A reinvenção aristocrática brasileira
Os três poderes estão presentes nas denúncias apuradas, o legislativo, o executivo e o judiciário aparecem inclusive nas gravações retiradas do telefone do principal envolvido nas inúmeras falcatruas.

Por João Gualberto
Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aquiEstamos todos acompanhando, já há algum tempo, o desenrolar do intrincado caso do Banco Master, misto de fraude, corrupção e toda uma sorte de privilégios. Nas apurações, podemos ver de forma clara o envolvimento de vários personagens da cúpula da república. Os três poderes estão presentes nas denúncias apuradas, o legislativo, o executivo e o judiciário aparecem inclusive nas gravações retiradas do telefone do principal envolvido nas inúmeras falcatruas.
As evidências são as de que foram montadas operações para lesar instituições, com a participação de agentes públicos que deveriam controlar a legalidade e honestidade no funcionamento dos bancos. O que chama a atenção hoje, é a frequência como que casos tão escabrosos veem à tona, se repetem de forma sistemática. Somos um país extremamente burocratizado, os controles atazanam nossa vida, e quem opera com o setor público sabe das dificuldades para estabelecer contratos e receber valores. Eles, entretanto, não evitam as grandes fraudes.
Para a minha geração, houve um tempo em que sonhamos que o Brasil iria avançar na construção de uma sociedade mais justa, e com mais controle desses e de outros eventos desastrosos. Nos anos 1980, com o fim da ditadura e a nova constituição a esperança foi nossa marca, e não foi sem motivo. As eleições começaram a renovação dos quadros da política, o fim da censura liberou a produção artística de um controle asfixiante. Filmes com Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto mostram isso com clareza a situação para os que não viveram aqueles pesadelos.
O que a vida tem nos demonstrado, entretanto, é que os mecanismos constitucionais e dispositivos legais não são suficientes para vencer os padrões culturais que apoiam a corrupção e a apropriação do estado por parte do estamento burocrático. Fizemos muitos progressos nesses anos de construção democrática, para ficar alguns exemplos do que o exercício da liberdade nos fez, temos uma produção cinematográfica muito premiada internacionalmente, a cultura popular vem alcançando espaços onde não era reconhecida antes, com por exemplo a divulgação de festejos populares e a valorização da religiosidade afro-brasileira, o respeito pela diversidade aumentou muito.
Entretanto, o coração da nossa desigualdade continua batendo com a mesma intensidade, e a cultura que dá ao doutor o privilégio de sentir-se superior aos brasileiros comuns não diminuiu com os avanços no campo da democracia, antes pelo contrário. Aliás, a maior autonomia orçamentária que os poderes adquiriram em relação ao executivo não tornou o legislativo e o judiciário mais ágeis ou bem equipados, apenas mais centrados no bem-estar de alguns poucos.
O que temos visto é um crescimento dos ganhos salariais dos grandes burocratas encastelados nos três poderes. A desigualdade se aprofundou no Brasil. O fosso salarial entre os trabalhadores comuns e as cúpulas do setor público é um dos maiores do mundo. O país tem gerado mais negócios, mais impostos, mais riqueza, e ela tem ficado concentrada nas cúpulas empresariais e do setor público, ou é desperdiçado pela corrupção.
É uma espécie de reinvenção aristocrática brasileira, enquanto o grosso da população se embola em um sistema de transporte coletivo medíocre nas grandes cidades, se amontoa em filas intermináveis nos locais onde se presta serviços públicos, os magnatas do poder público desfilam em carros blindados, os prédios públicos que os abriga substituíram os velhos palácios dos tempos imperiais.
O coração do problema não foi tocado, que é a cultura da desigualdade e o sentimento das elites que elas tudo podem. Nós temos que começar uma desconstrução desse elemento imaginário o mais rápido possível. Os poderosos das instituições públicas não podem multiplicar seus salários por expedientes baseados na cultura do jeitinho brasileiro, em uma legislação que permite interpretações ao gosto dos julgadores.
Creio ser essa a verdadeira revolução brasileira, punir os corruptos e controlar os altos salários do poder público. Tirar os poderes de quem pode se aproveitar deles, nossa construção democrática tem que acabar com esses privilégios todos, senão seremos para sempre um país injusto em nome da justiça.
*** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.
As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM
