Do Himalaia ao mundo, os sinais de uma crise climática próxima do ponto de não retorno

Enquanto um El Niño se intensifica sobre oceanos já aquecidos, o mundo acumula evidências de que a crise climática já não anuncia apenas os desastres do futuro.

Foto: Reprodução

Por Elias Carvalho

Receba as principais notícias no seu WhatsApp! clique aqui

A tragédia veio do alto do Himalaia, mas o alerta atravessa o planeta. O desprendimento de uma geleira na fronteira do Nepal com o Tibete, provavelmente favorecido pelo aquecimento anormal nas montanhas e por outros fatores geológicos, tornou-se o retrato mais dramático de 2026, um ano marcado por incêndios, secas, chuvas extremas e calor recorde. Enquanto um El Niño se intensifica sobre oceanos já aquecidos, o mundo acumula evidências de que a crise climática já não anuncia apenas os desastres do futuro. Ela ajuda a moldar as tragédias do presente e reduz, a cada ano, nossa capacidade de reação. 

O colapso liberou uma massa de gelo, rochas e sedimentos que despencou pela montanha até atingir o vale do rio Lhende Khola. A avalanche desencadeou uma inundação repentina que avançou pela fronteira entre o Nepal e o Tibete, na China, destruindo comunidades, estradas, pontes e estruturas de geração de energia.

As investigações sobre o desastre ocorrido em 26 de agosto ainda são preliminares, mas há razões fortes para acreditar que o aquecimento global contribuiu para o colapso, aliado às características geológicas da região. O recuo das geleiras, o descongelamento do solo permanentemente congelado e as alterações nos ciclos de congelamento e degelo reduzem a estabilidade das montanhas e deixam encostas inteiras mais vulneráveis.

O episódio no Himalaia é parte de um cenário que se repete em diferentes continentes. As mudanças climáticas nem sempre iniciam cada incêndio, tempestade ou deslizamento, mas transformam o ambiente em que esses fenômenos acontecem, tornando-os mais prováveis, intensos e destrutivos.

O calor acumulado no planeta fornece a dimensão do problema. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, julho de 2026 empatou com julho de 2024 como o mês mais quente já registrado. Para o observatório europeu Copernicus, foi o segundo julho mais quente, com temperatura média global 1,47°C acima do nível pré-industrial. A temperatura da superfície dos oceanos fora das regiões polares atingiu o maior valor já observado para o mês.

É também nesse planeta mais quente que um El Niño voltou a se desenvolver no Oceano Pacífico. O fenômeno é natural e ocorre em intervalos irregulares, geralmente entre dois e sete anos. Ele é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e modifica a circulação atmosférica, alterando os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.

O aquecimento global não cria o El Niño, mas potencializa seus efeitos. O fenômeno agora atua sobre oceanos e uma atmosfera que já estão mais quentes. Mares aquecidos liberam mais energia e umidade, enquanto temperaturas mais elevadas aceleram a evaporação da água do solo. O resultado pode aparecer como calor e seca mais severos em algumas regiões e chuvas mais intensas em outras.

Os sinais se espalham pelo mapa de 2026. No sul da África, chuvas persistentes provocaram inundações em Moçambique, África do Sul, Zimbábue e Eswatini, deixando mais de 200 mortos. 

Na Austrália, uma onda de calor levou as temperaturas para além dos 40°C e criou condições perigosas para incêndios. O evento ficou cerca de 1,6°C mais quente e pelo menos cinco vezes mais provável por causa do aquecimento global. No Chile e na Patagônia argentina, calor, seca e vento alimentaram incêndios que destruíram casas, florestas nativas e áreas protegidas. Segundo os pesquisadores, as condições favoráveis ao fogo se tornaram aproximadamente três vezes mais prováveis no Chile e 2,5 vezes mais prováveis na Patagônia.

Na Índia e no Paquistão, cidades superaram os 46°C ainda entre abril e maio. A onda de calor, que provocou mortes, perdas agrícolas e recordes no consumo de energia, tornou-se cerca de três vezes mais provável devido às mudanças climáticas. Na Europa, ondas sucessivas de calor foram acompanhadas por seca, redução da vazão de rios e incêndios na França e na Espanha. Em algumas áreas espanholas, as condições meteorológicas propícias à propagação do fogo ficaram pelo menos 20 vezes mais prováveis.

No Canadá, mais de 4,4 milhões de hectares já haviam queimado até o fim de agosto. A fumaça atravessou fronteiras e comprometeu a qualidade do ar em grandes cidades dos Estados Unidos. Em Ontário e nos Territórios do Noroeste, o aquecimento multiplicou a probabilidade das condições extremas que dificultaram o controle das chamas.

Do outro lado do planeta, as chuvas de monção inundaram partes de Bangladesh, Índia e Paquistão. Enchentes atingiram a região de Assam, o tufão Noul levou à retirada de mais de 700 mil pessoas na China e precipitações recordes causaram mortes e paralisaram os transportes no Japão. No oeste da África, inundações atingiram Costa do Marfim, Gana, Togo e Nigéria. Madagascar sofreu a passagem quase consecutiva dos ciclones Fytia e Gezani, que deixaram cidades destruídas e centenas de milhares de pessoas afetadas.

No Brasil, as chuvas e os deslizamentos que deixaram 72 mortos em Minas Gerais também mostraram como o aquecimento se combina com problemas históricos. Ocupação de encostas, falta de drenagem, moradias frágeis e sistemas de alerta insuficientes ampliam os impactos das tempestades.

Essa é outra lição que 2026 impõe. Um fenômeno natural se transforma em desastre quando encontra pessoas expostas, cidades despreparadas e ecossistemas degradados. Enfrentar a crise climática exige reduzir as emissões, mas também preparar as sociedades para os impactos que já não podem ser evitados.

Já passou da hora de adotar medidas mais firmes. Isso significa reduzir rapidamente o uso de combustíveis fósseis, interromper o desmatamento, recuperar florestas, proteger nascentes, adaptar a agricultura, impedir novas ocupações em áreas de risco e investir em drenagem, monitoramento, alertas e planos de evacuação. Também significa garantir recursos para que países e comunidades mais vulneráveis possam se proteger de uma crise que ajudaram muito pouco a provocar.

Não existe um único ponto de não retorno para todo o planeta. Existem vários limites perigosos, relacionados às geleiras, às grandes camadas de gelo, aos recifes de coral, ao permafrost e a florestas como a Amazônia. Alguns deles podem estar mais próximos do que conseguimos calcular. Depois de ultrapassados, determinadas mudanças não poderão ser revertidas dentro de muitas gerações, por maior que seja a tecnologia disponível.

Isso não significa que não exista mais nada a fazer. Cada décimo de grau evitado reduz perdas, mortes e destruição. Mas a margem está diminuindo. Chegará um momento em que não será possível reconstruir um ecossistema desaparecido, recolocar uma geleira na montanha ou adaptar comunidades a um calor incompatível com a vida humana. O desastre no Himalaia talvez ainda precise de respostas científicas definitivas. Como advertência, porém, ele já é suficientemente claro.

** Elias Carvalho é Presidente do Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB).

As informações/opiniões aqui escritas são de cunho pessoal e não necessariamente refletem os posicionamentos do AQUINOTICIAS.COM