A indiferença como ausência de vínculo
Costuma-se afirmar que o contrário do amor é o ódio. A ideia parece lógica, já que ambos ocupam posições opostas no universo dos sentimentos.

Por Pe. José Carlos Ferreira da Silva
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiCostuma-se afirmar que o contrário do amor é o ódio. A ideia parece lógica, já que ambos ocupam posições opostas no universo dos sentimentos. No entanto, uma observação mais atenta das relações humanas sugere outra interpretação: o verdadeiro oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.
O ódio, embora negativo, pressupõe envolvimento. Quem odeia ainda dedica tempo, energia e pensamento ao objeto de sua aversão. Há uma ligação que permanece ativa, sustentada por ressentimentos, frustrações ou lembranças. O sentimento continua existindo porque algo ainda importa.
A indiferença segue caminho diferente. Nela não há interesse, expectativa ou investimento emocional. A presença ou a ausência do outro produz o mesmo efeito. O que antes despertava emoções intensas deixa de provocar qualquer reação. Não existe conflito, porque não existe mais conexão.
Nas relações afetivas, muitas vezes o rompimento não ocorre no momento da discussão ou da mágoa. Enquanto há dor, ainda há algum tipo de vínculo. O afastamento definitivo costuma surgir quando desaparece a necessidade de compreender, contestar ou até mesmo lembrar. Nesse estágio, o outro deixa de ocupar espaço significativo na experiência emocional.
Por isso, a indiferença pode ser considerada a forma mais silenciosa de encerramento. Ela não se manifesta por meio de palavras duras nem de gestos dramáticos. Sua característica principal é a ausência. Ausência de interesse, de expectativa e de sentimento.
Se o amor representa a capacidade de atribuir importância a alguém, a indiferença representa exatamente o contrário: a perda completa dessa importância. É nesse vazio que os vínculos, enfim, deixam de existir.
*** Pe. José Carlos Ferreira da Silva é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral, publicado pela Editora Dialética. É mestre em Ciências da Religião, jornalista e psicólogo. Atualmente, é Vigário Episcopal para a Comunicação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, no bairro Independência, em Cachoeiro de Itapemirim. É membro das Academias Iunense e Cachoeirense de Letras.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
