
Por Marcel Carone
Meus amigos e minhas amigas,
Receba as principais notícias no seu WhatsApp!Depois de tantos abraços, conversas, encontros e histórias que marcaram esta caminhada, senti que precisava escrever esta carta. Peço, de coração, alguns minutos da sua atenção.
Antes de tudo, quero agradecer.
Agradecer por cada gesto de carinho, cada palavra de incentivo, cada porta que se abriu e cada voto de confiança que recebi ao longo dessa jornada.
A cada mãe, cada pessoa com deficiência, cada idoso, jovem, mulher e família que acreditou em mim e no nosso trabalho, o meu mais sincero obrigado.
Esta caminhada me ensinou muito. E continua me ensinando todos os dias.
Conheci ainda mais de perto a angústia de quem precisa de um medicamento e não encontra. A aflição de quem espera meses, às vezes anos, por uma terapia essencial para o desenvolvimento de um filho. A dor de quem enfrenta filas, burocracias e portas fechadas quando tudo o que precisa é de atendimento, respeito e dignidade.
Mas, acima de tudo, conheci a força extraordinária das mães que fazem do amor uma missão diária.
Mães que acordam sem saber quais desafios terão pela frente. Que enfrentam o preconceito, a falta de estrutura, a indiferença e o cansaço de uma rotina que poucos conseguem compreender.
Mulheres que carregam responsabilidades imensas, muitas vezes sozinhas, sem rede de apoio, sem descanso e, principalmente, sem alguém que cuide delas.
Mães que, mesmo exaustas, encontram forças para continuar. Que deixam seus próprios sonhos para depois, que renunciam a oportunidades e que, tantas vezes, precisam escolher entre trabalhar e cuidar de seus filhos.
Elas passam a vida cuidando de alguém. Mas quem está cuidando delas?
Essa é uma pergunta que deveria incomodar profundamente quem ocupa um cargo público.
Porque não basta reconhecer a força dessas mulheres. É preciso garantir que elas não sejam obrigadas a ser fortes o tempo inteiro. Nenhuma mãe deveria ser obrigada a escolher entre cuidar de si mesma e cuidar do próprio filho. O cuidado com um não pode significar o abandono do outro.
Foi com essas mães que aprendi algumas das maiores lições da minha vida.
O terceiro setor precisa ser respeitado
Nessa mesma caminhada, conheci ainda mais profundamente a grandeza do trabalho realizado pelas organizações sociais.
As Apaes, Pestalozzis, associações, fundações, institutos e tantos projetos sociais, inclusive aqueles desenvolvidos pelas igrejas, prestam um serviço de valor incalculável à nossa sociedade.
São instituições que estão na ponta, próximas das famílias, conhecendo suas necessidades, acolhendo suas dores e fazendo acontecer aquilo que, muitas vezes, o poder público não consegue entregar.
Mas também testemunhei situações que não podem continuar sendo tratadas com naturalidade.
Instituições sérias, comprometidas e preparadas para atender centenas ou milhares de pessoas enfrentam enormes dificuldades para acessar recursos que poderiam transformar essas realidades.
E não estou falando apenas da falta de dinheiro.
Estou falando de recursos que existem, de empresas dispostas a contribuir, de mecanismos legais de incentivo fiscal e de oportunidades que acabam desperdiçadas pela falta de estrutura, planejamento, profissionais qualificados e compromisso de determinadas administrações públicas.
É inadmissível que uma organização social precise enfrentar uma verdadeira peregrinação burocrática para conseguir recursos destinados a atender famílias.
Mais grave ainda é perceber que, enquanto processos ficam parados, pessoas continuam esperando.
A burocracia que atrasa um recurso também atrasa uma terapia, um atendimento, um tratamento e, muitas vezes, a esperança de uma família.
Precisamos compreender, de uma vez por todas, que as organizações sociais não estão pedindo favores e não podem ficar o tempo todo com pires na mão.
Elas prestam serviços essenciais e precisam ser reconhecidas, fortalecidas e respeitadas à altura da importância que têm.
Existem recursos. Falta fazer a ponte
Ao longo dessa trajetória, também compreendi que podemos avançar muito mais na mobilização de recursos para o terceiro setor.
E aqui quero compartilhar uma convicção que carrego comigo: um mandato parlamentar pode e deve ir muito além da elaboração de leis, da fiscalização, dos discursos e da destinação de emendas.
Um deputado estadual tem condições de abrir portas, aproximar instituições, mobilizar empresas, cobrar gestores públicos e construir caminhos para que recursos cheguem às organizações sociais.
Um exemplo concreto desse potencial está no Sicoob, cuja folha salarial, segundo informações que recebi, gira em torno de R$ 15 milhões por mês.
Imagine a força de uma iniciativa que envolva seus dirigentes e colaboradores em campanhas de conscientização sobre a possibilidade de destinar parte do Imposto de Renda devido aos fundos da infância, adolescência e da pessoa idosa, respeitando as regras legais.
Estamos falando de uma instituição com enorme capacidade de mobilização, que poderia inspirar muitas outras empresas e cooperativas a fazerem o mesmo.
E aqui está um ponto fundamental: não se trata de pedir que as pessoas paguem mais impostos ou que as empresas assumam novas despesas. Trata-se de mostrar como parte dos tributos que já seriam pagos pode, nos casos previstos em lei, ser direcionada a projetos sociais.
Agora imagine esse movimento envolvendo outras grandes instituições financeiras, indústrias e empresas do Espírito Santo.
Quantas famílias poderiam ser beneficiadas? Quantas organizações sociais poderiam ampliar seus atendimentos?
Mas existe um problema que precisa ser enfrentado com coragem.
De nada adianta sensibilizar o empresariado e mobilizar recursos se os municípios não oferecem estrutura, transparência, segurança e agilidade para recebê-los e destiná-los corretamente.
Quando uma prefeitura não se prepara para captar e administrar esses recursos, quem perde não é o prefeito. São as famílias.
É por isso que precisamos cobrar a profissionalização das secretarias, o fortalecimento dos conselhos municipais, a regularidade dos fundos e a qualificação das equipes responsáveis por esses processos.
E precisamos cobrar resultados.
É lamentável saber que oportunidades de investimento social acabam sendo direcionadas a outros estados porque determinadas administrações municipais não oferecem as condições necessárias para que esses recursos sejam aplicados com segurança e eficiência.
O Espírito Santo não pode continuar perdendo oportunidades por falta de capacidade administrativa ou de prioridade política.
Também precisamos olhar além das nossas fronteiras.
Temos organizações sociais com trabalhos extraordinários, capazes de despertar o interesse de empresas e instituições internacionais.
A articulação com organismos de cooperação, redes internacionais e iniciativas ligadas às Nações Unidas pode abrir novas possibilidades de financiamento, conhecimento e desenvolvimento para o terceiro setor capixaba.
O que falta, muitas vezes, não é qualidade aos nossos projetos. É acesso, articulação e oportunidade.
A política precisa servir para abrir portas, não para criar obstáculos.
Um apelo a quem recebeu a confiança das urnas
Quero também deixar uma mensagem aos deputados eleitos, a quem desejo sabedoria, sensibilidade e sucesso no exercício de seus mandatos.
Que a inclusão seja tratada com a seriedade que merece.
Que as mães atípicas, as pessoas com deficiência, os idosos e tantas famílias que enfrentam dificuldades diariamente sejam ouvidos e respeitados.
Que as organizações sociais sejam reconhecidas como parceiras fundamentais do desenvolvimento humano e social do nosso estado.
E que a defesa dessas instituições jamais seja colocada em segundo plano por conveniências políticas, disputas partidárias, cargos ou interesses pessoais.
Digo isso porque já testemunhei situações profundamente decepcionantes.
Já vi parlamentares que se apresentam como defensores da inclusão se posicionarem contra instituições sociais sérias para proteger gestões públicas equivocadas.
Isso não pode ser considerado normal.
Não existe compromisso verdadeiro com a inclusão quando a conveniência política fala mais alto do que as necessidades das pessoas.
É preciso ter independência, coragem e sensibilidade para reconhecer erros, cobrar soluções e defender aquilo que é justo, mesmo quando isso contraria interesses políticos.
A inclusão não pertence a um partido, a um governo ou a um mandato.
Ela pertence à sociedade.
E precisa estar acima de qualquer disputa de poder.
Duas curiosidades muito tristes constatadas no processo eleitoral
O que mais me entristeceu durante o processo eleitoral não foi apenas o comportamento de parte da classe política, mas perceber como certas práticas acabaram sendo naturalizadas pela própria sociedade, especialmente entre pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade social.
Quero compartilhar duas experiências que me fizeram refletir profundamente sobre isso.
A primeira aconteceu na portaria do prédio onde moro. Uma pessoa me procurou pedindo ajuda para castrar os seis cachorros de sua mãe. Até aí, um pedido absolutamente legítimo. O que me chamou a atenção foi a naturalidade com que ela disse que precisava aproveitar o período eleitoral para conseguir esse favor.
Não havia maldade naquela fala. Pelo contrário, havia uma simplicidade que tornou a situação ainda mais triste. Para aquela pessoa, parecia perfeitamente normal que uma necessidade fosse atendida em troca de uma oportunidade política.
A segunda experiência aconteceu dentro de uma igreja, onde fui convidado a apresentar nosso projeto de inclusão. Ao final da reunião, enquanto me despedia das pessoas, um dos pastores me perguntou sobre boca de urna.
Confesso que fiquei constrangido, não pela pergunta em si, mas porque sabia que minha resposta poderia constrangê-lo. Expliquei, com respeito, que não adotávamos aquela prática, justamente por entendermos que era errada.
E é aqui que está a reflexão que considero mais importante.
Quando o erro passa a ser tratado com naturalidade, o problema deixa de estar apenas em quem o pratica e passa a atingir os valores de toda uma sociedade.
É muito triste perceber que comportamentos que deveriam causar indignação acabam sendo vistos como parte normal do processo eleitoral. Mais preocupante ainda é quando essa naturalização alcança ambientes e pessoas que deveriam ser referências éticas, morais e espirituais.
Não compartilho essas experiências para expor ou julgar ninguém. Muito menos para responsabilizar pessoas simples, que tantas vezes aprenderam a enxergar a política dessa maneira porque foi assim que ela lhes foi apresentada durante décadas.
A responsabilidade maior está em quem transformou necessidades humanas em oportunidades eleitorais e fez com que tantas pessoas passassem a acreditar que pedir favores é mais natural do que exigir direitos.
Uma sociedade não pode se acostumar com isso.
A política deveria ser instrumento de transformação social, de garantia de direitos e de promoção da dignidade humana. Não um ambiente onde a vulnerabilidade das pessoas se torna moeda de troca.
E talvez uma das mudanças mais urgentes de que precisamos seja justamente essa: recuperar a capacidade de reconhecer o erro, mesmo quando ele se tornou comum.
Porque o fato de uma prática ter sido normalizada não a torna correta. E uma sociedade que aprende a conviver com o erro corre o risco de deixar de acreditar que pode viver de outra maneira.
Essa também foi uma grande lição que trouxe dessa caminhada eleitoral. E reforçou em mim uma convicção: precisamos mudar não apenas a política, mas também a cultura que permite que determinadas práticas continuem existindo.
A eleição terminou. O nosso trabalho, não
Meus amigos e minhas amigas, encerro esta carta com a mesma convicção que me trouxe até aqui.
Eu continuo acreditando nas pessoas, na força das organizações sociais e na capacidade que temos de construir um Espírito Santo mais justo, humano e inclusivo.
O resultado das urnas não muda aquilo em que acredito. Muito menos apaga tudo o que construímos juntos.
A política sempre foi, para mim, uma ferramenta para ampliar o alcance desse trabalho. Nunca foi a razão pela qual comecei.
Eu não abracei a inclusão porque decidi entrar na política. Entrei na política porque já havia abraçado a inclusão.
E é por isso que continuarei.
Com a mesma disposição para ouvir as famílias, apoiar as instituições, mobilizar a sociedade e cobrar de quem tem a responsabilidade de fazer acontecer.
Continuarei usando a comunicação, o jornalismo e as relações que construí ao longo da vida para dar visibilidade a essas histórias, denunciar o que precisa mudar e aproximar pessoas dispostas a fazer a diferença.
Sem depender de um cargo, de um mandato ou de uma eleição.
Aos que estiveram comigo, deixo um pedido: não deixem que essa caminhada termine aqui.
Continuem participando, compartilhando informações, apoiando as organizações sociais e cobrando políticas públicas que façam a diferença na vida das pessoas.
Porque nenhuma transformação verdadeira acontece sozinha.
E, se existe algo que esta caminhada confirmou, é que temos muita gente boa disposta a construir essa transformação.
A todos vocês que confiaram em mim, abriram as portas de suas casas, dividiram suas histórias e acreditaram no nosso propósito, a minha eterna gratidão.
Continuarei sendo o mesmo Marcel.
Com os mesmos valores, a mesma paixão pela inclusão e ainda mais consciência da responsabilidade que essa causa representa.
As eleições passam. Os mandatos começam e terminam. Mas as necessidades das famílias continuam. E o nosso compromisso também.
Porque inclusão não é estratégia de campanha. Não é discurso. Não é uma causa de ocasião.
É sobre pessoas. É sobre dignidade. É sobre vidas que não podem esperar.
Inclusão é o nosso projeto de vida. E projeto de vida não tira férias!
Com carinho, gratidão e compromisso,
*** Marcel Carone é embaixador da Inclusão.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
