O espetáculo da contradição

Enquanto o mundo fala sobre crise climática, multidões continuam celebrando corridas de carros e caminhões como grandes espetáculos de entretenimento.

sol - calor intenso - clima de deserto
Foto: Divulgação

Por Pe. José Carlos Ferreira da Silva

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Recentemente, escutei do sociólogo Pedro Oliveira uma observação que me fez refletir. Ele apontava uma contradição cada vez mais evidente em nosso tempo: enquanto o mundo fala sobre crise climática, multidões continuam celebrando corridas de carros e caminhões como grandes espetáculos de entretenimento.

Os cientistas vêm alertando há décadas sobre os riscos de uma catástrofe climática sem precedentes. Relatórios sucessivos mostram o aumento da temperatura global, a intensificação de secas, enchentes e eventos extremos. Entre os principais fatores agravantes está a queima de combustíveis fósseis, responsável por grande parte das emissões de gases de efeito estufa.

É justamente aí que surge a inquietação levantada por Pedro Oliveira. Ao mesmo tempo em que manifestamos preocupação com o futuro do planeta, vibramos diante de competições movidas por combustíveis que contribuem para o problema. São máquinas que percorrem quilômetros em alta velocidade sem outra finalidade além do espetáculo. Não transportam pessoas, não distribuem alimentos, não atendem necessidades sociais urgentes. Correm em círculos enquanto recebem aplausos, atenção e investimentos.

Não se trata de condenar o esporte automobilístico nem de negar seu valor cultural e tecnológico. A questão é perceber a incoerência presente em muitos comportamentos coletivos. A crise climática exige mais do que discursos, campanhas e declarações de preocupação. Ela exige escolhas coerentes.

Ao que tudo indica, o maior desafio não seja apenas encontrar novas tecnologias, mas rever prioridades. O futuro dependerá da capacidade de alinhar aquilo que dizemos valorizar com aquilo que efetivamente incentivamos e celebramos.

*** Pe. José Carlos Ferreira da Silva é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral, publicado pela Editora Dialética. É mestre em Ciências da Religião, jornalista e psicólogo. Atualmente, é Vigário Episcopal para a Comunicação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, no bairro Independência, em Cachoeiro de Itapemirim. É membro das Academias Iunense e Cachoeirense de Letras.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM