O Porto de Vitória

Dentre esses temas, nos deparamos com as discussões internas naquela casa de leis sobre a enorme importância do Porto de Vitória no progresso capixaba

Foto: Reprodução | Governo Federal

Por João Gualberto

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Participo de um grupo de pesquisadores da área de história da Ufes, entre os quais se destacam as professoras Adriana Campos e Katia Motta, que está estudando os 190 anos da história da Assembleia Legislativa. Temos encontrado muito material importante sobre diversos aspectos da trajetória histórica de nosso desenvolvimento.

Dentre esses temas, nos deparamos com as discussões internas naquela casa de leis sobre a enorme importância do Porto de Vitória no progresso capixaba, desde o fim do período imperial. É bem verdade que somos um porto natural utilizado em navegações, sobretudo de cabotagem, desde o período em que éramos colônia de Portugal. Entretanto, no seu formato original, ele era insuficiente para dar vazão à produção cafeeira que havia crescido muito, e aos desejos de um futuro mais rico o nosso estado, isso no final do século XIX.

O jovem historiador Vinicius Borges me passou os documentos que mostram que os deputados da assembleia atuaram ativamente, desde os primeiros tempos, para que o Porto se transformasse na força que representa para o nosso estado. Antes mesmo que as obras que o remodelaram se iniciassem, em 1895, o então congresso legislativo aprovou dois projetos: um destinando recursos de um fundo especial e outro autorizando o presidente do estado a fazer um acordo com o governo federal, ambos visando os melhoramentos no porto.

Aliás, saiu da assembleia um projeto chamado alevantamento provincial, conforme os estudos do professor Leandro Quintão, que desenhou o papel logístico do Espírito Santo na região sudeste, em especial em relação a Minas Gerais. Esse mesmo projeto pensou nossa rede de ferrovias e o nosso sistema portuário. Nada disso é obra do acaso. É, antes, prova da capacidade empreendedora de nossas elites, em especial de Muniz Freire, o estadista que operacionalizou tais ideias e projetos.

Neste ano de 2026, fazem cento e vinte anos foram iniciadas grandes obras, para a época, na construção do Porto de Vitória, para equipá-lo a fim de ser o escoadouro natural da nossa maior riqueza: o café. Nosso e também do leste de Minas. No dia 28 de março de 1906, durante o governo do muitas vezes esquecido Henrique Coutinho, o governo federal autorizou que a Companhia do Porto de Vitória realizasse os melhoramentos necessários ao novo momento. Foi quando viramos a chave.

As ferrovias tornariam viáveis, do ponto de vista do transporte, nossas operações portuárias. Era preciso trazer para a capital do Espírito Santo os recursos da área comercial que eram drenados pelo Rio de Janeiro: bancos, casas exportadoras, companhias de seguro e todo o aparato que para cá acabou vindo.

Esse foi o grande projeto do Espírito Santo no início da república, nos fins do século XIX. Foi o nosso primeiro projeto de desenvolvimento baseado no café e na nossa vocação logística bem captada pelos deputados e pelo então presidente do estado. Aliás, nesse momento, a principal cidade capixaba não era a capital, e sim Cachoeiro de Itapemirim. As elites do sul do estado queriam levar o porto para a Barra do Itapemirim. Se tivessem conseguido, seria outra a história daquela região.

Ouso afirmar que o que consolidou Vitória como a nossa capital foi a decisão de localizar aqui o porto do Espírito Santo no início do século XX. Quando aquele projeto original ficou pronto nos anos 1940, já começamos a exportar o minério de ferro das Minas Gerais. O nosso interventor, João Punaro Bley, foi da primeira diretoria da recém constituída Companhia Vale do Rio Doce, com sede no capital da república, o Rio de Janeiro.

Inicialmente, o cais de embarque ficava no centro de Vitória mesmo, quase em frente ao Palácio Anchieta. Depois, foi para os lados de Vila Velha e, finalmente, para Tubarão, consolidando a nossa vocação portuária e logística, base da nossa industrialização recente. Tudo, entretanto, começou com a ousadia dos capixabas que pensaram o Porto de Vitória e tudo aquilo que ele representa e representou para o desenvolvimento das terras capixabas.

Quando o Espírito Santo se transformou no primeiro estado brasileiro que tem uma autoridade portuária privada, isso também não foi obra do acaso. Somos um estado que tem capital social, que soube aproveitar as oportunidades que foram surgindo, que foi crescendo junto com os novos movimentos impostos pelo tempo. O Porto de Vitória sempre esteve no epicentro de tudo isso. Por isso, os seus 106 anos devem ser saudados como a síntese de nosso progresso, como a vertente que deu certo de nossos projetos.

Enfim, Vitória se consolidou como cidade e nossa capital graças a localização do Porto de Vitória e da rede logística e comercial que ele provocou. Mais tarde, na metade do século XX, sua expansão para o Tubarão criou as condições para a nossa industrialização, oferecendo mais uma razão para celebrarmos esses 120 anos de fundação do Porto de Vitória.

*** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM