Catharina Sour, 10 anos que o Brasil fermentou um estilo para o mundo

Da experimentação catarinense ao reconhecimento global, a cerveja ácida com frutas que virou símbolo de criatividade nacional

Foto: Divulgação

Por Leandro Fidelis

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Há uma década, o Brasil colocou sua assinatura definitiva no mapa cervejeiro mundial. A Catharina Sour, primeiro estilo de cerveja 100% criado no país, celebra dez anos de oficialização como uma ideia que nasceu leve, tropical e ousada e hoje é reconhecida, premiada e replicada além das nossas fronteiras. Ácida, refrescante, de baixo amargor e aberta a infinitas combinações de frutas e especiarias, ela se tornou a tradução líquida do clima e do paladar brasileiros. A comemoração da data oficial, na última segunda-feira (19), reforça que criatividade e consistência podem, sim, caminhar juntas.

Tudo começou em 2015, quando cervejeiros de Florianópolis passaram a experimentar fermentações com frutas tropicais, buscando uma cerveja que conversasse com o calor e a diversidade do país. O estilo se consolidou em 2016 e, quatro anos depois, teve seu registro definitivo no BJCP (Beer Judge Certification Program), o guia mundial de estilos cervejeiros que cataloga mais de 250 categorias.

Desde então, a Catharina Sour virou categoria oficial em concursos internacionais, passou a ser exportada para mais de 15 países e inspirou até cervejarias alemãs a produzirem suas versões, algumas chamadas, sem pudor, de “Brazilian Sour”. O impacto é tamanho que hoje mais de 300 cervejarias produzem o estilo.

Para a sommelière de cerveja, coordenadora e professora da Escola Superior de Cerveja e Malte (ESCM), Fernanda Bressiani, o feito tem peso histórico. “Os estrangeiros podem copiar, mas nunca vão ter jabuticaba fresca, pitanga no quintal, açaí da Amazônia e maracujá do Cerrado. Isso é nosso e ponto”. A frase resume o coração da Catharina Sour: técnica aliada à identidade e ao território.

Fernanda ainda lembra que o Brasil é jovem quando se fala em escolas cervejeiras, e justamente por isso a conquista é ainda maior. O estilo atravessou fronteiras em tempo recorde. A sommelière brinca que os alemães levaram 500 anos para criar a Berliner Weisse, enquanto os brasileiros precisaram de apenas dez.

Criatividade capixaba

No Espírito Santo, de Norte a Sul, a Catharina Sour ganhou sotaque próprio. A Piwo Cervejaria Artesanal (Venda Nova do Imigrante) aposta na série “Brasilidades”, usando frutas frescas e da estação do próprio pomar, com destaque para a versão de pitanga (que esgotou em quatro dias) e a aguardada jabuticaba, a ser lançada em breve.

“A ideia é valorizar a fruta como elemento sazonal. A próxima novidade da série será o que o pomar do Jardim da Piwo ou de algum vizinho oferecer”, afirma o cervejeiro Tedesko Deps (Piwo).

Do mesmo município, a Grecco lançou uma Sour com pitaia e maracujá que se destacou no Concurso Brasileiro de Cervejas de 2022. Já a I Lupi (Ibiraçu) levou cupuaçu e pitaia vermelha à sua Giulietta (foto acima), medalha de bronze no CBC Brasil 2025 e premiada também no Concurso Nacional de Acervas, em Santa Catarina. Já a collab Pedra Azul + Fratelli Reggiani une araçá-una e morangos, enquanto a Azzurra encanta com a Catharina Sour da série KM Zero com pitaia e goiaba.

A lista segue diversa e premiada. A Barba Ruiva (Domingos Martins) assina a Pink Sour (framboesa, morango e maracujá) e a consagrada Cajuzinho com Sal. Por sua vez, a Mestra (Vila Velha) traz a série “Lágrimas d’Gusta”, com Maracurango, que dispensa tradução; Cão Chupando Manga, que usa manga verde; e Picolemon, com limão e mais cremosa.

Em Linhares, a Cervejaria Conceição apresenta a Sour Cajá (com cajá-manga anão), na imagem acima, e a Sour Morango e Acerola. Já em Vargem Alta, a Dus Grillo coleciona versões com mexerica, maracujá do mato (eleita a melhor Sour do estado em 2023) e a recente combinação de pitaia e goiaba. Diretamente de Santa Teresa, a Arte Moderna (Três Santas) mistura quatro frutas (maracujá, manga Pálmer, papaya e goiaba rosa) e, por fim, a Cervejaria Aurora (Venda Nova) oferece a Marina, de base Contemporary Gose e vendida como Catharina Sour, com frutas vermelhas.

Dez anos depois, a Catharina Sour não é apenas um estilo catalogado: é um manifesto. Alegre, divertida, refrescante e frutada, ela prova que o Brasil não só aprendeu a falar a língua da cerveja, como também inventou novas palavras. E brindou o mundo com elas.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM