
Por João Gualberto
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiA Capitoa é um romance escrito por Bernadette Lyra, autora de prestígio nacional, dona de uma vasta obra. Nascida em Conceição da Barra, ela dedica um outro livro, chamado Água Salobra, às memórias de sua infância e juventude naquela pequena cidade, vividas antes que as rodovias a ligassem ao resto do Espírito Santo e do Brasil. Chegava-se ali no lombo dos burros e cavalos ou através das embarcações que levavam gente e mercadorias, ansiosamente esperadas pela cidade toda.
São de uma enorme delicadeza as memórias narradas em Água Salobra. Elas contam sua relação com o seu meio social e com a prodigiosa natureza que a cercava: o mar, os pássaros, o rio Cricaré. Mostram também como se organizava sua família, aliás, a maioria das famílias daqueles tempos, que eram mais lentos, mais restritos em termos de possibilidades sociais, portanto mais simples, em todos os sentidos. No texto de Bernadette tudo se revela menos estressante. Quando criança, os adultos que a cercavam viviam em um universo mais mágico, perfumado a sal e povoado de beijus, de peixes, de sargaços, de estrelas celestes e de algas marinhas, como ela registra na crônica As Damas, que faz parte do livro.
Entretanto, o livro que dá título a esta coluna, A Capitoa, nada tem a ver com esse universo infantil mais romantizado; ele expressa um outro olhar da autora. Trata das histórias de vida de três mulheres que deixam seu país, no continente europeu, para virem morar na Capitania do Espírito Santo, no alvorecer da conquista da terra e dos povos pelos lusitanos. São elas Ana, Luíza e Antônia, que cruzam o oceano para participarem dessa enorme aventura junto a fidalgos, degredados, piratas, frades, noviços, bastardos, desorelhados, prostitutas e órfãs enviadas pelo reino. A três são respectivamente a mãe, a mulher e a amante do Capitão-Mor Vasco Coutinho, filho do nosso primeiro donatário.
Com a morte do segundo donatário, sua esposa, Luíza Grinalda, a Capitoa, passou a governar a capitania, em 1589, por ser sua viúva e o casal não ter gerado filhos. Ela governou durante quatro anos, apesar da legislação não permitir uma mulher no poder naquela época.
Aliás, essa é a força da ficção de Bernadette. A verdadeira viagem que o livro permite ao seu leitor, pelo menos na minha visão, é justamente a da vida das mulheres naquela época. As teorias vigentes davam a ideia de que mulheres eram seres de segunda categoria. Todo um imaginário ainda imerso no mundo medieval português permitia essa visão, de modo incrivelmente perverso para o universo feminino.
A começar pelo desprezo que se tinha pela Capitoa, pelo fato de ela nunca haver engravidado. Não havia a noção de amor, de romance ou mesmo de respeito como motor principal do casamento. Ele era movido sobretudo pela geração de filhos. Consequentemente, a mulher que não podia conceber, a “mulher seca” – como é dito no texto – não cumpria seu papel no mundo. A incapacidade de ser mãe era vista como obra satânica, como a possessão por um espírito maldito. Assim, a cada mês, a chegada da menstruação era o tormento de Luíza, que acabou se livrando das obrigações do casamento quando Vasco Coutinho encontrou Antônia, que se tornou sua amante, e teve com ela três filhos. Foi um alívio a alma atormentada de Luíza.
Tudo em torno do mundo feminino na colônia compunha-se de solidão, desrespeito, violência e obrigações. Isso era muito acentuado pelo fato de as elites lusitanas enviarem para a colônia prostitutas, prisioneiras e outras pessoas tidas como pervertidas pela moral tacanha da época. Ser mulher significava ter o desprezo do mundo masculino, que era cercado de teorias propagadas pelo catolicismo popular português, as quais alimentavam essa ideia da inferioridade feminina, tão presente na obra. Luíza, vitimada por esse preconceito, foi afastada da gestão da capitania. Mesmo enquanto governou, foi secundada por um fidalgo que dividia com ela o poder e legitimava sua governança.
As indígenas eram tratadas ainda com mais desprezo e falta de respeito, condições que eram agudizadas por suas origens e seu sangue. Tidas como selvagens, eram usadas como objetos sexuais pelos invasores, que, além de brutos e violentos, julgavam-se duplamente superiores. Não era fácil para elas a vida aqui naqueles tempos, situação que só fez piorar com a chegada da Inquisição do Santo Ofício na colônia. Aí as penas tornaram-se mais duras e o preconceito só fez enraizar-se cada vez mais.
A ficção a partir da história, que nos faz a grande escritora capixaba, é de muita utilidade para entendermos o presente, afinal essa chaga histórica precisa ser superada.
Temos todos uma dívida social com as mulheres que vivem e viveram no Brasil desde os tempos coloniais. A Capitoa é uma obra genial que trata desse aspecto fundamental da origem do imaginário social capixaba, além de estabelecer um diálogo interessante com Vilão Farto, de Renato Pacheco, e Capitão do Fim, de Luiz Guilherme Santos Neves. Ambos também tratam da vida do nosso primeiro donatário, de suas aventuras e desventuras em solo capixaba. Trata-se, portanto, de história e literatura andando de mãos dadas para nos ensinarem um pouco mais sobre nossas raízes imaginárias.
*** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.
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