Roberto DaMatta e a cidadania no trânsito

DaMatta é o último dos grandes explicadores do Brasil, vindo na mesma trajetória criada por grandes intelectuais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior ou Raimundo Faoro.

Foto: Divulgação/Detran|ES

Por João Gualberto

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Roberto DaMatta é o maior antropólogo em atividade no Brasil. Na minha opinião, mais do que antropólogo. DaMatta é o último dos grandes explicadores do Brasil, vindo na mesma trajetória criada por grandes intelectuais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior ou Raimundo Faoro. Claro que as ciências sociais brasileiras de corte etnográfico continuam revelando outros talentos, como Michel Alcoforado e Viveiros de Castro, que são exemplos vivos disso, embora tenham perspectivas bem diferentes entre si.

DaMatta ocupa, entretanto, um lugar especial e merece ser cultuado. O seu clássico Carnavais, Malandros e Heróis, de 1979, continua a nos oferecer explicações extraordinárias sobre a sociologia do dilema brasileiro, como ele propõe na obra. Mas qual é o coração desse dilema? Ele mesmo nos explica ao revisitar seus argumentos em um artigo publicado recentemente no Estadão. “Não imaginava que o dilema brasileiro, manifestado na dificuldade de seguir leis que valem para todos e que entram em conflito com a ética relacional do parentesco e das amizades, que embaraça a igualdade como valor, fosse permanecer e até mesmo engrossar nesse meio século de publicação do meu estudo”.

Continua ele, no mesmo artigo: “Como honrar a igualdade que se ancora na isenção e na imparcialidade nesse sistema movido a burlar ou criar leis e decisões que são legais, mas não são legítimas?  Não é fácil exercer a igualdade numa sociedade hierarquizada, desenhada para impedir mudanças. Somos todos letrados e filhos desse sistema que pensa em resolver seus problemas sociais com leis, cartórios e papeladas”.

Revi esses conceitos e muitos outros no podcast que participei, patrocinado pela Ecovias Capixaba, sobre as questões culturais que envolvem o trânsito. O convite se deu porque eu e também Ricardo Pandofi participamos de uma grande pesquisa, realizada em nosso Estado, sobre os elementos culturais que influenciam na forma com que os brasileiros conduzem seus carros. A pesquisa deu origem ao livro Fé em Deus e pé na Tábua: ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil, assinado por DaMatta, Pandolfi e por mim.

Nele, DaMatta traz à baila uma certa cidadania no trânsito, levando para esse palco os conceitos fundamentais da sua obra sobre igualdade e hierarquização na sociedade brasileira. É fundamentada assim a ideia de que, sem os valores da igualdade, não podemos construir um sistema de trânsito de boa qualidade, com base na cidadania e no respeito aos valores democráticos e igualitários.

A pesquisa da qual participei mostra que elementos como a hierarquia de veículos influencia o modo de se relacionar no trânsito: os motoristas dos carros mais potentes creem que podem impor regras sobre os mais antigos e menos poderosos. Eles não dizem isso, mas ultrapassam acreditando nisso, por exemplo. O machismo também se mostra presente quando os motoristas masculinos acreditam que as mulheres são barbeiras e nutrem por elas um forte desrespeito. O mesmo se dá em relação aos mais velhos no volante.

Enfim, os homens mais jovens conduzindo seus carros superiores no trânsito, por exemplo, os mais potentes, como as caríssimas Ferrari ou BMW’s, acham que podem, por razões de uma certa hierarquia de potência, impor suas próprias regras. O mesmo se dá em relação àqueles que estão na base da hierarquia do trânsito — pedestres e ciclistas —, constantemente afrontados pelo péssimo comportamento de alguns.

Em síntese, a pesquisa, realizada sob a coordenação da Futura e contratada pelo governo estadual, mostrou que os elementos culturais que constroem a matriz de raciocínio do Roberto DaMatta aplicam-se a qualquer setor da vida social em que forem considerados. Somos uma sociedade definitivamente marcada por sua origem escravocrata e aristocrática, onde a hierarquia social produziu indivíduos que se julgam maiores do que a lei.

Não é só no STF ou no Congresso Nacional que os setores no topo da hierarquia social impõem sua vontade e salvam suas famílias quando cometem erros. Essa é uma instituição imaginária, central em nossa sociedade, e precisaremos de muitos anos e muito esforço para nos livrar desses pequenos tiranos que nos importunam o tempo todo, em todos os lugares.

*** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM