Carta aberta à sociedade sobre os serviços públicos e a realidade da educação

Escrevo esta carta não apenas como profissional da educação, mas como alguém que há nove anos vive, diariamente, os desafios da escola pública brasileira.

processo seletivo educação Linhares
Foto: Freepik

Por Myrella Benevenuto

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Escrevo esta carta não apenas como profissional da educação, mas como alguém que há nove anos vive, diariamente, os desafios da escola pública brasileira. Ao longo dessa trajetória, atuei como assistente de sala, assistente de educação especial, professora regente e, atualmente, como pedagoga. Trabalhei em três municípios distintos dentro do meu estado e, apesar das diferenças geográficas, a lógica administrativa se mantém a mesma: decisões verticais, orientações impostas de cima para baixo e uma rotina cada vez mais burocratizada que distancia o papel da realidade.

A educação pública brasileira tornou-se, em muitos aspectos, refém de registros, planilhas, sistemas e relatórios que precisam comprovar uma aprendizagem que, na prática, nem sempre se consolida. A alfabetização e o desenvolvimento acadêmico são frequentemente atestados por documentos, mas não se efetivam na idade ou na série adequada. A realidade é dura: muitos estudantes chegam ao 6º ou 7º ano do Ensino Fundamental sem domínio da leitura fluente, sem compreensão textual satisfatória e com sérias dificuldades nas quatro operações matemáticas. Ainda assim, somos pressionados a apresentar índices positivos, pois o cumprimento de metas está diretamente vinculado ao repasse de recursos.

Não se trata de atribuir culpa isoladamente ao professor, tampouco ao estudante. O problema é estrutural. A escola não opera de forma integrada com os demais serviços públicos que deveriam sustentar o desenvolvimento pleno da criança e do adolescente. Recebemos em sala de aula alunos inseridos em contextos de vulnerabilidade social profunda, marcados por famílias desassistidas, ausência de acompanhamento psicológico, falta de acesso à saúde e carência de políticas públicas eficazes.

Em salas superlotadas — muitas vezes com 35 ou mais estudantes —, em ambientes quentes, com acústica inadequada e múltiplas demandas simultâneas, espera-se que o professor realize o impossível. Há turmas com estudantes público-alvo da educação especial, alunos que necessitam de acompanhamento individualizado, outros que enfrentam transtornos, deficiências intelectuais ou emocionais não diagnosticadas a tempo, e ainda aqueles que vivem situações de risco social. A inclusão, princípio essencial e legítimo,

transforma-se em inclusão meramente formal quando não há suporte técnico, equipe multidisciplinar ou estrutura adequada.

É comum encontrarmos adolescentes em anos finais do Ensino Fundamental que não foram alfabetizados na idade certa, não por negligência exclusiva da escola, mas por um conjunto de omissões acumuladas: falta de diagnóstico precoce, ausência de atendimento especializado, dificuldades de acesso ao sistema público de saúde e acompanhamento familiar insuficiente. Quando o problema finalmente é reconhecido, recai sobre o professor a responsabilização pelo insucesso de um processo que deveria ter sido coletivo e intersetorial.

Há também estudantes envolvidos com drogas, jovens em sofrimento psíquico, famílias que já não sabem como lidar com os próprios filhos. Os pais, muitas vezes, enfrentam a burocracia exaustiva para conseguir apoio dos serviços públicos. Enquanto isso, exige-se que o professor mantenha todos os alunos motivados, interessados e produtivos, independentemente das circunstâncias.

A escola torna-se, por vezes, espaço de compensação das falhas sociais: assistencial, psicológica, familiar e até médica. No entanto, os profissionais da educação também são seres humanos. Temos nossas próprias famílias, nossas responsabilidades e limites. O adoecimento mental na categoria cresce de forma alarmante, sem que haja políticas efetivas de cuidado e valorização.

A lógica das metas, dos índices e das aprovações automáticas contribui para um ciclo de promoção sem aprendizagem real. Empurram-se estudantes adiante para evitar retenções que prejudiquem estatísticas. Constrói-se uma aparência de sucesso que mascara fragilidades profundas. A educação, que deveria ser instrumento de emancipação, torna-se prisioneira de números.

Pergunta-se: de quem é a responsabilidade? Certamente, a responsabilidade é compartilhada. Mas é preciso questionar até onde vai a fiscalização das políticas públicas e quem, de fato, fiscaliza a qualidade do que se apresenta como resultado.

Os profissionais da educação recebem salários incompatíveis com o grau de responsabilidade que assumem diariamente. Somos cobrados por resultados que dependem de uma rede de apoio que raramente funciona de forma articulada. Exige-se excelência sem que se ofereçam condições dignas de trabalho.

Esta carta é um apelo à reflexão coletiva. Precisamos abandonar a cultura do “papel que comprova” e investir na aprendizagem que transforma. Precisamos valorizar os profissionais que sustentam o sistema educacional e garantir que a

inclusão seja verdadeira, estruturada e responsável. Educação de qualidade exige parceria real entre família, escola e poder público.

Enquanto mantivermos a aparência acima da essência, continuaremos produzindo relatórios satisfatórios e resultados insuficientes.

Que esta seja uma convocação ao diálogo, à responsabilidade compartilhada e à reconstrução de um sistema público que funcione não apenas nos documentos,  mas  na  vida  real  de  nossas  crianças  e  adolescentes.

** Myrella Benevenuto é pedagoga.

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM