A família que a vida nos deu

São aqueles que sabem quando nosso silêncio significa cansaço e quando esconde tristeza. Percebem, pela voz ao telefone, que alguma coisa não está bem, mesmo quando insistimos em dizer que está tudo certo.

Foto: Ilustrativa/Magnific

Por Pe. José Carlos Ferreira da Silva

Há pessoas que chegam como amigos e, sem percebermos, tornam-se família. Não há laços de sangue, sobrenomes em comum ou fotografias da mesma infância. Ainda assim, conhecem partes de nós que poucos conhecem. São aqueles que sabem quando nosso silêncio significa cansaço e quando esconde tristeza. Percebem, pela voz ao telefone, que alguma coisa não está bem, mesmo quando insistimos em dizer que está tudo certo.

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Com o tempo, deixam de precisar de convite. Entram, sentam, abrem a geladeira, conhecem nossas manias. Estão presentes nos aniversários, nas conquistas, nos dias comuns e, principalmente, quando a vida perde um pouco o rumo.

Amizades assim não exigem presença diária. Às vezes, passam semanas sem uma conversa demorada. A vida adulta traz compromissos, distâncias, horários difíceis de conciliar. Mas existe uma certeza silenciosa: quando for preciso, estarão ali. E estão. Chegam sem perguntar muito. Trazem café, oferecem companhia, escutam a mesma história quantas vezes forem necessárias. Não tentam consertar tudo. Apenas permanecem.

Com os anos, entendemos que família também pode ser construída pelos encontros que a vida oferece. Há quem compartilhe nosso sangue e há quem compartilhe nossa caminhada. Os dois vínculos podem ser preciosos.

Por isso, algumas amizades deixam de caber nessa palavra. Tornam-se abrigo, confiança, memória. Tornam-se aquele lugar seguro para onde podemos voltar quando o mundo pesa demais. Não nasceram conosco. Não cresceram na mesma casa. Mas escolheram ficar. E há poucas formas de amor tão bonitas quanto alguém que, podendo seguir seu caminho, decide caminhar ao nosso lado.

*** Pe. José Carlos Ferreira da Silva é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral  – Editora Dialética.  É Mestre em Ciências da Religião, Jornalista e Psicólogo. Atualmente é Vigário Episcopal para Comunicação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e Pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, bairro Independência,  Cachoeiro de Itapemirim.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM