de absorver e conduzir adequadamente as águas pluviais. Na prática, o problema está na infraestrutura de drenagem, no planejamento urbano e na gestão contínua desses sistemas.

Grande parte das redes de drenagem das cidades capixabas foi projetada décadas atrás, para uma realidade urbana menos adensada e com maior permeabilidade do solo. Com o crescimento das áreas pavimentadas, o aumento da impermeabilização dos terrenos e a expansão urbana desordenada, o volume de água que chega às galerias aumentou significativamente. Entretanto, as tubulações, bocas de lobo e canais continuam com a mesma capacidade original, hoje insuficiente para a demanda atual.

Além disso, a ausência de manutenção preventiva agrava o cenário. Sedimentos, lixo e vegetação acumulam-se silenciosamente nas galerias e pontos de captação, reduzindo a capacidade do sistema até o momento em que ocorre o colapso. A falta de limpeza periódica e de inspeção técnica transforma pequenas chuvas em alagamentos e chuvas fortes em crises urbanas.

Outro fator relevante é a ocupação irregular de áreas naturalmente inundáveis, como margens de rios, canais e zonas de várzea. Mesmo sistemas bem dimensionados possuem limitações quando o ordenamento territorial não é respeitado. Sem controle urbano, a água simplesmente retorna ao seu caminho natural, muitas vezes sobre residências e vias públicas.

A responsabilidade não é apenas do poder público. A população também tem papel direto nesse ciclo. O descarte irregular de resíduos nas ruas, a obstrução proposital de bocas de lobo, a impermeabilização total de quintais sem qualquer solução de retenção e a ocupação de áreas de risco ampliam os impactos dos alagamentos. Drenagem urbana é uma infraestrutura coletiva, que exige corresponsabilidade de todos os atores.

Enquanto muitas cidades brasileiras ainda enfrentam dificuldades estruturais, diversos países já avançaram significativamente na solução desse problema. Cingapura implementou sistemas integrados de drenagem com reservatórios urbanos, parques alagáveis e canais inteligentes de controle de vazão. Roterdã, na Holanda, transformou praças públicas em áreas temporárias de retenção de água durante chuvas intensas. Tóquio construiu gigantescos reservatórios subterrâneos capazes de armazenar milhões de litros de água para evitar transbordamentos. Copenhague adotou ruas projetadas para funcionar como canais temporários durante tempestades, direcionando o fluxo com segurança.

Esses exemplos demonstram que o problema não é a chuva, mas a ausência de engenharia, planejamento e continuidade na gestão urbana. Cidades resilientes não nascem por acaso. Elas são projetadas, mantidas e atualizadas continuamente com base em dados, projetos técnicos e investimento consistente.

As chuvas continuarão acontecendo. O que pode mudar é a capacidade das cidades capixabas de conviver com elas sem transformar cada tempestade em prejuízo coletivo. Quando a água sobe, não é a natureza que falhou. Foi a falta de planejamento.

*** Filipe Machado é reconhecido pela experiência em perícias, auditorias, projetos e consultorias de engenharia. Formado em Engenharia Civil e Ambiental, acumula mais de 14 anos de atuação no mercado, tendo trabalhado em obras, avaliações técnicas, diagnósticos prediais, gestão de manutenção e suporte a condomínios e empresas. É também autor de três livros sobre carreira, mercado de trabalho e desenvolvimento profissional para engenheiros e estudantes da área tecnológica. Atualmente ocupa o cargo de Diretor-Geral da Mútua-ES, braço assistencial do Sistema Confea/Crea.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM