A dor não tem calendário

O calendário na parede insiste em contar os dias. Segunda, terça, quarta. Setembro termina, outububro chega, os anos mudam.

Foto: Ilustrativa/Magnific

Por Pe. José Carlos Ferreira da Silva

O calendário na parede insiste em contar os dias. Segunda, terça, quarta. Setembro termina, outububro chega, os anos mudam. Para ele, o tempo é simples: uma folha depois da outra. Para quem sente uma ausência, porém, o tempo não obedece à mesma lógica.

Dizem que depois de alguns meses a dor diminui. Que depois de um ano tudo fica mais fácil. Pode ser que sim. Mas ninguém explica aqueles dias em que uma lembrança aparece de repente e devolve ao peito uma saudade que parecia adormecida.

Pode acontecer no supermercado, diante de uma comida que a pessoa gostava. Pode ser uma música no rádio, uma fotografia esquecida numa gaveta ou até uma frase que ela costumava dizer. Basta um detalhe. De repente, o passado entra pela porta sem pedir licença.

É estranho perceber que o mundo continua. As pessoas trabalham, fazem planos, comemoram aniversários. Enquanto isso, quem perdeu alguém aprende uma nova maneira de existir. Não se trata de esquecer, nem de superar como quem vence uma etapa. Trata-se de aprender a carregar.

Há dias leves. Em outros, a falta pesa novamente. E tudo bem. A saudade não consulta o relógio antes de chegar, assim como o amor não desaparece quando alguém parte.

É por isso que a dor não tem calendário. Certas ausências não podem ser medidas em dias, meses ou anos. Elas são medidas pelo amor que ficou. E amor, quando verdadeiro, não conhece data de validade.

*** Pe. José Carlos Ferreira da Silva é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral, publicado pela Editora Dialética. É mestre em Ciências da Religião, jornalista e psicólogo. Atualmente, é Vigário Episcopal para a Comunicação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, no bairro Independência, em Cachoeiro de Itapemirim. É membro das Academias Iunense e Cachoeirense de Letras.

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