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Banalidade do autoritarismo

Em meu último artigo, fiz um breve comentário sobre o livro Como Salvar a Democracia de dois autores estadunidenses, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt

3 mins de leitura

em 26 de jan de 2024, às 15h04

Foto: Pixabay

Por João Gualberto

Em meu último artigo, fiz um breve comentário sobre o livro Como Salvar a Democracia de dois autores estadunidenses, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Eles analisam, basicamente, as ameaças que estão colocadas para a democracia em seu país. Na sólida argumentação que constroem, relembram movimentos do passado que, em suas épocas, também foram ameaças ao sistema democrático e se concretizaram no nazismo, no fascismo, no salazarismo e no franquismo, para citar as mais conhecidas entre nós.

Atraiu, particularmente, a minha atenção, um movimento ocorrido na França, nos anos 1930, pela semelhança com acontecimentos recentes em nosso país. Narram, os autores, que na noite do dia 06 de fevereiro de 1934, dezenas de milhares de jovens raivosos – na maioria participantes de associações de veteranos ou de ligas de direita, que ostentavam nomes como Juventudes Patrióticas, Ação Francesa ou Cruz de Fogo – reuniram-se na Place de la Concorde/ Praça da Concórdia.

Os acontecimentos tomaram rumos inesperados. Houve queima de ônibus, e os manifestantes arremessaram objetos em direção à Assembleia Nacional. O violento ataque de 06 de fevereiro foi contido, mas produziu profundas marcas na política francesa. Os insurgentes afirmaram que eram patriotas heroicos que haviam tentado salvar a república da corrupção, do comunismo e da ausência de função pública. Eram mártires. Para eles, foi a polícia quem errou ao conter as manifestações.

Quando o nazismo passou a ser uma ameaça a toda a Europa, esses mesmos grupos de extrema direita na França aderiram aos seus princípios autoritários. Quando o exército alemão invadiu aquele país, no início da Segunda Guerra Mundial, foram os membros de entidades, como a Juventude Patriótica, que colaboraram com os nazistas. Através deles, foi instituído um regime de colaboração com os invasores, na cidade de Vichy.

Mais do que isso, foram os que deram suporte à propaganda desse regime. Foram eles, os que mataram a democracia francesa, seis anos depois dos lamentáveis acontecimentos de 1934. Foram os seus líderes, os responsáveis pela entrega dos judeus, enviados aos milhares para a morte nos campos de concentração.

É muito perigoso as elites tradicionais, situadas no campo da direita e da centro direita, incitarem grupos raivosos da chamada extrema-direita para darem apoio mais violento aos seus interesses, como bem mostra a experiência francesa. Em boa parte dos casos, perde-se o controle dos acontecimentos. A história da ascensão do nazismo e do fascismo na Europa, mostra que, em cada um dos países invadidos, houve colaboração desses grupos extremistas de direita.

Essa colaboração foi construída durante décadas, e, sem ela, não teria havido a devastação que a guerra produziu. Os apoios nacionais de grupos de ultradireita foram fundamentais na construção de uma ordem que gerou a simpatia que fez Hitler e Mussolini avançarem. No fundo, esses grupos queriam que o nazismo triunfasse e seriam os apoiadores nacionais desses regimes.

Por evidências históricas, como essa, é que devemos temer o crescimento de um patriotismo exacerbado, estribado em teses de intolerância e de exclusão dos adversários. Já que existe uma polarização inevitável no Brasil, que ela se dê no terreno da racionalidade política, a qual não admite que extremismos sobrevivam.

** João Gualberto é pesquisador e professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA), e já foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM

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